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77. Tudo isso consta da fé verdadeira; mas deve-se, além
disso, afirmar que também os fiéis oferecem a vítima divina, sob um
aspecto diverso.
Já o declararam abertamente alguns dos nossos predecessores e doutores
da Igreja. "Não somente - assim afirmava Inocêncio III, de
imortal memória - oferecem os sacerdotes, mas ainda todos os fiéis;
pois isto que em particular se cumpre pelo ministério dos sacerdotes,
cumpre-se universalmente por voto dos fiéis".[84] E apraz-nos
citar ao menos um dos muitos textos de são Roberto Belarmino a esse
propósito: "O sacrifício - diz ele - é oferecido principalmente
na pessoa de Cristo. Por isso a oblação que segue à consagração
atesta que toda a Igreja consente na oblação feita por Cristo e
oferece juntamente com ele".[85]
78. Com clareza não menor, os ritos e as orações do sacrifício
eucarístico significam e demonstram que a oblação da vítima é feita
pelos sacerdotes em união com o povo. De fato, não somente o
sagrado ministro, depois da oferta do pão e do vinho, voltado para o
povo diz explicitamente: "Orai, irmãos, para que o meu e o vosso
sacrifício sejam aceitos junto a Deus-Pai onipotente",[86] mas
ainda as orações com as quais é oferecida a vítima divina são,
além do mais, ditas no plural, e nelas se indica que também o povo
toma parte como ofertante neste augusto sacrifício. Diz-se, por
exemplo: "Pelos quais nós te oferecemos, e que te oferecem ainda
eles... Por isso te suplicamos, ó Senhor, aceitar aplacado esta
oferta dos teus servos e de toda a tua família... Nós, teus
servos, como ainda o teu povo santo, oferecemos à tua excelsa
majestade os dons e dádivas que tu mesmo nos deste, a hóstia pura, a
hóstia santa, a hóstia imaculada".[87]
79. Nem é de admirar que os fiéis sejam elevados a uma tal
dignidade. Com a água do batismo, com efeito, os cristãos se
tornam, a título comum, membros do corpo místico de Cristo
sacerdote, e, por meio do "caráter" que se imprime nas suas almas,
são delegados ao culto divino, participando, assim, de modo
condizente ao próprio estado, do sacerdócio de Cristo.
80. Na Igreja católica, a razão humana iluminada pela fé sempre
se esforçou por ter a maior consciência possível das coisas divinas;
por isso é natural que também o povo cristão pergunte piamente em que
sentido se diz no Cânon do sacrifício eucarístico que também ele o
oferece. Para satisfazer esse piedoso desejo apraz-nos tratar aqui do
assunto com clareza e concisão.
81. Há, acima de tudo, razões muito remotas: freqüentemente
acontece que os fiéis, assistindo aos sagrados ritos, unam
alternadamente as suas orações às orações do sacerdote; alguma
vez; ainda, acontece - isto antigamente se verificava com maior
freqüência - que ofereçam ao ministro do altar o pão e o vinho para
que se tornem corpo e sangue de Cristo; e, enfim, porque, com as
esmolas, fazem com que o sacerdote ofereça por eles a vítima divina.
82. Mas há ainda uma razão mais profunda para que se possa dizer
que todos os cristãos e especialmente aqueles que assistem ao altar
realizem a oferta.
83. Para não dar ensejo a erros perigosos neste importantíssimo
argumento, é necessário precisar com exatidão o significado do termo
"oferta". A imolação incruenta por meio da qual, depois que foram
pronunciadas as palavras da consagração, Cristo está presente no
altar no estado de vítima, é realizada só pelo sacerdote enquanto
representa a pessoa de Cristo e não enquanto representa a pessoa dos
fiéis. Colocando, porém, no altar a vítima divina, o sacerdote a
apresenta a Deus Pai como oblação à glória da SS. Trindade e
para o bem de todas as almas. Dessa oblação propriamente dita os
fiéis participam do modo que lhes é possível e por um duplo motivo:
porque oferecem o sacrifício não somente pelas mãos do sacerdote,
mas, de certo modo ainda, junto com ele; e ainda porque com essa
participação também a oferta feita pelo povo pertence ao culto
litúrgico. Que os fiéis oferecem o sacrifício por meio do
sacerdote, é claro, pois o ministro do altar age na pessoa de Cristo
enquanto Cabeça, que oferece em nome de todos os membros; pelo que,
em bom direito, se diz que toda a Igreja, por meio de Cristo,
realiza a oblação da vítima. Quando, pois, se diz que o povo
oferece juntamente com o sacerdote, não se afirma que os membros da
Igreja de maneira idêntica à do próprio sacerdote realizam o rito
litúrgico visível - o que pertence somente ao ministro de Deus para
isso designado - mas sim que une os seus votos de louvor, de
impetração, de expiação e a sua ação de graças à intenção do
sacerdote, aliás do próprio sumo pontífice, a fim de que sejam
apresentados a Deus Pai na própria oblação da vítima, embora com
o rito externo do sacerdote. É necessário, com efeito, que o rito
externo do sacrifício manifeste, por sua natureza, o culto interno;
ora, o sacrifício da nova Lei significa aquele obséquio supremo com
o qual o próprio principal ofertante, que é Cristo, e com ele e por
ele todos os seus membros místicos, honram devidamente a Deus.
84. Com grande alegria da alma fomos informados de que essa
doutrina, especialmente nos últimos tempos, pelo intenso estudo da
disciplina litúrgica da parte de muitos, foi posta em sua luz; mas
não podemos deixar de deplorar vivamente os exageros e os desvios da
verdade, que não concordam com os genuínos preceitos da Igreja.
85. Alguns, com efeito, reprovam de todo as missas que se celebram
privadamente e sem a assistência do povo, como se se desviassem da
forma primitiva do sacrifício; nem falta quem afirme que os sacerdotes
não possam oferecer a divina vítima ao mesmo tempo em muitos altares,
porque desse modo dissociam a comunidade e põem em perigo a unidade;
também não falta quem chegue ao ponto de crêr necessária a
confirmação e a ratificação do sacrifício por parte do povo, para
que possa ter sua força e eficácia.
86. Erroneamente, nesse caso, se faz apelo à índole social do
sacrifício eucarístico. Toda vez, com efeito, que o sacerdote
repete o que fez o divino Redentor na última ceia, o sacrifício é
realmente consumado e tem sempre e em qualquer lugar necessariamente e
por sua intrínseca natureza, uma função pública e social, enquanto
o ofertante age em nome de Cristo e dos cristãos, dos quais o divino
Redentor é Cabeça, e oferece a Deus pela santa Igreja católica e
pelos vivos e defuntos.[88] E isso se verifica certamente, quer
assistam os fiéis - e desejamos e recomendamos que estejam presentes
numerosíssimos e fervorosíssimos - quer não assistam, não sendo de
nenhum modo requerido que o povo ratifique o que faz o sagrado
ministro.
87. Se, pois, daquilo que foi dito resulta claramente que o santo
sacrifício da missa é oferecido validamente em nome de Cristo e da
Igreja, nem fica privado dos seus frutos sociais, mesmo quando
celebrado sem assistência de nenhum acólito todavia, pela dignidade
deste mistério, queremos e insistimos, como sempre quis a madre
Igreja, que nenhum sacerdote se aproxime do altar sem ter quem o ajude
e lhe responda, como prescreve o cân. 813.
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