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14. Quanto à teologia, o que alguns pretendem é diminuir o mais
possível o significado dos dogmas e libertálos da maneira de
exprimi-los já tradicional na Igreja, e dos conceitos filosóficos
usados pelos doutores católicos, a fim de voltar, na exposição da
doutrina católica, às expressões empregadas pela Sagrada Escritura
e pelos santos Padres. Esperam que, desse modo, o dogma, despojado
de elementos que chamam extrínsecos à revelação divina, possa
comparar-se frutuosamente com as opiniões dogmáticas dos que estão
separados da unidade da Igreja, e que, por esse caminho, se chegue
pouco a pouco à assimilação do dogma católico e das opiniões dos
dissidentes.
15. Reduzindo a doutrina católica a tais condições, crêem que
se abre também o caminho para obter, segundo exigem as necessidades
atuais, que o dogma seja formulado com as categorias da filosofia
moderna, quer se trate do imanentismo, ou do idealismo, ou do
existencialismo, ou de qualquer outro sistema. Alguns mais audazes
afirmam que isso se pode e se deve fazer também em virtude de que,
segundo eles, os mistérios da fé nunca se podem expressar por
conceitos plenamente verdadeiros, mas só por conceitos aproximativos e
que mudam continuamente, por meio dos quais a verdade se indica, é
certo, mas também necessariamente se desfigura. Por isso não pensam
ser absurdo, mas antes, pelo contrário, crêem ser de todo
necessário que a teologia, conforme os diversos sistemas filosóficos
que no decurso do tempo lhe servem de instrumento, vá substituindo os
antigos conceitos por outros novos; de sorte que, de maneiras diversas
e até certo ponto opostas, porém, segundo eles, equivalentes,
faça humanas aquelas verdades divinas. Acrescentam que a história
dos dogmas consiste em expor as várias formas que sucessivamente foi
tomando a verdade revelada, de acordo com as várias doutrinas e
opiniões que através dos séculos foram aparecendo.
16. Pelo que foi dito é evidente que tais esforços não somente
levam ao relativismo dogmático, mas já de fato o contém, pois o
desprezo da doutrina tradicional e de sua terminologia favorece tal
relativismo e o fomenta. Ninguém ignora que os termos empregados,
tanto no ensino da teologia como pelo próprio magistério da Igreja,
para expressar tais conceitos podem ser aperfeiçoados e enriquecidos.
É sabido também que a Igreja não foi sempre constante no uso dos
mesmos termos. Ademais, é evidente que a Igreja não se pode ligar
a qualquer efêmero sistema filosófico; entretanto, as noções e os
termos que os doutores católicos, com geral aprovação, foram
compondo durante o espaço de vários séculos para chegar a obter
alguma inteligência do dogma não se assentam, sem dúvida, sobre
bases tão escorregadias. Fundam-se realmente em princípios e
noções deduzidas do verdadeiro conhecimento das coisas criadas;
dedução realizada à luz da verdade revelada, que, por meio da
Igreja, iluminava, como uma estrela, a mente humana. Por isso,
não há que admirar terem sido algumas dessas noções não só
empregadas mas também sancionadas por concílios ecumênicos; de sorte
que não é lícito apartar-se delas.
17. Abandonar, pois, ou repelir, ou negar valor a tantas e tão
importantes noções e expressões que homens de talento e santidade
não comuns, com esforço multissecular, sob a vigilância do sagrado
magistério e com a luz e guia do Espírito Santo, conceberam,
expressaram e aperfeiçoaram para exprimir as verdades da fé cada vez
com maior exatidão, e substituí-las por noções hipotéticas e
expressões flutuantes e vagas de uma filosofia moderna que, assim como
a flor do campo, hoje existe e amanhã cairá, não só é de suma
imprudência, mas também converte o dogma numa cana agitada pelo
vento. O desprezo dos termos e noções que os teólogos escolásticos
costumam empregar leva naturalmente a abalar a teologia especulativa, a
qual, por fundar-se em razões teológicas, eles julgam carecer de
verdadeira certeza.
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