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4. Têm os fiéis, na verdade, por que se gloriar e alegrar à
vista dos salutares progressos feitos, nestes últimos decênios, pela
Igreja na África. Apenas elevado à cátedra de Pedro,
assegurávamos: "...não pouparemos esforço algum para que... a
cruz, na qual está a salvação e a vida, lance sua sombra sobre as
mais longínquas plagas do mundo"; [3] por esse motivo, cuidamos
com todas as forças em estender também a essa terra a causa do
evangelho. Disso dão testemunho as circunscrições eclesiásticas
ali estabelecidas em grande número; o notável aumento de católicos
que, dia a dia, se manifesta; e especialmente a hierarquia
eclesiástica por nós constituída, em não poucos lugares, e vários
sacerdotes africanos já elevados à dignidade episcopal, conforme a
"mais alta meta" do trabalho missionário, que requer que "a Igreja
nos outros povos seja estabelecida com firmeza, e lhes seja concedida
sua hierarquia própria, escolhida dentre os indígenas".[4] E
assim, na imensa família católica, as jovens Igrejas africanas
assumem hoje seu legítimo lugar, enquanto as outras, mais antigas na
fé, unidas na caridade fraterna, as saúdam, com júbilo.
5. O exército dos arautos do evangelho - sacerdotes, religiosos e
religiosas, catequistas, auxiliares leigos não sem infinitos
trabalhos suportados e sofrimentos tolerados, cuja violência,
desconhecida dos homens, é unicamente conhecida de Deus, conseguiu
obter essa cópia de frutos salutares. A todos e a cada um felicitamos
vivamente, e manifestamos aqui nossa gratidão, pois a Igreja tem,
abundantemente, motivos de gloriar-se santamente de seus missionários
que, na África ou noutros lugares, cumprem sua missão. Os
magníficos resultados dos trabalhos missionários, por nós
lembrados, não devem, entretanto, levar ninguém a esquecer-se de
que "o que ainda resta a fazer nesse domínio pede enorme trabalho e
inúmeros operários". [5] Pois, embora haja quem julgue,
erradamente, que a ação missionária, uma vez bem constituída a
hierarquia, possa logo ser considerada concluída e quase perfeita, no
entanto, a "solicitude por todas as igrejas" daquele continente nos
preocupa e angustia extremamente. Na verdade, como não considerar,
desta Sé Apostólica, com suma tristeza, seja a grave importância
das questões que ali se agitam, relativas à propagação e
conhecimento mais profundo da vida cristã, seja a indigência e
exíguo número de operários apostólicos para arrostar tantos e tão
grandes encargos? Nossos são esses cuidados e ansiedades,
veneráveis irmãos, que vos confiamos; e vossa pronta e alegre
resposta levante os ânimos de tantos apóstolos generosos para nova e
melhor esperança.
6. Bem conheceis e observastes as atuais circunstâncias, realmente
dificílimas, em que, na África, a Igreja tenta promover suas
sagradas embaixadas entre os naturais. Com efeito, a maioria dos
países atravessa fase tão grave de mudanças nos campos social,
econômico e político, que delas parece depender, na maior parte, o
curso dos futuros tempos. Não se pode também deixar de considerar
que os acontecimentos concernentes à comunidade das nações,
influindo com freqüência cada vez maior sobre a vida interna de cada
povo, nem sempre permitem, mesmo a governos prudentes, a
possibilidade de levar os cidadãos àqueles progressos de vida mais
civilizada que a verdadeira prosperidade dos povos postula. A
Igreja, pois, que, em todo o curso de sua história, protegeu o
nascimento e desenvolvimento de tantas nações, não pode deixar de
olhar com a máxima atenção por aqueles povos que vê alcançarem a
liberdade política. E nós mesmo, várias vezes, exortamos as
nações interessadas a entrarem no caminho reto, levadas por sincero
desejo de paz e de mútuo respeito. "Portanto, já que assim é -
dissemos a algumas - não seja negada àqueles povos a justa liberdade
política, que com o tempo vai aumentando, nem posto qualquer entrave
a ela"; a outras, concitamos a "agradecerem à Europa seu acesso a
essa dignidade; porque, sem o reconhecimento de sua influência em
todos os domínios, poderiam, movidas por um amor cego ao próprio
engrandecimento, cair na grave desordem antiga ou ser levadas à
escravidão".[6] Agora, inculcando de novo esse dúplice
conselho, nosso maior desejo é que se concilie na África uma frutuosa
concórdia de todas as forças; que exclua de ambos os lados
preconceitos e descontentamentos; supere os perigos e angústias de um
patriotismo desregrado; e, finalmente, faça que, àqueles povos
cujas riquezas naturais são grandes e aos quais o futuro sorri, possam
ser comunicados os excelentes benefícios da educação cristã, que
tanta vantagem já trouxeram aos povos dos outros continentes.
