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25. E não há que admirar terem essas novidades produzido frutos
venenosos em quase todos os capítulos da teologia. Põe-se em
dúvida que a razão humana, sem o auxílio da divina revelação e da
graça divina, possa demonstrar a existência de Deus pessoal, com
argumentos tirados das coisas criadas; nega-se que o mundo tenha tido
princípio e afirma-se que a criação do mundo é necessária, pois
procede da necessária liberalidade do amor divino; nega-se também a
Deus a presciência eterna e infalível das ações livres dos homens;
opiniões de todo contrárias às declarações do concílio
Vaticano.[4]
26. Alguns também põem em discussão se os anjos são pessoas; e
se a matéria difere essencialmente do espírito. Outros desvirtuam o
conceito de gratuidade da ordem sobrenatural, sustentando que Deus
não pode criar seres inteligentes sem ordená-los e chamá-los à
visão beatífica. E não só isso, mas, ainda, passando por cima
das definições do concílio de Trento, destrói-se o conceito de
pecado original juntamente com o de pecado em geral, como ofensa a
Deus, e também o da satisfação que Cristo ofereceu por nós. Nem
faltam os que defendem que a doutrina da transubstanciação, baseada
como está num conceito filosófico já antiquado de substância, deve
ser corrigida; de maneira que a presença real de Cristo na
santíssima eucaristia se reduza a um simbolismo, no qual as espécies
consagradas não são mais do que sinais externos da presença
espiritual de Cristo e de sua união íntima com os féis, membros
seus no corpo místico.
27. Alguns não se consideram obrigados a abraçar a doutrina que
há poucos anos expusemos numa encíclica e que está fundamentada nas
fontes da revelação, segundo a qual o corpo místico de Cristo e a
Igreja católica romana são uma mesma coisa.[5] Outros reduzem a
uma fórmula vã a necessidade de pertencer à Igreja verdadeira para
conseguir a salvação eterna. E outros, malmente, não admitem o
caráter racional da credibilidade da fé cristã.
28. Sabemos que esses e outros erros semelhantes serpenteiam entre
alguns filhos nossos, desviados pelo zelo imprudente ou pela falsa
ciência; e nos vemos obrigado a repetir-lhes, com tristeza,
verdades conhecidíssimas e erros manifestos, e a indicar-lhes, não
sem ansiedade, os perigos de erro a que se expõem.
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