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Apagaram-se as luminárias, reconstituíram-se as famílias, tudo
parecia reposto nos antigos eixos. Reinava a ordem, a Câmara
exercia outra vez o governo sem nenhuma pressão externa; o presidente
e o vereador Freitas tornaram aos seus lugares. O barbeiro
Porfírio, ensinado pelos acontecimentos, tendo "provado tudo",
como o poeta disse de Napoleão, e mais alguma coisa, porque
Napoleão não provou a Casa Verde, o barbeiro achou preferível a
glória obscura da navalha e da tesoura às calam idades brilhantes do
poder; foi, é certo, processado; mas a população da vila implorou
a clemência de Sua Majestade; daí o perdão. João Pina foi
absolvido, atendendo-se a que ele derrocara um rebelde. Os cronistas
pensam que deste fato é que nasceu o nosso adágio:- ladrão que
furta ladrão tem cem anos de perdão;- adágio imoral, é verdade,
mas grandemente útil.
Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum
ressentimento ficou dos atos que ele praticara; acrescendo que os
reclusos da Casa Verde, desde que ele os declarara plenamente
ajuizados, sentiram-se tomados de profundo reconhecimento e férvido
entusiasmo. Muitos entenderam que o alienista merecia uma especial
manifestação e deram-lhe um baile, ao qual se seguiram outros bailes
e jantares. Dizem as crônicas que D. Evarista a princípio tivera
idéia de separar-se do consorte, mas a dor de perder a companhia de
tão grande homem venceu qualquer ressentimento de amor próprio e o
casal veio a ser ainda mais feliz do que antes.
Não menos íntima ficou a amizade do alienista e do boticário. Este
concluiu do ofício de Simão Bacamarte que a prudência é a primeira
das virtudes em tempos de revolução e apreciou muito a magnanimidade
do alienista, que ao dar-lhe a liberdade estendeu-lhe a mão de amigo
velho.
- É um grande homem, disse ele à mulher, referindo aquela
circunstância.
Não é preciso falar do albardeiro, do Costa, do Coelho, do
Martim Brito e outros especialmente nomeados neste escrito; basta
dizer que puderam exercer livremente os seus hábitos anteriores. O
próprio Martim Brito, recluso por um discurso em que louvara
enfaticamente D. Evarista, fez agora outro em honra do insigne
médico - "cujo altíssimo gênio, elevando as asas muito acima do
sol, deixou abaixo de si todos os demais espíritos da terra".
- Agradeço as suas palavras, retorquiu-lhe o alienista, e ainda me
não arrependo de o haver restituído à liberdade.
Entretanto, a Câmara que respondera o ofício de Simão Bacamarte
com a ressalva de que oportunamente estatuiria em relação ao final do
quarto parágrafo, tratou enfim de legislar sobre ele. Foi adorada
sem debate uma postura, autorizando o alienista a agasalhar na Casa
Verde as pessoas que se achassem no gozo do perfeito equilíbrio das
faculdades mentais. E porque a experiência da Câmara tivesse sido
dolorosa, estabeleceu ela a cláusula de que a autorização era
provisória, limitada a um ano, para o fim de ser experimentada a nova
teoria psicológica, podendo a Câmara antes mesmo daquele prazo
mandar fechar a Casa Verde, se a isso fosse aconselhada por motivos
de ordem pública. O vereador Freitas propôs também a declaração
de que, em nenhum caso, fossem os vereadores recolhidos ao asilo dos
alienados: cláusula que foi aceita, votada e incluída na postura
apesar das reclamações do vereador Galvão. O argumento principal
deste magistrado é que a Câmara legislando sobre uma experiência
científica, não podia excluir as pessoas dos seus membros das
conseqüências da lei; a exceção era odiosa e ridícula. Mal
proferira estas duas palavras, romperam os vereadores em altos brados
contra a audácia e insensatez do colega; este, porem, ouviu os e
limitou-se a dizer que votava contra a exceção.
- A vereança, concluiu ele, não nos dá nenhum poder especial nem
nos elimina do espírito humano.
Simão Bacamarte aceitou a postura com todas as restrições. Quanto
à exclusão dos vereadores, declarou que teria profundo sentimento se
fosse compelido a recolhê-los à Casa Verde; a cláusula, porém,
era a melhor prova de que eles não padeciam do perfeito equilíbrio das
faculdades mentais. Não acontecia o mesmo ao vereador Galvão, cujo
acerto na objeção feita, e cuja moderação na resposta dada às
invectivas dos colegas mostravam da parte dele um cérebro bem
organizado; pelo que rogava à Câmara que lho entregasse. A
Câmara sentindo-se ainda agravada pelo proceder do vereador
Galvão, estimou o pedido do alienista e votou unanimemente a
entrega.
Compreende-se que, pela teoria nova, não bastava um fato ou um dito
para recolher alguém à Casa Verde; era preciso um longo exame, um
vasto inquérito do passado e do presente. O Padre Lopes, por
exemplo, só foi capturado trinta dias depois da postura, a mulher do
boticário quarenta dias. A reclusão desta senhora encheu o consorte
de indignação. Crispim Soares saiu de casa espumando de cólera e
declarando às pessoas a quem encontrava que ia arrancar as orelhas ao
tirano. Um sujeito, adversário do alienista, ouvindo na rua essa
noticia, esqueceu os motivos de dissidência, e correu à casa de
Simão Bacamarte a participar-lhe o perigo que corria. Simão
Bacamarte mostrou-se grato ao procedimento do adversário, e poucos
minutos lhe bastaram para conhecer a retidão dos seus sentimentos, a
boa fé, o respeito humano, a generosidade; apertou-lhe muito as
mãos, e recolheu o à Casa Verde.
