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28. Tudo o que temos dito, veneráveis irmãos e amados filhos, se
vale para todos os tempos, muito mais necessário é nos lastimosos
tempos que atravessamos, quando quase todos os povos e nações se
vêem submergidos num mar de calamidades, quando uma guerra horrível
acumula ruínas sobre ruínas, carnificinas sobre carnificinas, quando
com o atear de ódios implacáveis entre os povos vemos com imensa dor
extinto em muitos todo o sentimento não só de moderação e caridade
cristã, mas de simples humanidade. A essas feridas mortais do
consórcio humano quem pode dar remédio senão Aquele a quem o
príncipe dos apóstolos, cheio de amor e confiança, dirigia aquelas
palavras: "Senhor, a quem havemos de ir? Tu tens palavras de vida
eterna".[37] A esse misericordiosíssimo Redentor nosso
devemos, pois, com todas as forças, reconduzir todos os homens.
Ele é o divino consolador dos aflitos; ele que ensina a todos, tanto
às autoridades como aos súditos, a verdadeira honradez, a incorrupta
justiça, e a generosa caridade. Ele enfim, e somente ele, que pode
ser sólido fundamento e esteio seguro de paz e tranqüilidade, pois
que "ninguém pode lançar outro fundamento além daquele que está já
lançado, e que é Cristo Jesus". [38] Deste autor da
salvação, Cristo, tanto será nos homens mais perfeito o
conhecimento, tanto mais intenso o amor, tanto mais fiél a
imitação, quanto maior for o entusiasmo com que se dêem ao
conhecimento e à meditação das Sagradas Escrituras, especialmente
do Novo Testamento. Pois como diz o Estridonense: "a ignorância
das Escrituras é ignorância de Cristo";[39]e "se há coisa
neste mundo que sustenha o sábio e o convença a permanecer de ânimo
sereno em meio das tribulações e tempestades do mundo, penso que é
em primeiro lugar a meditação e ciência das Escrituras".[40]
Delas os cansados e acabrunhados haurirão verdadeiras consolações e
força divina para sofrer e suportar corn paciência as adversidades e
desventuras; delas, dos santos Evangelhos, a todos se mostra Cristo
sumo e perfeito exemplar de justiça, de caridade e de misericórdia;
e para todo o gênero humano jorram as fontes da divina graça, sem a
qual, quando desprezada e descurada, nem os povos nem os regedores dos
povos poderão jamais obter ou consolidar a tranqüilidade do estado nem
a concórdia dos espíritos; delas, enfim, aprenderão todos a
Cristo, "que é cabeça de todo o principado e potestade"[41] e
que "por Deus foi feito nossa sapiência, justiça, santificação e
redenção".[42]
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