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1. "O mediador entre Deus e os homens", [1] o grande
pontífice que penetrou os céus, Jesus filho de Deus,[2]
assumindo a obra de misericórdia com a qual enriqueceu o gênero humano
de benefícios sobrenaturais, visou sem dúvida a restabelecer entre os
homens e o Criador aquela ordem que o pecado tinha perturbado e a
reconduzir ao Pai celeste, primeiro princípio e último fim, a
mísera estirpe de Adão, infeccionada pelo pecado original. E por
isso, durante a sua permanência na terra, não só anunciou o início
da redenção e declarou inaugurado o reino de Deus, mas ainda cuidou
de promover a salvação das almas pelo contínuo exercício da
pregação e do sacrifício, até que, na cruz, se ofereceu a Deus
qual vítima imaculada para "purificar a nossa consciência das obras
mortas, para servir a Deus vivo".[3] Assim, todos os homens,
felizmente chamados do caminho que os arrastava à ruína e à
perdição, foram ordenados de novo a Deus, a fim de que, com sua
pessoal colaboração na obra da própria santificação, fruto do
sangue imaculado do Cordeiro, dessem a Deus a glória que lhe é
devida.
2. O Divino Redentor quis, ainda, que a vida sacerdotal por ele
iniciada em seu corpo mortal com as suas preces e o seu sacrifício,
não cessasse no correr dos séculos no seu corpo místico, que é a
Igreja; e por isso instituiu um sacerdócio visível para oferecer em
toda parte a oblação pura, [4] a fim de que todos os homens, do
oriente ao ocidente, libertos do pecado, por dever de consciência
servissem espontânea e voluntariamente a Deus.
3. A Igreja, pois, fiel ao mandato recebido do seu Fundador,
continua o ofício sacerdotal de Jesus Cristo, sobretudo com a
sagrada liturgia. E o faz em primeiro lugar no altar, onde o
sacrifício da cruz é perpetuamente representado[5] e renovado, com
a só diferença no modo de oferecer; em seguida, com os sacramentos,
que são instrumentos particulares por meio dos quais os homens
participam da vida sobrenatural; enfim, com o tributo cotidiano de
louvores oferecido a Deus ótimo e máximo[6] . "Que jubiloso
espetáculo - diz o nosso predecessor de feliz memória Pio XI -
oferece ao céu e à terra a Igreja que reza, enquanto continuamente
dia e noite, se cantam na terra os salmos escritos por inspiração
divina: nenhuma hora do dia transcorre sem a consagração de uma
liturgia própria; cada etapa da vida tem seu lugar na ação de
graças, nos louvores, preces e aspirações desta comum oração do
corpo místico de Cristo, que é a Igreja."[7]
4. Certamente conheceis, veneráveis irmãos, que, no fim do
século passado e nos princípios do presente, houve singular fervor de
estudos litúrgicos; já por louvável iniciativa de alguns
particulares, já sobretudo pela zelosa e assídua diligência de
vários mosteiros da ínclita ordem beneditina; assim que não somente
em muitas regiões da Europa, mas ainda nas terras de além-mar, se
desenvolveu a esse respeito uma louvável e útil emulação, cujas
benéficas conseqüências foram visíveis, quer no campo das
disciplinas sagradas, onde os ritos litúrgicos da Igreja oriental e
ocidental foram mais ampla e profundamente estudados e conhecidos, quer
na vida espiritual e íntima de muitos cristãos. As augustas
cerimônias do sacrifício do altar foram mais conhecidas,
compreendidas e estimadas; a participação aos sacramentos maior e
mais freqüente; as orações litúrgicas mais suavemente saboreadas e
o culto eucarístico tido, como verdadeiramente o é, por centro e
fonte da verdadeira piedade cristã. Além disso, pôs-se em mais
clara evidência o fato de que todos os fiéis constituem um só e
compacto corpo de que é Cristo a cabeça, com o conseqüente dever
para o povo cristão de participar, segundo a própria condição, dos
ritos litúrgicos.