- Um caso destes é raro, disse ele à mulher pasmada. Agora
esperemos o nosso Crispim.
Crispim Soares entrou. A dor vencera a raiva, o boticário não
arrancou as orelhas ao alienista. Este consolou o seu privado,
assegurando-lhe que não era caso perdido; talvez a mulher tivesse
alguma lesão cerebral; ia examiná-la com muita atenção; mas antes
disso não podia deixá-la na rua. E, parecendo-lhe vantajoso
reuni-los, porque a astúcia e velhacaria do marido poderiam de certo
modo curar a beleza moral que ele descobrira na esposa, disse Simão
Bacamarte:
- O senhor trabalhará durante o dia na botica, mas almoçará e
jantará com sua mulher, e cá passará as noites, e os domingos e
dias santos.
A proposta colocou o pobre boticário na situação do asno de
Buridan. Queria viver com a mulher, mas temia voltar à Casa
Verde; e nessa luta esteve algum tempo, até que D. Evarista o
tirou da dificuldade, prometendo que se incumbiria de ver a amiga e
transmitiria os recados de um para outro. Crispim Soares beijou-lhe
as mãos agradecido. Este último rasgo de egoísmo pusilânime
pareceu sublime ao alienista.
Ao cabo de cinco meses estavam alojadas umas dezoito pessoas; mas
Simão Bacamarte não afrouxava; ia de rua em rua, de casa em casa,
espreitando, interrogando, estudando; e quando colhia um enfermo
levava-o com a mesma alegria com que outrora os arrebanhava às
dúzias. Essa mesma desproporção confirmava a teoria nova;
achara-se enfim a verdadeira patologia cerebral. Um dia conseguiu
meter na Casa Verde o juiz de fora; mas procedia com tanto escrúpulo
que o não fez senão depois de estudar minuciosamente todos os seus
atos e interrogar os principais da vila. Mais de uma vez esteve
prestes a recolher pessoas perfeitamente desequilibradas; foi o que se
deu com um advogado, em quem reconheceu um tal conjunto de qualidades
morais e mentais que era perigoso deixá-lo na rua. Mandou
prendê-lo; mas o agente, desconfiado, pediu-lhe para fazer uma
experiência; foi ter com um compadre, demandado por um testamento
falso, e deu-lhe de conselho que tomasse por advogado o Salustiano;
era o nome da pessoa em questão.
- Então parece-lhe...?
- Sem dúvida: vá, confesse tudo, a verdade inteira, seja qual
for, e confie-lhe a causa.
O homem foi ter com o advogado, confessou ter falsificado o testamento
e acabou pedindo que lhe tomasse a causa. Não se negou o advogado;
estudou os papéis, arrazoou longamente, e provou a todas as luzes que
o testamento era mais que verdadeiro. A inocência do réu foi
solenemente proclamada pelo juiz e a herança passou-lhe às mãos. O
distinto jurisconsulto deveu a esta experiência a liberdade.
Mas nada escapa a um espírito original e penetrante. Simão
Bacamarte, que desde algum tempo notava o zelo, a sagacidade, a
paciência, a moderação daquele agente, reconheceu a habilidade e o
tino com que ele levara a cabo uma experiência tão melindrosa e
complicada, e determinou recolhê-lo imediatamente à Casa Verde;
deu-lhe todavia um dos melhores cubículos.
Os alienados foram alojados por classes. Fez-se uma galeria de
modestos; isto é, os loucos em quem predominava esta perfeição
moral; outra de tolerantes, outra de verídicos, outra de
símplices, outra de leais, outra de magnânimos, outra de sagazes,
outra de sinceros, etc. Naturalmente as famílias e os amigos dos
reclusos bradavam contra a teoria; e alguns tentaram compelir a
Câmara a cassar a licença. A Câmara porém, não esquecera a
linguagem do vereador Galvão, e, se cassasse a licença, vê-lo ia
na rua e restituído ao lugar; pelo que, recusou. Simão Bacamarte
oficiou aos vereadores, não agradecendo, mas felicitando os por esse
ato de vingança pessoal.
Desenganados da legalidade, alguns principais da vila recorreram
secretamente ao barbeiro Porfírio e afiançaram-lhe todo o apoio de
gente, de dinheiro e influência na corte, se ele se pusesse à testa
de outro movimento contra a Câmara e o alienista. O barbeiro
respondeu-lhes que não; que a ambição o levara da primeira vez a
transgredir as leis, mas que ele se emendara, reconhecendo o erro
próprio e a pouca consistência da opinião dos seus mesmos sequazes;
que a Câmara entendera autorizar a nova experiência do alienista,
por um ano: cumpria, ou esperar o fim do prazo, ou requerer ao vice
rei, caso a mesma Câmara rejeitasse o pedido. Jamais aconselharia o
emprego de um recurso que ele viu falhar em suas mãos e isso a troco de
mortes e ferimentos que seriam o seu eterno remorso.
- O que é que me está dizendo? perguntou o alienista quando um
agente secreto lhe contou a conversação do barbeiro com os principais
da vila.
Dois dias depois o barbeiro era recolhido à Casa Verde.- Preso
por ter cão, preso por não ter cão! exclamou o infeliz.
Chegou o fim do prazo, a Câmara autorizou um prazo suplementar de
seis meses para ensaio dos meios terapêuticos. O desfecho deste
episódio da crônica itaguaiense é de tal ordem e tão inesperado,
que merecia nada menos de dez capítulos de exposição; mas
contento-me com um, que será o remate da narrativa, e um dos mais
belos exemplos de convicção científica e abnegação humana.
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