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22. Voltando às novas teorias de que acima tratamos, alguns há
que propõem ou insinuam nos ânimos muitas opiniões que diminuem a
autoridade divina da Sagrada Escritura. Pois atrevem-se a adulterar
o sentido das palavras com que o concílio Vaticano define que Deus é
o autor da Sagrada Escritura, e renovam uma teoria já muitas vezes
condenada, segundo a qual a inerrância da Sagrada Escritura se
estende unicamente aos textos que tratam de Deus mesmo, ou da
religião, ou da moral. Ainda mais, sem razão falam de um sentido
humano da Bíblia, sob o qual se oculta o sentido divino, que é,
segundo eles, o único infalível. Na interpretação da Sagrada
Escritura não querem levar em consideração a analogia da fé nem a
tradição da Igreja; de modo que a doutrina dos santos Padres e do
Sagrado magistério deveria ser aferida por aquela das Sagradas
Escrituras explicadas pelos exegetas de modo puramente humano; o que
seria preferível a expor a sagrada Escritura conforme a mente da
Igreja, que foi constituída por nosso Senhor Jesus Cristo guarda e
intérprete de todo o depósito das verdades reveladas.
23. Além disso, o sentido literal da Sagrada Escritura e sua
exposição, que tantos e tão exímios exegetas, sob a vigilância da
Igreja, elaboraram, deve ceder lugar, segundo essas falsas
opiniões, a uma nova exegese a que chamam simbólica ou espiritual;
por meio dela, os livros do Antigo Testamento, que seriam atualmente
na Igreja uma fonte fechada e oculta, se abririam finalmente para
todos. Dessa maneira, afirmam, desaparecerão todas as dificuldades
que somente encontram os que se atêm ao sentido literal das
Escrituras.
24. Todos vêem quanto se afastam essas opiniões dos princípios e
normas de hermenêutica justamente estabelecidos por nossos
predecessores de feliz memória, Leão XIII, na encíclica
Providentissimus, e Bento XV, na encíclica Spiritus
Paraclitus, e também por nós mesmo, na encíclica Divino Afflante
Spiritu.
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