Carta Encíclica do Papa Pio XII

FIDEI DONUM

Sobre a Situação das Missões Católicas particularmente da África

Aos veneráveis irmãos, Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e outros Ordinários do lugar, em paz e comunháo com a Sé Apostólica


INTRODUÇÃO

1. O dom da fé que, pela liberalidade de Deus, traz as almas dos fiéis incomparáveis riquezas, pede que, sem cessar, demonstremos nossa gratidão a seu divino Autor. Com efeito, é a fé que nos introduz nos elevados mistérios da vida divina; nela se funda nossa esperança da bem-aventurança celeste; nela se firma e consolida, nesta vida transitória, o vínculo da comunidade cristã, conforme a palavra do apóstolo: "Um só Senhor, uma só fé, um só batismo" (Ef 4,5). É por excelência o dom divino que faz brotar naturalmente o testemunho de nossa gratidão: "Que retribuirei ao Senhor por tudo quanto me concedeu?" (Sl 115,12). Por essa divina liberalidade, haverá algo de mais agradável a oferecer a Deus, depois da devida submissão do espírito, do que levar sempre mais longe, entre os homens, o facho da verdade trazida por Cristo? Lembrados de tão grandes benefícios, devem, portanto, responder os homens, de modo particular, com grande zelo pelo desenvolvimento das sagradas missões, que são alimentadas pela chama da caridade cristã, pois, partilhando assim, do melhor modo possível, o dom da fé com os outros, darão provas de seu reconhecimento para com a celeste Divindade.

2. Considerando, de um lado, a imensa multidão de nossos filhos que, principalmente nas regiões possuidoras há muito do nome cristão, participam dos benefícios da fé divina; por outro, porém, reconhecendo ser incomparavelmente maior o número dos que, até hoje, aguardam o mensageiro da salvação, desejamos ardentemente, veneráveis irmãos, exortar-vos sempre mais a sustentar com todo empenho a causa santíssima que tem por fim a propagação, por todo o orbe da terra, da Igreja de Deus. Façam nossas exortações que o espírito de apostolado missionário surja e floresça com maior ardor nas almas dos sacerdote e, por seu ministério, infunda-se em todos os fiéis!

3. Esta questão, gravíssima por certo, já por várias vezes tratada por nossos predecessores, e pela qual nós mesmos, como bem o sabeis, mostramos nosso interesse por intensos esforços,[1] incite todos ao zelo apostólico, como o pede a consciência da fé recebida; que se voltem para as regiões da Europa que abandonaram a religião cristã, ou para as imensas plagas da América do Sul, esmagadas por grandes dificuldades que muito bem conhecemos; prestem auxílio às missões católicas da Oceânia e da Ásia, obras de grande importância, particularmente naquelas terras, onde se sustenta tão dura luta pelo Senhor; da mesma forma, dispensem a caridade fraterna aos inumeráveis cristãos, a nós tão caros, beleza e ornamento da Igreja, que merecem a bem-aventurança evangélica dos que "sofrem perseguição pela justiça" (Mt 5,10). E, finalmente, entristeçam-se com a sorte lastimável de inúmeras almas; em especial dos jovens que, vítimas dos ateus de nossos tempos, crescem, tristemente mantidos na ignorância das coisas divinas. Reconhecemos, pois, que são necessários e devem ser realizados o mais depressa possível tantos empreendimentos e obras, a pedirem novo incremento na Igreja de forças apostólicas que façam acudir ao campo aberto do Senhor inúmeras falanges de homens, em nada diferentes dos que se levantaram nos primórdios da Igreja.[2] Entretanto, embora jamais cessemos, por nossos cuidados e preces, de acompanhar todas essas coisas, e mesmo as recomendamos insistentemente ao vosso zelo, neste momento julgamos absolutamente oportuno chamar vossa atenção para a África. Falamos da África que agora emerge para a humanidade mais civilizada de nosso tempo e para a maturidade política, e se vê a braços com circunstâncias de excepcional gravidade, talvez jamais igualada nos anais de sua antiquíssima história.