|
20. Todo o conjunto do culto que a Igreja rende a Deus deve ser
interno e externo. É externo porque o exige a natureza do homem
composto de corpo e alma; porque Deus dispõe que "pelo conhecimento
das coisas visíveis sejamos atraídos ao amor das invisíveis";
[26] porque tudo o que vem da alma é naturalmente expresso pelos
sentidos; e ainda porque o culto divino pertence não somente ao
particular mas também à coletividade humana e conseqüentemente é
necessário que seja social, o que é impossível, no âmbito
religioso, sem vínculos e manifestações exteriores; e, enfim,
porque é um meio que põe particularmente em evidência a unidade do
corpo místico, acrescenta-lhe santos entusiasmos, consolida-lhe as
forças, intensifica-lhe a ação: "se bem que, com efeito, as
cerimônias, em si mesmas, não contenham nenhuma perfeição e
santidade, são todavia atos externos de religião que, como sinais,
estimulam a alma à veneração das coisas sagradas, elevam a mente à
realidade sobrenatural, nutrem a piedade, fomentam a caridade,
aumentam a fé, robustecem a devoção, instruem os simples, ornam o
culto de Deus, conservam a religião e distinguem os verdadeiros dos
falsos cristãos e dos heterodoxos.[27]
21. Mas o elemento essencial do culto deve ser o interno. É
necessário, com efeito, viver sempre em Cristo, dedicar-se todo a
ele, a fim de que nele, com ele e por ele, se dê glória ao Pai.
A sagrada liturgia requer que estes dois elementos estejam intimamente
ligados; o que ela não se cansa jamais de repetir toda vez que
prescreve um ato externo de culto. Assim, por exemplo, a propósito
do jejum, nos exorta: "a fim de que se opere de fato em nosso íntimo
o que a nossa observância professa externamente".[28] De outro
modo, a religião se torna um formalismo sem fundamento e sem
conteúdo. Sabeis, veneráveis irmãos, que o divino Mestre
considera indignos do templo sagrado e expulsa dele os que crêem honrar
a Deus somente com o som de bem construídas palavras e com atitudes
teatrais e estão persuadidos de poder prover de modo adequado à sua
salvação sem arrancar da alma os vícios inveterados".[29] A
Igreja, portanto, quer que todos os fiéis se prostrem aos pés do
Redentor para professar-lhe o seu amor e a sua veneração; quer que
as multidões, como as crianças que andaram ao encontro de Cristo
quando entrava em Jerusalém com alegres aclamações, acompanhem o
Rei dos reis e o sumo autor de todos os benefícios, aclamando-o com
o canto de glória e de agradecimento; quer que haja orações em seus
lábios, ora súplices, ora alegres e agradecidas, com as quais,
como os apóstolos junto ao lago de Tiberíades, possam experimentar o
auxílio de sua misericórdia e de seu poder; ou como Pedro, no monte
Tabor, a Deus se abandonem e a todas as suas coisas nos místicos
transportes da contemplação.
22. Não têm, pois, noção exata da sagrada liturgia aqueles que
a consideram como parte somente externa e sensível do culto divino ou
como cerimonial decorativo; nem se enganam menos aqueles que a
consideram como mero conjunto de leis e preceitos com que a hierarquia
eclesiástica ordena a realização dos ritos.
23. Deve, portanto, ser bem conhecido de todos que não se pode
honrar dignamente a Deus, se a alma não cuida de conseguir a
perfeição da vida, e que o culto rendido a Deus pela Igreja em
união com a sua Cabeça divina tem a eficácia suprema de
santificação.
24. Essa eficácia, se se trata do sacrifício eucarístico e dos
sacramentos, provém antes de tudo do valor da ação em si mesma (ex
opere operato); se se considera ainda a atividade própria da
imaculada esposa de Jesus Cristo com a qual orna de orações e de
sacras cerimônias o sacrifício eucarístico e os sacramentos, ou, se
se trata dos sacramentais e de outros ritos instituídos pela hierarquia
eclesiástica, então a eficácia deriva principalmente da ação da
Igreja (ex opere operantis Ecclesiae), enquanto esta é santa e
opera sempre em íntima união com a sua Cabeça.
25. A esse propósito, veneráveis irmãos, desejamos que volvais
a vossa atenção às novas teorias sobre "piedade objetiva" segundo
as quais, esforçando-se para pôr em evidência o mistério do corpo
místico, a realidade efetiva da graça santificante e a ação divina
dos sacramentos e do sacrifício eucarístico, se pretenderia descuidar
ou diminuir a "piedade subjetiva" ou pessoal.
