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10. Pois bem: ainda contra este mal é bem justificado esperar-se do Rosário de Maria um
remédio que, pela força do exemplo, pode grandemente contribuir para fortalecer os ânimos.
E isto se obterá se os homens, desde a sua primeira infância, e depois constantemente em
toda a sua vida, se aplicarem, no recolhimento, à meditação dos mistérios dolorosos.
Através destes mistérios vemos que Jesus, "guia e aperfeiçoados da fé", começou a fazer e a
ensinar, a fim de que víssemos n'Ele próprio o exemplo prático dos ensinamentos que Ele
daria à nossa humanidade, acerca da tolerância da dor e dos trabalhos; e o exemplo de Jesus
chegou a tal ponto, que, voluntariamente e de grande coração, Ele mesmo abraçou tudo o que
há de mais duro de suportar. Com efeito, vemo-lo como um ladrão, julgado por homens
iníquos, e feito alvo ode ultrajes e de calúnias. Vemo-lo flagelado, coroado de espinhos,
crucificado considerado indigno de continuar a viver, e merecedor de morrer entre os
clamores de todo um povo. Consideremos a aflição de sua santíssima Mãe, cuja alma não foi
somente roçada, mas verdadeiramente "traspassada" pela "espada cia dor"- de modo que ela
mereceu ser chamada, e realmente se tornou, a Mãe das dores.
11. Todo aquele que se não contentar com olhar, porém meditar amiúde exemplos de tão
excelsa virtude, oh! como se sentirá impelido a imitá-los! Para esse, ainda que seja "maldita
a terra, e faça germinar espinhos e abrolhos", ainda que o espírito seja oprimido pelos
sofrimentos, ou o corpo pelas doenças, nunca haverá nenhum mal causado pela perfídia dos
homens ou pelo furor dos demônios, nunca haverá calamidade, pública ou privada, que ele
não consiga superar com paciência. E', pois, realmente verdadeiro o dito: "E' de cristão
fazer e suportar coisas árduas"; porque todo aquele que não quiser ser indigno desse nome
não pode deixar de imitar Cristo que sofre. E repare-se em que como resignação não
entendemos a vã ostentação de um ânimo endurecido à dor, como o tiveram alguns filósofos
antigos; mas sim essa resignação que se funda no exemplo d'Aquele que "em lugar do gozo
que tinha diante de si, suportou o suplício da Cruz, desprezando a ignomínia" (Heb 12, 2);
essa resignação que, depois de pedir a Ele o necessário auxilio da graça, de modo algum
recusa afrontar as adversidades; antes, alegra-se com elas, e considera um lucro qualquer
sofrimento, por mais acerbo que seja. A Igreja Católica sempre teve, e tem ainda agora,
insignes campeões de tal doutrina: homens e mulheres, em grande número, em todas as partes
do mundo, de todas as condições. Estes, seguindo as pegadas de Cristo, em nome da fé e da
virtude suportam contumélias e amarguras de todo gênero, e têm como seu programa, mais
com os fatos do que com as palavras, a exortação de S. Tomé: "Vamos também nós, e
morramos com Ele" (Jo. 11, 16).
12. Oh! praza ao Céu que exemplos de tão admirável fortaleza se multipliquem sempre mais,
a fim de que deles brote segurança para a sociedade, e virtude e glória para a Igreja.
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