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1. O dom da fé que, pela liberalidade de Deus, traz as almas dos
fiéis incomparáveis riquezas, pede que, sem cessar, demonstremos
nossa gratidão a seu divino Autor. Com efeito, é a fé que nos
introduz nos elevados mistérios da vida divina; nela se funda nossa
esperança da bem-aventurança celeste; nela se firma e consolida,
nesta vida transitória, o vínculo da comunidade cristã, conforme a
palavra do apóstolo: "Um só Senhor, uma só fé, um só
batismo" (Ef 4,5). É por excelência o dom divino que faz
brotar naturalmente o testemunho de nossa gratidão: "Que retribuirei
ao Senhor por tudo quanto me concedeu?" (Sl 115,12). Por
essa divina liberalidade, haverá algo de mais agradável a oferecer a
Deus, depois da devida submissão do espírito, do que levar sempre
mais longe, entre os homens, o facho da verdade trazida por Cristo?
Lembrados de tão grandes benefícios, devem, portanto, responder os
homens, de modo particular, com grande zelo pelo desenvolvimento das
sagradas missões, que são alimentadas pela chama da caridade
cristã, pois, partilhando assim, do melhor modo possível, o dom da
fé com os outros, darão provas de seu reconhecimento para com a
celeste Divindade.
2. Considerando, de um lado, a imensa multidão de nossos filhos
que, principalmente nas regiões possuidoras há muito do nome
cristão, participam dos benefícios da fé divina; por outro,
porém, reconhecendo ser incomparavelmente maior o número dos que,
até hoje, aguardam o mensageiro da salvação, desejamos
ardentemente, veneráveis irmãos, exortar-vos sempre mais a
sustentar com todo empenho a causa santíssima que tem por fim a
propagação, por todo o orbe da terra, da Igreja de Deus. Façam
nossas exortações que o espírito de apostolado missionário surja e
floresça com maior ardor nas almas dos sacerdote e, por seu
ministério, infunda-se em todos os fiéis!
3. Esta questão, gravíssima por certo, já por várias vezes
tratada por nossos predecessores, e pela qual nós mesmos, como bem o
sabeis, mostramos nosso interesse por intensos esforços,[1] incite
todos ao zelo apostólico, como o pede a consciência da fé recebida;
que se voltem para as regiões da Europa que abandonaram a religião
cristã, ou para as imensas plagas da América do Sul, esmagadas por
grandes dificuldades que muito bem conhecemos; prestem auxílio às
missões católicas da Oceânia e da Ásia, obras de grande
importância, particularmente naquelas terras, onde se sustenta tão
dura luta pelo Senhor; da mesma forma, dispensem a caridade fraterna
aos inumeráveis cristãos, a nós tão caros, beleza e ornamento da
Igreja, que merecem a bem-aventurança evangélica dos que "sofrem
perseguição pela justiça" (Mt 5,10). E, finalmente,
entristeçam-se com a sorte lastimável de inúmeras almas; em
especial dos jovens que, vítimas dos ateus de nossos tempos,
crescem, tristemente mantidos na ignorância das coisas divinas.
Reconhecemos, pois, que são necessários e devem ser realizados o
mais depressa possível tantos empreendimentos e obras, a pedirem novo
incremento na Igreja de forças apostólicas que façam acudir ao campo
aberto do Senhor inúmeras falanges de homens, em nada diferentes dos
que se levantaram nos primórdios da Igreja.[2] Entretanto,
embora jamais cessemos, por nossos cuidados e preces, de acompanhar
todas essas coisas, e mesmo as recomendamos insistentemente ao vosso
zelo, neste momento julgamos absolutamente oportuno chamar vossa
atenção para a África. Falamos da África que agora emerge para a
humanidade mais civilizada de nosso tempo e para a maturidade
política, e se vê a braços com circunstâncias de excepcional
gravidade, talvez jamais igualada nos anais de sua antiquíssima
história.
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