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11. O dever fundamental do homem é certamente este de orientar a si
mesmo e a própria vida para Deus. "A ele, com efeito, devemos
principalmente unir-nos como indefectível princípio, ao qual deve
ainda constantemente aplicar-se a nossa escolha como ao último fim,
que perdemos pecando, mesmo por negligência, e que devemos
reconquistar pela fé, crendo nele".[10] Ora, o homem se volta
ordinariamente para Deus quando lhe reconhece a suprema majestade e o
supremo magistério, quando aceita com submissão as verdades
divinamente reveladas, quando lhe observa religiosamente as leis,
quando faz convergir para ele toda a sua atividade, quando - para
dizer resumidamente - presta, mediante a virtude da religião, o
devido culto ao único e verdadeiro Deus.
12. Esse é um dever que obriga antes de tudo os homens
individualmente, mas é ainda um dever coletivo de toda a comunidade
humana ordenada com recíprocos vínculos sociais, porque também ela
depende da suma autoridade de Deus.
13. Note-se ainda que esse é um dever particular dos homens,
porquanto Deus os elevou à ordem sobrenatural. Assim, se
consideramos Deus como autor da antiga Lei, vemo-lo proclamar
preceitos rituais e determinar acuradamente as normas que o povo deve
observar ao render-lhe o legítimo culto. Estabeleceu, para isso,
vários sacrifícios e designou várias cerimônias com que deviam
realizar-se e determinou claramente o que se referia à arca da
aliança, ao templo e aos dias festivos; designou a tribo sacerdotal e
o sumo sacerdote, indicou e descreveu as vestes para uso dos sagrados
ministros e tudo o mais que tinha relação com o culto divino.[11]
14. Esse culto, aliás, não era mais do que a sombra[12]
daquele que o sumo sacerdote do Novo Testamento havia de render ao
Pai celeste.
15. De fato, apenas "o Verbo se fez carne",[13]
manifesta-se ao mundo no seu ofício sacerdotal, fazendo ao Pai
Eterno um ato de submissão que durará por todo o tempo de sua vida:
"entrando no mundo, diz... eis que venho... para fazer, ó
Deus, a tua vontade...",[14] um ato que será consumado de
modo admirável no sacrifício cruento da cruz: "Pelo poder desta
vontade fomos santificados por meio da oblação do corpo de Jesus
Cristo feita uma só vez para sempre".[15] Toda a sua atividade
entre os homens não tem outro escopo. Menino, é apresentando no
templo ao Senhor; adolescente, ali volta ainda; em seguida ali vai
freqüentemente para instruir o povo e para rezar. Antes de iniciar o
ministério público jejua durante quarenta dias, e com seu conselho e
o seu exemplo exorta todos a rezarem de dia e de noite. Como mestre de
verdade, "ilumina todo homem"[16] para que os mortais reconheçam
convenientemente o Deus imortal, e não "se afastem para sua
perdição, mas guardem a fé para salvar a sua alma".[17] Como
Pastor, depois, ele governa o seu rebanho, conduzindo-o às
pastagens da vida, e dá uma lei a observar, para que ninguém se
afaste dele e da reta via que traçou, mas todos vivam santamente sob o
seu influxo e a sua ação. Na última ceia, com rito e aparato
solene, celebra a nova páscoa e provê a sua continuação mediante a
divina instituição da eucaristia; no dia seguinte, elevado entre o
céu e a terra, oferece o sacrifício salutar de sua vida; de seu
peito rasgado faz, de certo modo, jorrar os sacramentos que distribuem
às almas os tesouros da redenção. Fazendo isso, tem por único fim
a glória do Pai e a crescente santificação do homem.
