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13. O terceiro mal para o qual é preciso achar um remédio é particularmente próprio dos
homens dos nossos dias Com efeito, os homens dos tempos passados, mesmo quando com
excessiva paixão procuravam as coisas terrenas, contudo não desprezavam totalmente as
celestes; antes, os mais sábios entre os próprios pagãos ensinaram que esta nossa vida é um
lugar de hospedagem e uma estação de passagem, antes que uma morada fixa e definitiva. Ao
contrário, muitos dos modernos, embora educados na fé cristã, procuram de tal modo os bens
transitórios desta terra, que não somente esquecem uma pátria melhor na eternidade
bem-aventurada, mas, por excesso de vergonha, chegam a cancelá-la completamente de sua
memória, contra a advertência de S. Paulo: "Não temos aqui uma cidade permanente, porém
demandamos a futura" (Heb. 13, 14). Quem quiser examinar as causas desta aberração logo
notará que a primeira delas é a convicção de muitos de que o pensamento das coisas eternas
extingue o amor da pátria terrena e impede a prosperidade do Estado. Calúnia odiosa e
insensata. E, de fato, os bens que esperamos não são de natureza tal que absorvam os
pensamentos do homem até o ponto de o distrair inteiramente do cuidado dos interesses
terrenos. O próprio Cristo embora recomendando-nos procurarmos antes de tudo o reino de
Deus, com isto nos insinua que não devemos descurar tudo o mais. E, de fato, se o uso dos
bens terrenos e dos gozos honestos que deles derivam servem de estímulo à virtude; se o
esplendor e o bem-estar da, cidade terrena - que depois redundam em glória da sociedade
humana - são considerados como uma imagem do esplendor e da magnificência da cidade
eterna, eles não são nem indignos de homens racionais, nem contrários aos desígnios de
Deus. Porque Deus é ao mesmo tempo autor da natureza e da graça; e por isto não pode ter
disposto que uma obste à outra e estejam entre si em luta; mas, ao contrário, que,
amigavelmente unidas, nos guiem, por uma trilha mais fácil, àquela eterna felicidade a que,
embora mortais, somos destinados.
14. Mas os homens dados ao prazer e egoístas, que de tal modo mergulham e aviltam os seus
pensamentos nas coisas caducas a ponto de não saberem elevar-se a mais alto, estes, antes
que procurarem os bens eternos através dos bens sensíveis de que gozam, perdem
completamente de vista a eternidade, caindo assim numa condição verdadeiramente abjeta.
Na verdade, Deus não poderia infligir ao homem punição mais terrível do que
abandonando-o por toda a.vida às seduções dos vícios, sem ter jamais um olhar para o Céu.
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