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Não se demorou o alienista em receber o barbeiro; declarou-lhe que
não tinha meios de resistir, e portanto estava prestes a obedecer.
Só uma coisa pedia, é que o não constrangesse a assistir
pessoalmente à destruição da Casa Verde.
- Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro depois de alguma
pausa, engana-se em atribuir ao governo intenções vandálicas. Com
razão ou sem ela, a opinião crê que a maior parte dos doidos ali
metidos estão em seu perfeito juízo, mas o governo reconhece que a
questão é puramente científica e não cogita em resolver com posturas
as questões científicas... Demais, a Casa Verde é uma
instituição pública; tal a aceitamos das mãos da Câmara
dissolvida. Há entretanto - por força que há de haver um alvitre
intermédio que restitua o sossego ao espírito público.
O alienista mal podia dissimular o assombro; confessou que esperava
outra coisa, o arrasamento do hospício, a prisão dele, o desterro,
tudo, menos...
- O pasmo de Vossa Senhoria, atalhou gravemente o barbeiro, vem de
não atender à grave responsabilidade do governo. O povo, tomado de
uma cega piedade que lhe dá em tal caso legitima indignação, pode
exigir do governo certa ordem de atos; mas este, com a
responsabilidade que lhe incumbe, não os deve praticar, ao menos
integralmente, e tal é a nossa situação. A generosa revolução
que ontem derrubou uma Câmara vilipendiada e corrupta, pediu em altos
brados o arrasamento da Casa Verde; mas pode entrar no ânimo do
governo eliminar a loucura? Não. E se o governo não a pode
eliminar, está ao menos apto para discriminá-la, reconhecê-la?
Também não; é matéria de ciência. Logo, em assunto tão
melindroso, o governo não pode, não quer dispensar o concurso de
Vossa Senhoria. O que lhe pede é que de certa maneira demos alguma
satisfação ao povo. Unamo-nos, e o povo saberá obedecer. Um dos
alvitres aceitáveis, se Vossa Senhoria não indicar outro, seria
fazer retirar da Casa Verde aqueles enfermos que estiverem quase
curados e bem assim os maníacos de pouca monta, etc. Desse modo,
sem grande perigo, mostraremos alguma tolerância e benignidade.
- Quantos mortos e feridos houve ontem no conflito? perguntou Simão
Bacamarte depois de uns três minutos.
O barbeiro ficou espantado da pergunta, mas respondeu logo que onze
mortos e vinte e cinco feridos.
- Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas ou três vezes o
alienista.
E em seguida declarou que o alvitre lhe não parecia bom mas que ele ia
catar algum outro, e dentro de poucos dias lhe daria resposta. E
fez-lhe várias perguntas acerca dos sucessos da véspera, ataque,
defesa, adesão dos dragões, resistência da Câmara etc., ao que
o barbeiro ia respondendo com grande abundância, insistindo
principalmente no descrédito em que a Câmara caíra. O barbeiro
confessou que o novo governo não tinha ainda por si a confiança dos
principais da vila, mas o alienista podia fazer muito nesse ponto. O
governo, concluiu o barbeiro, folgaria se pudesse contar não já com
a simpatia senão com a benevolência do mais alto espírito de
Itaguaí e seguramente do reino. Mas nada disso alterava a nobre e
austera fisionomia daquele grande homem que ouvia calado, sem
desvanecimento nem modéstia, mas impassível como um deus de pedra.
- Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alienista depois de
acompanhar o barbeiro até a porta. Eis aí dois lindos casos de
doença cerebral. Os sintomas de duplicidade e descaramento deste
barbeiro são positivos. Quanto à toleima dos que o aclamaram, não
é preciso outra prova além dos onze mortos e vinte e cinco feridos.
- Dois lindos casos!
- Viva o ilustre Porfírio! bradaram umas trinta pessoas que
aguardavam o barbeiro à porta.
O alienista espiou pela janela e ainda ouviu este resto de uma pequena
fala do barbeiro às trinta pessoas que o aclamavam:
- ...porque eu velo, podeis estar certos disso, eu velo pela
execução das vontades do povo. Confiai em mim; e tudo se fará pela
melhor maneira. Só vos recomendo ordem. E ordem, meus amigos, é
a base do governo...
- Viva o ilustre Porfírio bradaram as trinta vozes, agitando os
chapéus.
- Dois lindos casos! murmurou o alienista.
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