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73. É necessário, pois, veneráveis irmãos, que todos os fiéis
tenham por seu principal dever e suma dignidade participar do santo
sacrifício eucarístico, não com assistência passiva, negligente e
distraída, mas com tal empenho e fervor que os ponha em contato
íntimo com o sumo sacerdote, como diz o Apóstolo: "Tende em vós
os mesmos sentimentos que Jesus Cristo experimentou",[80]
oferecendo com ele e por ele, santificando-se com ele.
74. É bem verdade que Jesus Cristo é sacerdote, mas não para si
mesmo, e sim para nós, apresentando ao Eterno Pai os votos e
sentimentos religiosos de todo o gênero humano; Jesus é vítima,
mas por nós, substituindo-se ao homem pecador; ora, o dito do
Apóstolo: "Alimentai em vós os mesmos sentimentos que existiram em
Jesus Cristo" exige de todos os cristãos que reproduzam em si,
enquanto está em poder do homem, o mesmo estado de alma que tinha o
divino Redentor quando fazia o sacrifício de si mesmo, a humilde
submissão do espírito, isto é, a adoração, a honra, o louvor e
a ação de graças à majestade suprema de Deus; requer, além
disso, que reproduzam em si mesmos as condições da vítima: a
abnegação de si conforme os preceitos do evangelho, o voluntário e
espontâneo exercício da penitência, a dor e a expiação dos
próprios pecados. Exige, em uma palavra, a nossa morte mística na
cruz com Cristo, de modo que possamos dizer com Paulo: "Estou
crucificado com Cristo na cruz".[81]
75. É necessário, veneráveis irmãos, explicar claramente a
vosso rebanho como o fato de os fiéis tomarem parte no sacrifício
eucarístico não significa todavia que eles gozem de poderes
sacerdotais. Há, de fato, em nossos dias, alguns que,
avizinhando-se de erros já condenados,[82] ensinam que em o Novo
Testamento se conhece apenas um sacerdócio pertencente a todos os
batizados, e que o preceito dado por Jesus aos apóstolos na última
ceia - fazer o que ele havia feito - se refere diretamente a toda a
Igreja dos cristãos e só depois é que foi introduzido o sacerdócio
hierárquico. Sustentam, por isso, que só o povo goza de verdadeiro
poder sacerdotal, enquanto o sacerdote age unicamente por ofício a ele
confiado pela comunidade. Afirmam, em conseqüência, que o
sacrifício eucarístico é uma verdadeira e própria
"concelebração", e que é melhor que os sacerdotes "concelebrem"
junto com o povo presente, do que, na ausência destes, ofereçam
privadamente o sacrifício.
76. É inútil explicar quanto esses capciosos erros estejam em
contraste com as verdades acima demonstradas, quando falamos do lugar
que compete ao sacerdote no corpo místico de Jesus. Recordemos
apenas que o sacerdote faz as vezes do povo porque representa a pessoa
de nosso Senhor Jesus Cristo enquanto é Cabeça de todos os membros
e se oferece a si mesmo por eles: por isso vai ao altar como ministro
de Cristo, inferior a ele, mas superior ao povo.[83] O povo,
ao invés, não representando por nenhum motivo a pessoa do divino
Redentor, nem sendo mediador entre si próprio e Deus, não pode de
nenhum modo gozar dos poderes sacerdotais.
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