7. Não ignoramos, por certo, que, em várias regiões da
África, os sequazes do "materialismo" ateu estão espalhando
turbulentos germes que abalam a opinião pública, provocam à mútua
inveja os diversos povos e desnaturam certas condições penosas,
seduzindo os espíritos com a aparência de vantagens ilusórias, ou
provocam os ânimos à revolta. Na nossa solicitude para que os povos
da África alcancem a maior e igual prosperidade, tanto civil quanto
cristã, desejamos dirigir-lhes graves advertências que, sobre o
mesmo assunto, já noutra ocasião solenemente dirigimos a todos os
católicos do mundo; e sentimos prazer em demonstrar nossa paterna
aprovação aos sagrados antístites que, firmemente e por várias
vezes, precaveram suas ovelhas contra os perigos dos falsos profetas.
8. Enquanto os adversários de Deus dirigem ativamente para esse
continente suas insídias e esforços, surgem outras graves
dificuldades, que embaraçam em certas regiões da África a
propagação do Evangelho. Conheceis perfeitamente as concepções
religiosas daqueles que, embora afirmem confessar o culto à Deus; no
entanto atraem e seduzem facilmente os espíritos de muitos para outro
caminho que não o de Jesus Cristo, Salvador de todos os povos.
Nosso coração de pai comum está aberto para todos os homens de boa
vontade; entretanto, somos na terra o vigário daquelé que é o
Caminho, a Verdade e a Vida e não podemos, pois, deixar de
considerar com suma tristeza esses fatos. Provêm de várias causas,
na maioria acontecimentos da história recente. Contribuem em parte,
também, para os mesmos, o procedimento de certas nações que, no
entanto, se gloriam dos fastos de sua história resplandecentes de luz
cristã. Eis por que sentimos não poucas ansiedades sobre a sorte do
cristianismo na Africa. Eis por que, também, devem todos os filhos
da Igreja se considerar obrigados a ajudar mais eficazmente e em tempo
oportuno a obra missionária, para que a mensagem da verdade salvadora
seja levada à chamada Africa "negra", onde cerca de oitenta e cinco
milhões de habitantes ainda se entregam ao culto dos ídolos.
9. Acresce ainda, a gravidade dessas afirmações, o rapidíssimo
curso dos acontecimentos, visível em toda a parte e que, sem dúvida
alguma, não escapa aos sagrados antístites e aos principais
católicos da África. Enquanto se esforçam os povos por encontrar
novos caminhos e modalidades novas, e parecem alguns excessivamente
seduzidos pelas ilusões da chamada civilização técnica, é
santíssimo dever da Igreja dar a esses povos, na medida do
possível, a excelência de sua vida e os benefícios de sua doutrina,
donde nasça nova ordem social, baseada nos princípios cristãos.
Qualquer hesitação, qualquer demora, será terrivelmente perigosa.
De fato, os africanos, em relação à vida mais civilizada, fizeram
nestes últimos decênios progressos que os povos da Europa ocidental
levaram séculos a alcançar; e assim, com grande facilidade são
abalados e seduzidos pelo ensinamentos científicos e técnicos; e
sendo a orientação destes inteiramente materialista, tornam-se mais
propensos a cair. Tal situação será, em alguns casos,
dificilmente sanável e, com o correr dos tempos, muito prejudicará o
incremento da fé, quer nas almas, quer na sociedade. É, portanto,
necessário auxiliar logo os pastores para que, quanto antes, seu
trabalho apostólico corresponda eficazmente às necessidades crescentes
da época.
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