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29. É coisa sabida o quanto estima a Igreja a humana razão, à
qual compete demonstrar com certeza a existência de Deus único e
pessoal, comprovar invencivelmente os fundamentos da própria fé
cristã por meio de suas notas divinas, expressar de maneira
conveniente a lei que o Criador imprimiu nas almas dos homens, e, por
fim, alcançar algum conhecimento, por certo frutuosíssimo, dos
mistérios.[6] Mas a razão somente poderá exercer tal oficio de
modo apto e seguro se tiver sido cultivada convenientemente, isto é,
se houver sido nutrida com aquela sã filosofia, que é já como que um
patrimônio herdado das precedentes gerações cristãs e que por
conseguinte goza de uma autoridade de ordem superior, porquanto o
próprio Magistério da Igreja utilizou os seus princípios e os seus
fundamentais assertos, manifestados e definidos lentamente por homens
de grande talento, para comprovar a mesma revelação divina. Essa
filosofia, reconhecida e aceita pela Igreja, defende o verdadeiro e
reto valor do conhecimento humano, os inconcussos princípios
metafísicos, a saber, os da razão suficiente, causalidade e
finalidade, e a posse da verdade certa e imutável.
30. É verdade que em tal filosofia se expõem muitas coisas que,
nem direta, nem indiretamente, se referem à fé ou aos costumes, e
que, por isso mesmo, a Igreja deixa à livre disputa dos peritos;
entretanto, em outras muitas não existe tal liberdade, principalmente
no que diz respeito aos princípios e aos fundamentais assertos que há
pouco recordamos. Mesmo nessas questões fundamentais pode-se
revestir a filosofia com mais aptas e ricas vestes, reforçá-la com
mais eficazes expressões, despojá-la de certos modos escolares menos
adequados, enriquecê-la com cautela com certos elementos do
progressivo pensamento humano; contudo, jamais é licito derrubá-la
ou contaminá-la com falsos princípios, ou estimá-la como um grande
monumento, mas já fora de moda. Pois a verdade e sua expressão
filosófica não podem mudar com o tempo, principalmente quando se
trata dos princípios que a mente humana conhece por si mesmos, ou
daqueles juízos que se apóiam tanto na sabedoria dos séculos como no
consenso e fundamento da revelação divina. Qualquer verdade que a
mente humana, procurando com retidão, descobre não pode estar em
contradição com outra verdade já alcançada, pois Deus, verdade
suprema, criou e rege a humana inteligência, de tal modo que não
opõe cada dia novas verdades às já adquiridas, mas, apartados os
erros que porventura se tiverem introduzido, edifica a verdade sobre a
verdade, de forma tão ordenada e orgânica como vemos estar
constituída a própria natureza da qual se extrai a verdade. Por esse
motivo o cristão, seja filósofo, seja teólogo, não abraça
apressada e levianamente qualquer novidade que no decurso do tempo se
proponha, mas deve sopesá-la com suma diligência e submetê-la a
justo exame a fim de que não venha perder a verdade já adquirida ou a
corrompa, com grave perigo e detrimento da mesma fé.
