O APOSTOLADO MISSIONÁRIO

10. Na realidade, os auxílios e socorros prestados atualmente às sagradas expedições estão muito aquém de satisfazer, quase por toda parte, as exigências das obras. Essa indigência, embora infelizmente não seja só da África, parece, no entanto, por causa das especialíssimas condições atuais, afetá-la mais do que as outras missões. Por esse motivo, julgamos oportuno, veneráveis irmãos, expor-vos um pouco mais amplamente algumas dessas questões. Para tomarmos um exemplo, as sedes de missões recentemente fundadas, que têm algumas vezes apenas um ou dois decênios, somente depois de longo tempo puderam contar com o auxílio eficiente do clero recrutado entre os indígenas. Acresce a isso o pequeno número de sagrados obreiros que, dispersos por tamanha imensidade, onde não raro ministros de seitas acatólicas espalham suas doutrinas, não conseguem prestar toda a assistência necessária. Aqui, quarenta sacerdotes se afadigam entre quase um milhão de indígenas, dos quais apenas vinte e cinco mil são católicos. Ali, cinqüenta ministros sagrados para dois milhões, sendo sessenta mil católicos a exigir que se voltem para eles, quase totalmente, as forças dos missionários. O verdadeiro católico não pode, absolutamente, descurar o que representam esses números. Com efeito, por vinte apóstolos enviados com a ajuda de outrem àquelas regiões, poderá hoje ser plantado o estandarte da cruz onde talvez amanhã, depois de haverem outros, não operários de Cristo, lavrado o campo do apostolado, não haja mais entrada para a verdadeira fé. Além disso, não é bastante anunciar o evangelho para o pleno cumprimento das sagradas missões; as atuais condições políticas e sociais da Africa reclamam imperiosamente que, dentre a multidão de fiéis, recentemente agregada ao evangelho, seja escolhido quanto antes um grupo de homens para serem instruídos e bem preparados. Até que ponto, portanto, é preciso aumentar o número dos missionários para conseguir-se também esta instrução e educação mais apurada de cada um? O inconveniente do pequeno número de apóstolos é quase sempre imensamente agravado pela necessidade material que atinge às vezes a indigência. Quem virá, generosamente, com auxílio conveniente, em socorro dessas missões recentes, que tanta necessidade dele têm, pois a maioria se encontra em regiões paupérrimas, muito aptas, porém, a receber o evangelho? Quanta tristeza sente o apóstolo com a falta de tantas coisas, quando há tanto que fazer; não pede, na verdade, a admiração, mas auxílios com os quais possa, onde forem dados com largueza, fundar novos estabelecimentos e sedes missionárias.

11. Quanto às missões, já há tempos constituídas e cujo número de fiéis e fervor da vida cristã nos enchem de consolo suave, as condições da obra missionária, embora bem diferentes, não manifestam menores causas de ansiedade. Em primeiro lugar, também aí o pequeno número de operários é uma questão crudelíssima. De fato, os que, naqueles territórios, governam dioceses ou vicariatos apostólicos têm por obrigação suscitar, sem demora, obras e empreendimentos, sem os quais o catolicismo, de modo algum, pode progredir e desenvolver-se: colégios, escolas para o ensino da doutrina cristã às diferentes classes de fiéis; institutos sociais, que possibilitem aos católicos mais dotados servir ao bem público em conformidade com o evangelho; escritos católicos de todo gênero a serem editados e disseminados largamente entre o público; da mesma forma, tudo que se relaciona com as mais recentes invenções empregadas nas comunicações entre os homens e divulgação de doutrinas, pois, como é notório, muito importa conquistar a opinião do público e formá-la para o bem. E, coisa ainda mais importante, o cuidado atento aos exércitos da Ação católica, a fim de que sempre mais cresça o ardor do apostolado. Deve-se, igualmente, atender às necessidades religiosas e culturais desta geração porque, se não lhe for dado abundantemente o pão da verdade, é muito de se temer que venha a procurar fora da Igreja um alimento proibido. Na verdade, para que os bispos, em seu zelo, bastem a todos esses encargos pastorais, têm necessidade, não apenas de maiores recursos, mas, e principalmente, de auxiliares idôneos para os diversos ministérios que são ainda mais difíceis por exigirem maior adaptação a grupos muito particulares. Instruir e preparar tais falanges de apóstolos não é nada fácil nem obra de um dia e, muitas vezes, estes mesmos são pouquíssimos. Por isso, torna-se mais urgente atender essa necessidade, para que tão excelentes e cultas inteligências não venham, infelizmente, a desistir de olhar com confiança para a Igreja católica. Aproveitemos a oportunidade para manifestar nossos profundos agradecimentos às congregações religiosas, a todos os sacerdotes e leigos entregues ao apostolado e que, persuadidos da gravidade de nossa época, prestaram e prestam seu auxílio, às vezes mesmo sem serem solicitados. Todas essas obras, que já trouxeram à Igreja tão grande proveito, juntamente com o entusiasmo de todos em se devotar, fazem brotar imensa esperança de frutos de salvação; a essa esperança abre-se largamente o campo do trabalho apostólico.

12. Em certos territórios aparece outra dificuldade, pois a grande acolhida feita ao evangelho requer que, com o tempo, o número dos apóstolos aumente proporcionalmente. Se tal não se der, o feliz progresso da fé correrá grave risco. Por essa razão, cada vez mais freqüentemente os institutos missionários recebem pedidos de auxiliares; entretanto, pela diminuição do número de novos membros, não podem satisfazer a todos ao mesmo tempo. Sabeis muito bem, veneráveis irmãos, não haver na África proporção entre o aumento dos fiéis e o dos ministros sagrados. Ali, cada dia mais avulta o clero indígena; contudo, esses sacerdotes somente mais tarde poderão receber com segurança o pleno governo do povo em suas dioceses, e ainda sempre com o auxílio dos missionários estrangeiros que os levaram à fé. Atualmente, não conseguem essas recentes comunidades cristãs estar à altura da gravíssima situação presente.

13. Por conseguinte, reconhecidas essas difíceis condições, acaso não se sentem na obrigação de socorrer as santas missões, muitos de nossos filhos, que não se preocupam em dar as devidas graças a Deus pelo dom da fé, recebido dos pais, nem pelos meios de salvação tão numerosos?