|
35. Resta-nos agora dizer algo acerca de algumas questões que,
embora pertençam às disciplinas a que é costume chamar positivas,
entretanto, se entrelaçam mais ou menos com as verdades da fé
cristã. Não poucos rogam insistentemente que a religião católica
tenha em máxima conta a tais ciências; o que é certamente digno de
louvor quando se trata de fatos na realidade demonstrados, mas que hão
de admitir-se com cautela quando se trata de hipóteses, ainda que de
algum modo apoiadas na ciência humana, que tocam a doutrina contida na
sagrada Escritura ou na tradição. Se tais conjecturas opináveis se
opõem direta ou indiretamente à doutrina que Deus revelou, então
esses postulados não se podem admitir de modo algum.
36. Por isso o magistério da Igreja não proíbe que nas
investigações e disputas entre homens doutos de ambos os campos se
trate da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano
em matéria viva preexistente (pois a fé nos obriga a reter que as
almas são diretamente criadas por Deus), segundo o estágio atual
das ciências humanas e da sagrada teologia, de modo que as razões de
uma e outra opinião, isto é, dos que defendem ou impugnam tal
doutrina, sejam ponderadas e julgadas com a devida gravidade,
moderação e comedimento, contanto que todos estejam dispostos a
obedecer ao ditame da Igreja, a quem Cristo conferiu o encargo de
interpretar autenticamente as Sagradas Escrituras e de defender os
dogmas da fé.[10] Porém, certas pessoas, ultrapassam com
temerária audácia essa liberdade de discussão, agindo como se a
própria origem do corpo humano a partir de matéria viva preexistente
fosse já certa e absolutamente demonstrada pelos indícios até agora
achados e pelos raciocínios neles baseados, e como se nada houvesse
nas fontes da revelação que exigisse a máxima moderação e cautela
nessa matéria.
37. Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do
poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois
os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão
tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo
protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique
o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo
tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade
revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do
pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um
só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração,
é próprio de cada um deles.[11]
38. Da mesma forma que nas ciências biológicas e antropológicas,
há alguns que também nas históricas ultrapassam audazmente os limites
e cautelas estabelecidos pela Igreja. De modo particular, é
deplorável a maneira extraordinariamente livre de interpretar os livros
históricos do Antigo Testamento. Os fautores dessa tendência,
para defender a sua causa, invocam indevidamente a carta que há não
muito tempo a Comissão Pontifícia para os estudos bíblicos enviou
ao arcebispo de Paris.[12] Essa carta adverte claramente que os
onze primeiros capítulos do Gênesis, embora não concordem
propriamente com o método histórico usado pelos exímios historiadores
greco-latinos e modernos, não obstante, pertencem ao gênero
histórico em sentido verdadeiro, que os exegetas hão de investigar e
precisar; e que os mesmos capítulos, com estilo singelo e figurado,
acomodado à mente do povo pouco culto, contêm as verdades principais
e fundamentais em que se apóia a nossa própria salvação, bem como
uma descrição popular da origem do gênero humano e do povo
escolhido. Mas, se os antigos hagiógrafos tomaram alguma coisa das
tradições populares (o que se pode certamente conceder), nunca se
deve esquecer que eles assim agiram ajudados pelo sopro da divina
inspiração, a qual os tornava imunes de todo erro ao escolher e
julgar aqueles documentos.
39. Todavia, o que se inseriu na Sagrada Escritura tirado das
narrações populares, de modo algum deve comparar-se com as
mitologias e outras narrações de tal gênero, as quais procedem mais
de uma ilimitada imaginação do que daquele amor à simplicidade e à
verdade que tanto resplandece nos livros do Antigo Testamento, a tal
ponto que os nossos hagiógrafos devem ser tidos neste particular como
claramente superiores aos antigos escritores profanos.
|
|