31. Se tudo quanto expusemos for bem considerado, facilmente se
compreenderá porque a Igreja exige que os futuros sacerdotes sejam
instruídos nas disciplinas filosóficas, segundo o método, a
doutrina e os princípios do Doutor Angélico,[7] visto que,
através da experiência de muitos séculos, conhece perfeitamente que
o método e o sistema do Aquinate se distinguem por seu valor
singular, tanto para a educação dos jovens quanto para a
investigação das mais recônditas verdades, e que sua doutrina está
afinada como que em uníssono com a divina revelação e é
eficacíssima para assegurar os fundamentos da fé e para recolher de
modo útil e seguro os frutos do são progresso.[8]
32. E, pois, altamente deplorável que hoje em dia desprezem
alguns a filosofia que a Igreja aceitou e aprovou, e que,
imprudentemente, a tachem de antiquada em suas formas e
racionalística, como dizem, em seus processos. Pois afirmam que
essa nossa filosofa defende erroneamente a possibilidade de uma
metafísica absolutamente verdadeira, ao passo que eles sustentam,
contrariamente, que as verdades, principalmente as transcendentes,
só podem ser expressas por doutrinas divergentes que mutuamente se
completam, embora pareçam opor-se entre si. Pelo que, concedem que
a filosofia ensinada em nossas escolas, com a lúcida exposição e
solução dos problemas, com a exata precisão de conceitos e com as
claras distinções, pode ser conveniente preparação ao estudo da
teologia, como de fato o foi adaptando-se perfeitamente à mentalidade
medieval; crêem, porém, que não é o método que corresponde à
cultura e às necessidades modernas. Acrescentam, ainda, que a
filosofia perene é só a filosofia das essências imutáveis, enquanto
a mente moderna deve considerar a "existência" de cada um dos seres e
a vida em sua fluência contínua. E, ao desprezarem esta filosofia,
enaltecem outras, antigas ou modernas, orientais ou ocidentais, de
forma tal a parecer insinuar que toda filosofia ou doutrina opinável,
com o acréscimo de algumas correções ou complementos, se for
necessário, harmonizar-se-á com o dogma católico; o que nenhum
fiel pode duvidar seja de todo falso, principalmente quando se trata
dos errôneos sistemas chamados imanentismo, ou idealismo, ou
materialismo, seja histórico, seja dialético, ou também
existencialismo, tanto no caso de defender o ateísmo, quanto no de
impugnar o valor do raciocínio metafísico.
33. Por fim, acusam a filosofia ensinada em nossas escolas do
defeito de atender só à inteligência no processo do conhecimento,
sem levar em conta o papel da vontade e dos sentimentos. O que
certamente não é verdade; de fato, a filosofia cristã jamais negou
a utilidade e a eficácia das boas disposições de toda alma para
conhecer e abraçar plenamente os princípios religiosos e morais;
ainda mais, sempre ensinou que a falta de tais disposições pode ser a
causa de que o entendimento, sufocado pelas paixões e pela má
vontade, se obscureça a ponto de não mais ver como convém. E o
Doutor Comum crê que o entendimento é capaz de perceber de certo
modo os mais altos bens correspondentes à ordem moral, tanto natural
como sobrenatural, enquanto experimentar no íntimo certa afetiva
"conaturalidade" com esses mesmos bens, seja ela natural, seja fruto
da graça; [9] e claro está quanto esse conhecimento, por assim
dizer, subconsciente, ajuda as investigações da razão. Porém,
uma coisa é reconhecer a força dos sentimentos para auxiliar a razão
a alcançar conhecimento mais certo e mais seguro das realidades
morais, e outra o que intentam esses inovadores, isto é, atribuir
às faculdades volitiva e afetiva certo poder de intuição, e afirmar
que o homem, quando, pelo exercício da razão, não pode discernir o
que deva abraçar como verdadeiro, recorra à vontade, mediante a qual
escolherá livremente entre as opiniões opostas, com inaceitável
mistura de conhecimento e de vontade.
34. Nem há que admirar se ponham em perigo, com essas novas
opiniões, as duas disciplinas filosóficas que, pela sua própria
natureza, estão estreitamente relacionadas com a doutrina católica,
a saber, a teodicéia e a ética, cuja função acreditam não seja
demonstrar coisa alguma acerca de Deus ou de qualquer outro ser
transcendente, mas antes mostrar que os ensinamentos da fé sobre
Deus, ser pessoal, e seus preceitos, estão inteiramente de acordo
com as necessidades da vida e que por isso mesmo todos devem
aceitá-los para evitar a desesperação e obter a salvação eterna;
tudo isso está em oposição aberta aos documentos de nossos
predecessores Leão XIII e Pio X e não se pode conciliar com os
decretos do concílio Vaticano. Não haveria, certamente, tais
desvios da verdade que deplorar se também no terreno filosófico todos
olhassem com a devida reverência ao magistério da Igreja, ao qual
compete, por divina instituição, não só custodiar e interpretar o
depósito da verdade revelada, mas também vigiar sobre as disciplinas
filosóficas para que os dogmas católicos não sofram dano algum da
parte das opiniões não corretas.
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