16. Entrando, depois, na sede da beatitude celeste, quer que o
culto por ele instituído e prestado durante a sua vida terrena continue
ininterrupto. Já que não deixou órfão o gênero humano, mas o
assiste sempre com o seu contínuo e valioso patrocínio, fazendo-se
nosso advogado no céu junto do Pai,[18] assim o ajuda mediante a
sua Igreja, na qual está indefectivelmente presente no correr dos
séculos, Igreja que constituiu coluna da verdade[19] e
dispensadora de graça, e que, com o sacrifício da cruz, fundou,
consagrou e conformou eternamente.[20]
17. A Igreja, portanto, tem em comum com o Verbo encarnado o
escopo, o empenho e a função de ensinar a todos a verdade, reger e
governar os homens, oferecer a Deus o sacrifício, aceitável e
grato, e assim restabelecer entre o Criador e as criaturas aquela
união e harmonia que o apóstolo das gentes claramente indica por estas
palavras: "Não sois mais hóspedes ou adventícios, mas
concidadãos dos santos e membros da família de Deus, educados sobre
o fundamento dos apóstolos e dos profetas, com o próprio Jesus
Cristo por pedra angular, sobre a qual todo o edifício bem ordenado
se levanta para ser um templo santo no Senhor, e sobre ele vós sois
também juntamente edificados em morada de Deus, pelo
Espírito".[21] Por isso a sociedade fundada pelo divino
Redentor não tem outro fim, seja com a sua doutrina e o seu governo,
seja com o sacrifício e os sacramentos por ele instituídos, seja
enfim com o ministério que lhe contou, com as suas orações e o seu
sangue, senão crescer e dilatar-se sempre mais - o que se dá quando
Cristo é edificado e dilatado nas almas dos mortais, e quando,
vice-versa, as almas dos mortais são educadas e dilatadas em
Cristo; de maneira que, neste exílio terreno prospere o templo no
qual a divina majestade recebe o culto grato e legítimo. Em toda
ação litúrgica, junto com a Igreja está presente o seu divino
Fundador: Cristo está presente no augusto sacrifício do altar,
quer na pessoa do seu ministro, quer por excelência, sob as espécies
eucarísticas; está presente nos sacramentos com a virtude que neles
transfunde, para que sejam instrumentos eficazes de santidade; está
presente, enfim, nos louvores e súplicas dirigidas a Deus, como vem
escrito: "Onde estão duas ou três pessoas reunidas em meu nome aí
estou no meio delas".[22] A sagrada liturgia é, portanto, o
culto público que o nosso Redentor rende ao Pai como cabeça da
Igreja, e é o culto que a sociedade dos fiéis rende à sua cabeça,
e, por meio dela, ao Eterno Pai. É, em uma palavra, o culto
integral do corpo místico de Jesus Cristo, ou seja, da cabeça e de
seus membros.
18. A ação litúrgica inicia-se com a fundação da própria
Igreja. Os primeiros cristãos, com efeito, "eram assíduos aos
ensinamentos dos apóstolos, e à comum fração do pão e à
oração".[23] Em toda a parte onde os pastores possam reunir um
núcleo de fiéis, erigem um altar sobre o qual oferecem o
sacrifício, e em torno dele vêm dispostos outros ritos adaptados à
santificação dos homens e à glorificação de Deus. Entre esse
ritos estão, em primeiro lugar, os sacramentos, isto é, as sete
principais fontes de salvação; depois, está a celebração do
louvor divino, com o qual os féis reunidos obedecem à exortação do
Apóstolo: "Instruindo-vos e exortando-vos uns aos outros com toda
a sabedoria, cantando a Deus em vosso coração, inspirados pela
graça, salmos, hinos e cânticos espirituais";[24] depois,
ainda, a leitura da Lei, dos Profetas, do Evangelho e das
epístolas apostólicas; e, enfim, a prática com a qual o presidente
da assembléia recorda e comenta utilmente os preceitos do divino
Mestre, os acontecimentos principais de sua vida, e admoesta todos os
presentes com exortações oportunas e exemplos.
19. O culto se organiza e se desenvolve segundo as circunstâncias e
as necessidades dos cristãos, se enriquece de novos ritos,
cerimônias e fórmulas, sempre com o mesmo intento: "a fim de que
sejamos estimulados por aqueles sinais... conheçamos o progresso
realizado e nos sintamos solicitados a desenvolvê-lo com maior vigor;
o efeito, de fato, é mais digno, se mais ardente é o afeto que o
precede".[25] Assim a alma se eleva a Deus mais e melhor; assim
o sacerdócio de Jesus Cristo está sempre em ato na sucessão dos
tempos, não sendo a liturgia outra coisa que o exercício desse
sacerdócio. Como a sua cabeça divina, assim a Igreja assiste
continuamente os seus filhos, ajuda-os e exorta-os à santidade,
para que, ornados com essa dignidade sobrenatural, possam um dia
voltar ao Pai que está nos céus. Ela restaura para a vida celeste
os nascidos à vida terrena, dá-lhes a ajuda do Espírito Santo na
luta contra o inimigo implacável; chama os cristãos em torno dos
altares e, com insistentes convites, exorta-os a celebrar e tomar
parte no sacrifício eucarístico, e nutre-os com o pão dos anjos,
para que sejam sempre mais firmes; purifica e consola aqueles que o
pecado feriu e maculou; consagra com legítimo rito aqueles que, por
vocação divina, são chamados ao ministério sacerdotal; revigora
com graças e dons divinos o casto conúbio daqueles que são destinados
a fundar e constituir a família cristã; depois de ter confortado e
restaurado com o viático eucarístico e a sagrada unção as últimas
horas da vida terrena, acompanha ao túmulo com suma piedade os
despojos dos seus filhos, dispondo-os religiosamente, protegendo-os
ao abrigo da cruz, para que possam um dia ressurgir triunfando da
morte; abençoa com particular solenidade quantos dedicam a sua vida ao
serviço divino na consecução da perfeição religiosa; estende a sua
mão caridosa às almas que, nas chamas da purificação, imploram
preces e sufrágios, para conduzi-las finalmente à eterna beatitude.
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