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1. As dissensões e erros do gênero humano em questões religiosas e
morais têm sido sempre fonte e causa de intensa dor para todas as
pessoas de boa vontade e, principalmente, para os filhos fiéis e
sinceros da Igreja; mas, de maneira especial, o continuam sendo hoje
em dia, quando vemos combatidos até os próprios princípios da
cultura cristã.
2. Não é de admirar que haja constantemente discórdias e erros
fora do redil de Cristo. Pois, embora possa realmente a razão
humana com suas forças e sua luz natural chegar de forma absoluta ao
conhecimento verdadeiro e certo de Deus, único e pessoal, que
sustém e governa o mundo com sua providência, bem como ao
conhecimento da lei natural, impressa pelo Criador em nossas almas,
entretanto, não são poucos os obstáculos que impedem a razão de
fazer uso eficaz e frutuoso dessa sua capacidade natural. De fato, as
verdades que se referem a Deus e às relações entre os homens e Deus
transcendem por completo a ordem dos seres sensíveis e, quando entram
na prática da vida e a enformam, exigem o sacrifício e a abnegação
própria. Ora, o entendimento humano encontra dificuldades na
aquisição de tais verdades, já pela ação dos sentidos e da
imaginação, já pelas más inclinações, nascidas do pecado
original. Isso faz com que os homens, em semelhantes questões,
facilmente se persuadam de ser falso e duvidoso o que não querem que
seja verdadeiro.
3. Por isso deve-se defender que a revelação divina é moralmente
necessária para que, mesmo no estado atual do gênero humano, todos
possam conhecer com facilidade, com firme certeza e sem nenhum erro,
as verdades religiosas e morais que não são por si inacessíveis à
razão.[1]
4. Ademais, por vezes, pode a mente humana encontrar dificuldade
mesmo para formar juízo certo sobre a credibilidade da fé católica,
não obstante os múltiplos e admiráveis indícios externos ordenados
por Deus para se poder provar certamente, por meio deles, a origem
divina da religião cristã, exclusivamente com a luz da razão. Isso
ocorre porque o homem, levado por preconceitos, ou instigado pelas
paixões e pela má vontade, não só pode negar a evidência desses
sinais externos, mas também resistir às inspirações sobrenaturais
que Deus infunde em nossas almas.
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