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18. Desgraçamente, esses amigos de novidades facilmente passam do
desprezo da teologia escolástica ao pouco caso e até mesmo ao desprezo
do próprio magistério da Igreja, que tanto prestígio tem dado com a
sua autoridade àquela teologia. Apresentam este magistério como
empecilho ao progresso e obstáculo à ciência; e já existem
acatólicos que o consideram como freio injusto, que impede alguns
teólogos mais cultos de renovar a teologia. Embora este sagrado
magistério, em questões de fé e moral, deva ser para todo teólogo
a norma próxima e universal da verdade (visto que a ele confiou nosso
Senhor Jesus Cristo a guarda, a defesa e a interpretação do
depósito da fé, ou seja, das Sagradas Escrituras e da Tradição
divina), contudo, por vezes se ignora, como se não existisse, a
obrigação que têm todos os fiéis de fugir mesmo daqueles erros que
se aproximam mais ou menos da heresia e, portanto, de observar também
as constituições e decretos em que a Santa Sé proscreveu e proibiu
tais falsas opiniões. [2] Alguns há que de propósito desconhecem
tudo quanto os sumos pontífices expuseram nas encíclicas sobre o
caráter e a constituição da Igreja, a fim de fazer prevalecer um
conceito vago, que eles professam e dizem ter tirado dos antigos
Padres, principalmente dos gregos. Os sumos pontífices, dizem
eles, não querem dirimir questões disputadas entre os teólogos; e,
assim, cumpre voltar às fontes primitivas e explicar com os escritos
dos antigos as modernas constituições e decretos do magistério.
19. Esse modo de falar pode parecer eloqüente, mas não carece de
falácia. Pois é verdade que os romanos pontífices em geral concedem
liberdade aos teólogos nas questões controvertidas entre os mais
acreditados doutores; porém, a história ensina que muitas questões
que antes eram objeto de livre discussão já não podem ser
discutidas.
20. Nem se deve crer que os ensinamentos das encíclicas não
exijam, por si, assentimento, sob alegação de que os sumos
pontífices não exercem nelas o supremo poder de seu magistério.
Entretanto, tais ensinamentos provêm do magistério ordinário, para
o qual valem também aquelas palavras: "Quem vos ouve a mim ouve"
(Lc 10,16); e, na maioria das vezes, o que é proposto e
inculcado nas encíclicas, já por outras razões pertence ao
patrimônio da doutrina católica. E, se os romanos pontífices em
suas constituições pronunciam de caso pensado uma sentença em
matéria controvertida, é evidente que, segundo a intenção e
vontade dos mesmos pontífices, essa questão já não pode ser tida
como objeto de livre discussão entre os teólogos.
21. Também é verdade que os teólogos devem sempre voltar às
fontes da revelação; pois, a eles cabe indicar de que maneira "se
encontra, explícita ou implicitamente" na Sagrada Escritura e na
divina Tradição o que ensina o magistério vivo. Ademais, ambas as
fontes da doutrina revelada contêm tantos e tão sublimes tesouros de
verdade que nunca realmente se esgotarão. Por isso, com o estudo das
fontes sagradas rejuvenescem continuamente as sagradas ciências; ao
passo que, pelo contrário, a especulação que deixa de investigar o
depósito da fé se torna estéril, como vemos pela experiência.
Entretanto, isto não autoriza a fazer da teologia, mesmo da chamada
positiva, uma ciência meramente histórica. Pois, junto com as
sagradas fontes, Deus deu à sua Igreja o magistério vivo para
esclarecer também e salientar o que no depósito da fé não se acha
senão obscura e como que implicitamente. E o divino Redentor não
confiou a interpretação autêntica desse depósito a cada um dos
fiéis, nem mesmo aos teólogos, mas exclusivamente ao magistério da
Igreja. Se a Igreja exerce esse múnus (como o tem feito com
freqüência no decurso dos séculos pelo exercício, quer ordinário,
quer extraordinário desse mesmo ofício), é evidentemente falso o
método que pretende explicar o claro pelo obscuro; antes, pelo
contrário, faz-se mister que todos sigam a ordem inversa. Eis
porque nosso predecessor de imortal memória, Pio IX, ao ensinar
que é dever nobilíssimo da teologia mostrar como uma doutrina definida
pela Igreja está contida nas fontes, não sem grave motivo
acrescentou aquelas palavras; "com o mesmo sentido com o qual foi
definida pela Igreja".[3]
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