II. A COOPERAÇÃO DE TODA A IGREJA

14. Essa situação do apostolado, sumariamente descrita, veneráveis irmãos, manifesta claramente que, na África, já não se trata de questões de âmbito estreito, concernentes apenas a alguns e que poderiam ser resolvidas gradativamente, sem qualquer relação com os interesses da comunidade cristã universal. Outrora "a vida da Igreja visível mostrava seu vigor principalmente nas antigas regiões da Europa donde... transbordava para as extremidades que bem podiam se chamar a periferia do orbe da terra; agora, ao contrário, se manifesta certa permuta de vida e de forças entre todos os membros do corpo místico de Cristo".[7] O que se dá com a Igreja católica na África não diz respeito apenas àquele continente, mas a todos os povos fora de seus limites. Portanto, de todas as partes da Igreja, ao apelo da Sé Apostolica, deve vir o auxílio fraterno para socorrer as necessidades dos católicos.

15. Não seja em vão, veneráveis irmãos, que nos voltamos para vós em hora de tanta gravidade, para mais ampla extensão da Igreja. "Como em nosso corpo mortal quando um membro sofre, todos sofrem, e os sãos vêm em ajuda dos doentes; assim na Igreja os membros não vivem cada um para si, mas socorrem-se e auxiliam-se uns aos outros, tanto para mútua consolação, como para o crescimento progressivo de todo o Corpo".[8] Além disso, não são, com efeito, os bispos "os membros mais eminentes da Igreja universal, pois que se unem com nexo singularíssimo à divina cabeça de todo o corpo, e com razão se chamem os primeiros dos membros do Senhor?"[9] Deles, mais do que ninguém, pode-se afirmar que Cristo, cabeça do corpo místico, "precisa de seus membros... em primeiro lugar porque a pessoa de Jesus Cristo é representada pelo sumo pontífice e este, para não ficar ermagado sob o peso do múnus pastoral, precisa confiar a muitos parte de sua solicitude".[10] Portanto, estreitamente unidos a Cristo e a seu vigário na terra, movidos pelo sopro de ardente caridade, esforçai-vos, veneráveis irmãos, por participar daquela solicitude por todas as Igrejas (cf: 2Cor 11, 28) que pesa sobre nossos ombros (cf. 2Cor 5,4). Vós mesmos, impelidos pela caridade de Cristo, considerai-vos profundamente ligados a nós neste gravíssimo dever: a dilatação do evangelho e a construção da Igreja em todo o mundo - jamais abandoneis o esforço para que, entre o clero e os fiéis, largamente se difunda o espírito de oração e zelo pelo mútuo auxílio, conforme a medida da caridade de Cristo. "Alarga, diz S. Agostinho, a caridade por toda a terra, se queres amar a Cristo, porque por toda a terra estão os membros de Cristo".[11]

16. Não há dúvida alguma de que somente ao apóstolo Pedro e a seus sucessores, os pontífices romanos, confiou Jesus Cristo o cuidado de todo o seu rebanho: "Apascenta meus cordeiros, apascenta minhas ovelhas" (Jo 21,16-18). E, se cada bispo é o sagrado pastor apenas da porção do rebanho a ele confiada, no entanto, por instituição e preceito de Deus, é legítimo sucessor dos apóstolos e por isto responsável, juntamente com os outros bispos, pelo múnus apostólico da Igreja, conforme as palavras ditas por Cristo aos apóstolos: "Como o Pai me enviou, assim eu vos envio" (Jo 20,21). Esta missão, que abraça "todos os povos.., até a consumação dos séculos" (Mt 28,19-20), de modo algum terminou quando os apóstolos deixaram esta vida; ao contrário; ainda continua para os bispos em comunhão com o vigário de Jesus Cristo. Nesses, portadores do nome especial de "enviados", quer dizer, apóstolos do Senhor, reside a plenitude da dignidade apostólica, "principal na Igreja", como atesta S: Tomás de Aquino.[12] Brotado de seus corações, aquele fogo do apostolado; trazido à terra por Jesus Cristo, inflame os peitos de todos os nossos filhos e excite novo amor pela obra missionária da Igreja por toda a terra. Isso é necessário.

17. Além do mais, esse cuidado pelas necessidades da Igreja universal mostra verdadeiramente a catolicidade de natureza da Igreja viva. "O impulso da obra missionária - dizíamos há tempos - e o espírito católico são uma e mesma coisa. Ser católica é nota precípua da Igreja, de tal forma que o cristão de modo algum será consagrado e ligado à Igreja se, do mesmo modo, não se consagrar e ligar a todos os cristãos e se não desejar intensamente que em todos os povos lance ela raízes e floresça".[13] Nada há de mais contrário à Igreja de Jesus Cristo do que a divisão; nada prejudica tanto a vida do que se refugiarem seus membros em extremado isolamento, ou se voltem para si mesmos além da medida, ou enfim cuidarem unicamente, de qualquer modo que seja, dos interesses particulares do próprio grupo. Isso faz com que uma comunidade cristã, seja qual for, isole-se, fechada em si mesma. "Mãe de todas as nações, de todos os povos e de cada um dos homens", nossa santa madre Igreja "em parte alguma é estrangeira; ela vive ou, ao menos por sua natureza, deve viver entre todos os povos".[14] Repetimos - é preciso afïrmá-lo - nada do que pertence à Igreja, nossa Mãe, é estranho a cada cristão, nem o deve ser: como sua fé é a fé da Igreja universal, sua vida sobrenatural é a própria vida de toda a Igreja, assim as alegrias, as angústias da Igreja são suas alegrias e angústias; assim também as perspectivas e desígnios da Igreja, que tudo abarcam, serão as perspectivas e planos da vida cristã ordinária. Então, espontaneamente, as exortações dos pontífices romano, relativas aos grandes encargos apostólicos em todo o mundo, ressoam em seu coração, plena e autenticamente católico, como palavras que devem ser acolhidas com a máxima boa vontade e ponderadas com grande seriedade e solicitude.