26. Nas celebrações litúrgicas e, em particular, no augusto
sacrifício do altar, continua-se, sem dúvida, a obra da nossa
redenção, cujos frutos nos são aplicados. Cristo realiza a nossa
salvação cada dia nos sacramentos e no seu sacrifício e, por meio
deles, purifica continuamente e consagra a Deus o gênero humano.
Têm, portanto, uma virtude objetiva, com a qual, de fato, fazem
nossas almas participantes da vida divina de Jesus Cristo. Eles,
pois, têm não por nossa, mas por divina virtude, a eficácia de
reunir a piedade dos membros com a piedade da Cabeça e torná-la, de
certo modo, uma ação de toda a comunidade. Desses profundos
argumentos alguns concluem que toda a piedade cristã deve
concentrar-se no mistério do corpo místico de Cristo, sem nenhuma
consideração pessoal e subjetiva, e por isso acreditam que se deva
descaidar das outras práticas religiosas não estritamente litúrgicas
e realizadas fora do culto público.
27. Todos, no entanto, podem verificar que essas conclusões
acerca das duas espécies de piedade, ainda que os princípios acima
expostos sejam ótimos, são completamente falsas, insidiosas e
perniciosíssimas.
28. É verdade que os sacramentos e o sacrifício do altar têm uma
intrínseca virtude enquanto são ações do próprio Cristo que
comunica e difunde a graça da Cabeça divina nos membros do corpo
místico; mas, para terem a devida eficácia, exigem as boas
disposições da nossa alma; como, a propósito da eucaristia, são
Paulo admoesta: "cada um examine a si mesmo e coma deste pão e beba
do cálice".[30] Por isso mesmo, a Igreja define com brevidade
e clareza todos os exercícios com os quais a nossa alma se purifica,
especialmente durante a quaresma: "fortalezas da milícia cristã";
[31] são, com efeito, as ações dos membros que, com o auxílio
da graça, desejam aderir à sua Cabeça a fim de que "nos seja
manifesta - para repetir as palavras de santo Agostinho - na nossa
Cabeça a própria fonte da graça".[32] Mas deve-se notar que
estes membros são vivos, providos de razão e de vontade própria;
por isso é necessário que eles, encostando os lábios à fonte,
retirem e assimilem o alimento vital e removam tudo o que lhe pode
impedir a eficácia. Devemos, pois, afirmar que a obra da
redenção, independente em si mesma da nossa vontade, requer o
esforço íntimo da nossa alma para que possamos conseguir a eterna
salvação.
29. Se a piedade privada e interna dos particulares se descuidasse
do augusto sacrifício do altar e dos sacramentos, e se subtraísse ao
influxo salvador que emana da Cabeça nos membros, seria, sem
dúvida, reprovável e estéril; mas quando todas as providências e
os exercícios de piedade não estritamente litúrgicos fixam o olhar da
alma sobre atos humanos unicamente para endereçá-los ao Pai que
está nos céus; para estimular salutarmente os homens à penitência e
ao temor de Deus e arrancá-los da atração do mundo e dos vícios,
para conduzi-los felizmente por árduo caminho ao vértice da
santidade, então, não apenas são sumamente louváveis, mas
necessários, porque descobrem os perigos da vida espiritual,
estimulam-nos à aquisição da virtude e aumentam o fervor com o qual
nos devemos dedicar todos ao serviço de Jesus Cristo. A genuína
piedade que o Angélico chama "devoção" e que é o ato principal da
virtude da religião com o qual os homens se ordenam retamente, se
orientam oportunamente para Deus e livremente se consagram ao
culto,[33] têm necessidade da meditação das realidades
sobrenaturais e das práticas espirituais para que se alimente,
estimule e fortifique e nos anime à perfeição. É que a religião
cristã devidamente praticada requer, sobretudo, que a vontade se
consagre a Deus e influa sobre as outras faculdades da alma. Mas todo
ato da vontade pressupõe o exercício da inteligência e, antes que se
conceba o desejo e o propósito de dar-se a Deus por meio do
sacrifício, é absolutamente necessário o conhecimento dos argumentos
e dos motivos que levam à religião, como, por exemplo, o fim
último do homem e a grandeza da divina Majestade, o dever de
obediência ao Criador, os tesouros inexauríveis do amor com o qual
ele nos quis enriquecer, a necessidade da graça para alcançar a meta
assinalada, e o caminho particular que a divina Providência nos
preparou unindo-nos todos, como membros de um corpo, a Jesus Cristo
Cabeça. E já que nem sempre os motivos do amor dominam a alma
agitada pelas paixões, é muito oportuno que nos impressione ainda a
consideração salutar da divina justiça para levar-nos à humildade
cristã, à penitência e à emenda.
