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6. Mas há outra utilidade, não menos importante, que do Rosário a Igreja espera para seus
filhos, ou seja, a de empenhá-los em conformar a sua vida e os seus costumes às normas e
aos preceitos da santa fé. De todos é conhecida a divina afirmação de que "a fé sem as obras
é ineficaz" (Tiago 2, 20) ; porque a fé haure vida da caridade, e a caridade se manifesta
numa floração de ações santas. Por isto o cristão certamente não tirará nenhum proveito da
sua fé para a aquisição da eternidade, se por esta sua fé não houver inspirado a sua conduta.
"Que adianta, irmãos meus, se um diz que tem fé, mas não tem as obras? !caso poderá
salvá-lo a fé?" (Tiago 2, 14). Antes, tais cristãos serão por Cristo juiz bem mais asperamente
exprobrados do que aqueles míseros que não conhecem nem a fé nem a moral cristã; porque
estes últimos não crêem de um modo e vivem de outro, como sem razão fazem aqueles
outros, mas, sendo privados da luz do Evangelho, têm uma certa atenuante, ou certamente a
sua culpa é menos grave. Ora, a contemplação dos mistérios propostos no Rosário ajuda a
fazer brotar da nossa fé uma abundante e alegre messe de frutos, porque incita
maravilhosamente a alma a propósitos de virtude. Ora, que sublime e esplêndido exemplo
nos oferece, sob todos os aspectos, a obra de salvação realizada por Nosso Senhor Jesus
Cristo! O grande, o onipotente Deus, impelido por um excesso de amor para conosco,
abaixa-se até à condição do mais mísero homem; entretém-se conosco como um de nós;
conversa fraternalmente, ensina os indivíduos e as multidões em toda ordem de justiça;
mestre eminente pela sua palavra, Deus pela sua autoridade. Mostra-se pródigo de
benefícios para com todos; cura os que sofrem de moléstias corporais, e com misericórdia
paternal leva alívio às moléstias, mais graves estas, da alma; ale modo particular volve-se
para aqueles que estão abatidos pela dor, ou estão oprimidos pelo peso das suas
inquietações, e convida-os: "Vinde a mim, vós todos que estais fatigados e oprimidos, e eu
vos consolarei" (Mt. 11, 28). Quando, pois, repousamos nos seus braços, Ele nos inspira
algo desse místico fogo que Ele trouxe aos homens; infunde-nos amorosamente algo da
mansidão e da humildade de sua alma; e deseja que, pela prática destas virtudes, nós nos
tornemos participantes da paz verdadeira e estável, de que Ele é o autor. "Aprendei de mim,
que sou manso e humilde de coração; e achareis repouso para vossas almas" (Mt. 11, 29).
Todavia, em compensação de tanta luz de sabedoria celeste e da abundância de tão
excepcionais benefícios, que deveriam granjear-lhe a gratidão dos homens, Ele sofreu o ódio
e os insultos mais atrozes; sem embargo, quando, pregado na cruz, derrama todo o seu
sangue, não tem desejo mais ardente do que este: por meio da sua morte regenerar os homens
para a vida. Absolutamente não é possível que alguém considere e contemple atentamente
estes belíssimos testemunhos de amor do nosso Redentor, sem arder de viva gratidão para
com Ele. Antes, a fé, se for autêntica, terá então um poder tal, que, iluminando a mente do
homem e comovendo-lhe o coração, como que o arrastará a seguir as pegadas de Cristo,
através de todos os obstáculos, até fazê-lo prorromper naquele protesto digno de Paulo:
"Quem nos separará do amor de Cristo? a tribulação, ou a angústia, ou a fome, ou a nudez, ou
o perigo, ou a perseguição, ou á espada?" (Rom. 8, 35). "...já não vivo eu, mas vive em mim
Cristo" (Gal. 2, 20).
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