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16. Tal interpretação prevalentemente teológica, como dissemos,
será meio eficaz para fazer calar os que se queixam de não encontrar
nos comentários bíblicos nada que eleve a mente a Deus, alimente a
alma, fomente a vida interior, e por isso dizem que é preciso
recorrer a uma interpretação que chamam espiritual e mística. Quão
pouco justa seja essa acusação, prova-o a experiência de muitos que
com freqüente consideração e meditação da palavra de Deus têm
santificado as suas almas e se têm inflamado no amor de Deus;
provam-no claramente a constante prática da Igreja e os ensinamentos
dos maiores doutores. Certamente que nem todo o sentido espiritual se
pode excluir da Sagrada Escritura; pois que tudo o que foi dito e
feito no Antigo Testamento, foi por Deus sapientissimamente ordenado
e disposto de modo que as coisas passadas prefigurassem espiritualmente
as futuras que deviam realizar-se no Novo Testamento da graça. Por
isso o exegeta do mesmo modo como deve encontrar e expor o sentido
literal das palavras que o hagiógrafo pretendia exprimir, assim
também deve indagar o espiritual nos passos onde realmente conste que
Deus o quis expressar. De fato este sentido espiritual só Deus o
pode conhecer e revelar. Ora, indica-o e ensina-o o próprio
Salvador nos evangelhos; e, seguindo o exemplo do divino Mestre,
usam-no os apóstolos falando e escrevendo; aponta-o a constante
tradição da Igreja; e, finalmente, o conhecido princípio: "A
lei de orar é a lei de crer". Esse sentido espiritual por Deus
pretendido e ordenado, descubram-no e exponham-no os exegetas
católicos com a diligência que requer a dignidade da divina palavra;
guardem-se, porém, escrupulosamente de apresentar como sentido
genuíno da Sagrada Escritura outros valores figurativos das coisas.
Pode sim ser útil, especialmente na pregação, ilustrar e persuadir
as coisas da fé e da moral cristã com uso mais largo do sagrado texto
em sentido figurado, contanto que se faça com moderação e
sobriedade; mas é preciso não esquecer que tal uso da Sagrada
Escritura lhe é como que extrínseco e adicional, e não deixa de ser
perigoso; sobretudo em nossos dias, porque os fiéis, e nomeadamente
as pessoas cultas nas ciências sagradas ou profanas, querem saber o
que Deus disse nas Sagradas Escrituras, e não tanto o que um
fecundo orador ou escritor usando com destreza as palavras da Bíblia,
é capaz de nos dizer. "A palavra de Deus viva e eficaz, mais
cortante que uma espada de dois gumes, penetrante até dividir alma e
espírito, articulações e medulas, capaz de destrinçar pensamentos
e sentimentos do coração"[27] não precisa de artifícios e
adaptações humanas para mover e abalar os corações; as Sagradas
Páginas escritas sob a inspiração do Espírito de Deus são de per
si ricas de sentido próprio; dotadas de força divina, são poderosas
por si mesmas; ornadas de supremo esplendor por si mesmas brilham e
resplandecem, se o intérprete com uma explicação fiel e completa
sabe desentranhar todos os tesouros de sabedoria e prudência que nelas
estão encerrados.
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