30. Todas estas considerações não devem ser uma vazia e abstrata
lembrança, mas devem visar efetivamente a submeter os nossos sentidos
e as suas faculdades à razão iluminada pela fé, a purificar a alma
que se une cada dia mais intimamente a Cristo e sempre mais a ele se
conforma e dele recebe a inspiração e a força divina de que tem
necessidade; e para que sejam aos homens estímulo sempre mais eficaz
ao bem, à fidelidade ao próprio dever, à prática da religião, ao
fervoroso exercício da virtude, é necessário ter presente este
ensinamento: "Sois de Cristo e Cristo é de Deus".[34]
Tudo, pois, seja orgânico e teocêntrico se queremos que tudo seja
em verdade endereçado à glória de Deus pela vida e pela virtude que
nos vêm da nossa Cabeça divina: "tendo, pois, confiança de
entrar no santo dos santos pelo sangue de Cristo, pelo novo e vivo
caminho que ele inaugurou para nós através da sua carne, e tendo um
grande sacerdote que preside à casa de Deus, aproximemo-nos com um
coração sincero, com plenitude de fé, alma purificada da
consciência de culpa, lavado o corpo com água limpa, apeguemo-nos
firmes à profissão da nossa esperança... e sejamos solícitos uns
para com os outros, para nos estimularmos à caridade e às boas
obras". [35]
31. Disso deriva o harmonioso equilíbrio dos membros do corpo
místico de Jesus Cristo. Com o ensino da fé católica, com a
exortação à observância dos preceitos cristãos, a Igreja prepara
o caminho à sua ação propriamente sacerdotal e santificadora;
dispõe-nos a uma contemplação mais íntima da vida do divino
Redentor e nos conduz a uma consciência mais profunda dos mistérios
da fé para que recebamos o alimento sobrenatural e a força para seguro
progresso na vida perfeita por meio de Jesus Cristo. Não somente
pelas obras de seus ministros mas ainda pelas obras dos fiéis
particulares imbuídos do espírito de Jesus Cristo, a Igreja se
esforça em fazer penetrar esse mesmo espírito na vida e na atividade
privada, familiar, social, e até econômica e política dos homens,
para que todos os que são chamados filhos de Deus possam mais
facilmente conseguir o seu próprio fim.
32. Dessa maneira a ação particular e o esforço ascético
dirigido à purificação da alma estimulam as energias dos fiéis e os
preparam a participar com melhores disposições do augusto sacrifício
do altar e a receber os sacramentos com maior fruto, e a celebrar os
sagrados ritos, de modo a torná-los mais animados e formados para a
oração e para a abnegação cristã para cooperar ativamente nas
inspirações e nos convites da graça, para imitar cada dia mais a
virtude do Redentor, não somente para vantagem própria mas ainda
para a vantagem de todo o corpo da Igreja, no qual todo o bem que se
cumpre provém da virtude da Cabeça e redunda em benefício dos
membros.
33. Por isso na vida espiritual nenhuma oposição ou repugnância
pode haver entre a ação divina que infunde a graça nas almas para
continuar a nossa redenção e a operosa colaboração do homem que não
deve tornar vão o dom de Deus; [36] entre a eficácia do rito
externo dos sacramentos que provém do seu intrínseco valor (ex opere
operato), e o mérito de quem os administra ou recebe (opus
operantis); entre as orações privadas e as preces públicas; entre
a ética e a contemplação; entre a vida ascética e a piedade
litúrgica; entre o poder de jurisdição e de legítimo magistério e
o poder eminentemente sacerdotal que se exercita no próprio sagrado
ministério.
34. Por graves motivos a Igreja prescreve aos ministros do altar e
aos religiosos, precisamente porque são destinados de modo particular
a realizar as funções litúrgicas do sacrifício e do louvor divino,
que, nos tempos estabelecidos, atendam à meditação piedosa, ao
exame diligente e à emenda da consciência e aos outros exercícios
espirituais.[37] Sem dúvida, a prece litúrgica, sendo pública
oração da ínclita esposa de Jesus Cristo, tem maior dignidade do
que a das orações privadas; mas esta superioridade não quer dizer
que entre estes dois gêneros de oração haja contraste ou oposição.
Ambas as duas se fundem e se harmonizam porque animadas de um único
espírito: "tudo e em todos, Cristo" [38] e tendem ao mesmo
fim: até que Cristo seja formado em nós.[39]
|
|