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7. Mas, para que nós, aterrados pela consciência da nossa natural fragilidade, não
desfaleçamos em face dos exemplos verdadeiramente sublimes de Cristo, Deus e Homem,
juntamente com os seus mistérios oferecem-se à nossa contemplação os mistérios de sua Mãe
Santíssima. Ela descende, é verdade, da linhagem real de David; ruas da riqueza e do
esplendor dos seus antepassados não lhe resta mais nada; leva uma vida obscura, numa
humilde cidade, e numa casa ainda mais humilde; tanto mais satisfeito com a sua solidão e
com a sua pobreza quanto pode, com coração mais livre, elevar-se a Deus, e unir-se
totalmente ao seu sumo e desejadíssimo bem. Mas o Senhor está com ela, e cumula-a e a faz
bem-aventurada da sua graça. E é justamente ela que o celeste mensageiro designa como a
mulher da qual, por virtude do Espírito Santo, deverá vir para entre nós homens o esperado
Salvador das gentes. Quanto mais ela admira a sublime altura da sua dignidade, e por ela
rende graças à onipotente e misericordiosa bondade de Deus, tanto mais se humilha e se
julga destituída de toda virtude. E, enquanto se Lhe torna a Mãe, sem hesitação se proclama e
se protesta sua escrava. E, conforme santamente prometeu, santa e prontamente estabelece
desde então uma perpétua comunhão de vida com seu Filho Jesus, tanto na alegria como no
pranto. Assim ela atingirá tal altura de glória qual nenhum homem nem Anjo poderá jamais
atingir, porque ninguém poderá ser-lhe jamais comparado em virtude e em méritos. Assim, a
ela caberá a coroa do Céu e da terra, porque ela se tornará a invicta Rainha dos mártires.
Assim, na celeste cidade de Deus, ela se assentará, eternamente coroada, junto de seu Filho,
porque constantemente, durante toda a sua vida, porém de modo particular no Calvário,
beberá com Ele o cálice transbordante de amargura. Eis, portanto, que a bondade e a
Providência divina nos deu em Maria um modelo de todas as virtudes, todo feito para nós.
Porque, considerando-a e contemplando-a, as nossas almas já não ficam ofuscadas pelos
fulgores da divindade, senão que, atraídas pelos vínculos íntimos de uma comum natureza,
com maior confiança se esforçarão por imitá-la. Se, amparados pelo seu eficaz auxílio, nós
nos dedicarmos com todas as nossas forças a esta obra, certamente conseguiremos
reproduzir em nós ao menos algum traço de tão grande virtude e santidade; e, depois de
havermos imitado a sua admirável conformidade com as divinas vontades, poderemos
juntar-nos a Ela no céu. Se bem que a nossa peregrinação terrena seja áspera e eriçada de
dificuldades, caminhemos intrépidos e corajosos rumo à meta. E, nas nossas penas, nos
nossos trabalhos, não cessemos de estender pára Maria as nossas mãos súplices, dizendo
com a Igreja: "A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas Eia, pois,
esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei! Dai-nos uma vida pura, preparai-nos uma
trilha segura, para que possamos gozar eternamente da vida de Jesus" (Da sagrada liturgia).
E ela, que, mesmo sem jamais a haver experimentado, conhece a fraqueza e a corrupção da
nossa natureza, ela que é a melhor e a mais solícita de todas as mães, oh! como virá propícia
e pressurosa em nosso auxílio! E com que ternura nos consolará) Com que força nos
sustentará) Percorrendo a trilha, consagrada pelo Sangue de Cristo e pelas lágrimas de
Maria, também nós chegaremos, segura e facilmente, à participação da bem-aventurada
glória.
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