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9. Os teólogos e filósofos católicos, que têm o grave encargo de
defender e imprimir nas almas dos homens as verdades divinas e humanas,
não devem ignorar nem desatender essas opiniões que, mais ou menos,
se apartam do reto caminho. Pelo contrário, é necessário que as
conheçam bem; pois não se podem curar as enfermidades antes de serem
bem conhecidas; ademais, nas mesmas falsas afirmações se oculta por
vezes um pouco de verdade; e, por fim, essas opiniões falsas incitam
a mente a investigar e ponderar com maior diligência algumas verdades
filosóficas ou teológicas.
10. Se nossos filósofos e teólogos somente procurassem tirar esse
fruto daquelas doutrinas, estudando-as com cautela, não teria motivo
para intervir o magistério da Igreja. Embora saibamos que os
doutores católicos em geral evitam contaminar-se com tais erros,
consta-nos, entretanto, que não faltam hoje os que, como nos tempos
apostólicos, amando a novidade mais do que o devido e também temendo
que os tenham por ignorantes dos progressos da ciência, intentam
subtrair-se à direção do sagrado Magistério e, por esse motivo,
acham-se no perigo de apartar-se insensivelmente da verdade revelada e
fazer cair a outros consigo no erra.
11. Existe também outro perigo, que é tanto mais grave quanto se
oculta sob a capa de virtude. Muitos, deplorando a discórdia do
gênero humano e a confusão reinante nas inteligências dos homens e
guiados por imprudente zelo das almas, sentem-se levados por interno
impulso e ardente desejo a romper as barreiras que separam entre si as
pessoas boas e honradas; e propugnam uma espécie de "irenismo" que,
passando por alto as questões que dividem os homens, se propõe não
somente a combater em união de forças contra o ateísmo avassalaste,
senão também a reconciliar opiniões contrárias, mesmo no campo
dogmático. E, como houve antigamente os que se perguntavam se a
apologética tradicional da Igreja constituía mais impedimento do que
ajuda para ganhar almas a Cristo, assim também não faltam agora os
que se atreveram a propor seriamente a dúvida de que talvez seja
conveniente não só aperfeiçoar mas também reformar completamente a
teologia e o método que atualmente, com aprovação eclesiástica, se
emprega no ensino teológico, a fim de que se propague mais eficazmente
o reino de Cristo em todo o mundo, entre os homens de todas as
civilizações e de todas as opiniões religiosas.
12. Se tais propugnadores não pretendessem mais do que acomodar,
com alguma renovação, o ensino eclesiástico e seus métodos às
condições e necessidades atuais, não haveria quase nada que temer;
contudo, alguns deles, arrebatados por imprudente "irenismo",
parecem considerar como óbice para restabelecer a unidade fraterna
justamente aquilo que se fundamenta nas próprias leis e princípios
legados por Cristo e nas instituições por ele fundadas, ou o que
constitui a defesa e o sustentáculo da integridade da fé, com a queda
do qual se uniriam todas as coisas, sim, mas somente na comum ruína.
13. Os que, ou por repreensível desejo de novidade, ou por algum
motivo louvável, propugnam essas novas opiniões, nem sempre as
propõem com a mesma intensidade, nem com a mesma clareza, nem com
idênticos termos, nem sempre com unanimidade de pareceres; o que hoje
ensinam alguns mais encobertamente, com certas cautelas e
distinções, outros mais audazes propalarão amanhã abertamente e sem
limitações, com escândalo de muitos, em especial do clero jovem, e
com detrimento da autoridade eclesiástica. Mais cautelosamente é
costume tratar dessas matérias nos livros que são postos à
publicidade, já com maior liberdade se fala nos folhetos distribuídos
privadamente e nas conferências e reuniões. E não se divulgam
somente estas doutrinas entre os membros de um e outro clero, nos
seminários e institutos religiosos, mas também entre os seculares,
principalmente aqueles que se dedicam ao ensino da juventude.
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