5. Sem dúvida, sabeis muito bem que esta Sé Apostólica sempre
zelou para que o povo a ela confiado fosse educado num verdadeiro e
ativo sentido litúrgico e que, com zelo não menor se tem preocupado
em que os sagrados ritos brilhem até externamente por uma adequada
dignidade. Nessa mesma ordem de idéias, falando, segundo o
costume, aos pregadores quaresmais desta nossa excelsa cidade, em
1943, nós os havíamos calorosamente exortado a advertir os seus
ouvintes que participassem, com maior empenho, do sacrifício
eucarístico; e recentemente fizemos traduzir de novo em latim, do
texto original, o livro dos Salmos para que as preces litúrgicas, de
que são eles a parte maior na Igreja católica, fossem mais
exatamente entendidas e a sua verdade e suavidade mais facilmente
percebidas.[8]
6. Todavia, enquanto pelos salutares frutos que dele derivam, o
apostolado litúrgico nos é de não pequeno conforto, o nosso dever
nos impõe seguir com atenção esta "renovação" na maneira pela
qual é concebida por alguns, e cuidar diligentemente para que as
iniciativas não se tornem excessivas nem insuficientes.
7. Ora, se de uma parte verificamos com pesar que em algumas
regiões o sentido, o conhecimento e o estudo da liturgia são às
vezes escassos ou quase nulos; de outra, notamos, com muita
apreensão, que há algumas pessoas muito ávidas de novidades e que se
afastam do caminho da sã doutrina e da prudência. Na intenção e
desejo de um renovamento litúrgico, esses inserem muitas vezes
princípios que, em teoria ou na prática, comprometem esta
santíssima causa, e freqüentemente até a contaminam de erros que
atingem a fé católica e a doutrina ascética.
8. A pureza da fé e da moral deve ser a norma característica desta
sagrada disciplina, que deve necessariamente conformar-se ao
sapientíssimo ensinamento da Igreja. É, portanto, nosso dever
louvar e aprovar tudo o que é bem feito, conter ou reprovar tudo o que
se desvia do verdadeiro e justo caminho.
9. Não acreditem, pois, os inertes e os tíbios ter a nossa
aprovação porque repreendemos os que erram e contemos os audazes; nem
os imprudentes se tenham por louvados quando corrigimos os negligentes e
os preguiçosos. Ainda que nesta nossa encíclica tratemos sobretudo
da liturgia latina, não é que tenhamos em menor estima as venerandas
liturgias da Igreja oriental, cujos ritos, transmitidos por nobres e
antigos documentos, nos são igualmente caríssimos; mas visamos antes
às condições particulares da Igreja ocidental, que são tais que
reclamam a intervenção da nossa autoridade.
10. Ouçam, pois, os cristãos todos, com docilidade, a voz do
Pai comum, o qual deseja ardentemente que todos, unidos a ele
intimamente, se aproximem do altar de Deus, professando a mesma fé,
obedecendo à mesma lei, participando do mesmo sacrifício com uma só
inteligência e uma só vontade. O respeito devido a Deus o reclama;
as necessidades dos tempos presentes o exigem. Após uma longa e cruel
guerra que dividiu os povos com rivalidades e morticínios, os homens
de boa vontade se esforçam do melhor modo possível, em reconduzir
todos à concórdia. Acreditamos, todavia, que nenhum projeto e
nenhuma iniciativa seja, neste caso, tão eficaz quanto um fervoroso
espírito religioso e zelo ardente, do qual é necessário estejam
animados e guiados todos os cristãos, a fim de que, aceitando de
coração aberto as mesmas verdades e obedecendo docilmente aos
legítimos pastores, no exercício do culto devido a Deus, constituam
uma comunidade fraterna, porquanto, "ainda que muitos, somos um só
corpo, participando todos do único pão.[9]
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