A CARIDADE PARA COM AS MISSÕES

22. Mas poderia a oração pelas santas missões vir de coração sincero sem ter por companheiros, na medida do possível, gestos de caridade? Quanto a estes, conhecemos, mais do que tudo, a grande liberalidade de nossos filhos; belos e contínuos testemunhos dela nos chegam. A esses espíritos generosos deve-se o maravilhoso incremento das missões, desde o início deste século. Queremos manifestar aqui nossa gratidão aos caríssimos filhos e filhas, pelo auxílio inteligente e cheio de caridade prestado às múltiplas obras das missões católicas; e, de modo especial, queremos louvar aqueles que, ligados às Pontifícias Obras Missionárias, assumiram o encargo nobilíssimo, mas às vezes ingrato, de esmolar em nome da Igreja, como mendigos, para as jovens cristandades das missões, objeto do orgulho e da esperança da Igreja. A esses diletos filhos agradecemos de coração, bem como a todos os que servem na S. Congregação "de Propaganda Fide", pois a estes, sob a direção do nosso dileto fïlho o cardeal prefeito, foi entregue o enorme peso de promover as missões em imensos continentes.

23. A responsabilidade do múnus apostólico, entretanto, nos obriga a confessar, veneráveis irmãos, que vossos subsídios, recebidos com tanta alegria, estão longe de poder satisfazer as inúmeras necessidades das missões. Diária e instantemente apelam para nós e nos solicitam, os pastores cruelmente premidos pela necessidade de promover o bem da Igreja, de afastar os inconvenientes, construir edifícios absolutamente necessários ou de fundar diversas obras de apostolado. Profunda tristeza nos invade, quando vemos a impossibilidade de responder, como seria necessário, a tão justos pedidos, e só podemos atendê-los em parte e de modo insuficiente. A Obra Pontifícia de São Pedro apóstolo é um exemplo. São, realmente, muito grandes os socorros enviados por esse Instituto às regiões missionárias; mas os candidatos ao sacerdócio, com a graça de Deus, aumentam de ano para ano nesses lugares e com isso exigem maiores auxílios. Será possível que jovens, chamados por providência divina ao sacerdócio, só possam ser admitidos em pequeno número por causa de escassez de recursos? E terão de ser excluídos dos seminários tantos moços - que aspiram com fervor ao sacerdócio e dão grandes esperanças - pela falta de dinheiro, como soubemos ter acontecido em certas regiões? Nenhum católico, verdadeiramente responsável por suas obrigações, poderá recusar-se a dar espontaneamente auxílio monetário a essas necessidades.

24. Não ignoramos as angústias dos tempos; nem as dificuldades que afligem as antigas dioceses da Europa e da América. Mas, se reduzirmos a número a questão, com toda a facilidade se verá que a sua pobreza, comparada às condições tristíssimas das missões, poderá ser considerada quase abundância. Vã comparação, aliás, pois não se trata aqui de fazer cálculos, mas de exortar todos os iléis, como já o fizemos noutra ocasião, "a militar sob a bandeira da abstinência cristã e do dom de si, não se contentando com o que a lei prescreve, mas virilmente, na medida do estímulo da graça de Deus e da própria condição... o que alguém subtrair à vaidade, empregue-o na caridade - acrescentamos - e atenda, misericordioso, às necessidades da Igreja e dos pobres".[16] Que esplêndidas obras um missionário, paralisado hoje pela indigência, impedido em seu ofício apostólico, poderia realizar com o dinheiro gasto tantas vezes pelos fiéis em prazeres passageiros! E preciso, portanto, que todo filho da Igreja, toda família, todo grupo de cristãos se examine diligentemente. Tendo presente na memória: esta é "a graça de N. S. Jesus Cristo que, sendo rico, por nós se fez pobre, para vos enriquecer com sua pobreza" (2Cor 8,9), dai algo do vosso supérfluo e, algumas vezes, até mesmo do que vos é necessário! E lembrai-vos: de vossa generosidade depende mais amplo desenvolvimento da religião, nova beleza cobrirá a terra, se a caridade triunfar.