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88. Para que, pois, a oblação, com a qual neste sacrifício os
fiéis oferecem a vítima divina ao Pai celeste, tenha o seu efeito
pleno, requer-se ainda outra coisa: é necessário que eles se imolem
a si mesmos como vítimas.
89. Essa imolação não se limita somente ao sacrifício
litúrgico. Quer, com efeito, o príncipe dos apóstolos que pelo
fato mesmo de sermos edifïcados como pedras vivas sobre Cristo,
possamos como "sacerdócio santo, oferecer vítimas espirituais
agradáveis a Deus por Jesus Cristo"; [89] e Paulo apóstolo,
sem nenhuma distinção de tempo, exorta os cristãos com as seguintes
palavras: "Eu vos conjuro, ó irmãos, que ofereçais os vossos
corpos como vítima viva, santa, agradável a Deus, como vosso culto
racional."[90] Mas quando, sobretudo, os féis participam da
ação litúrgica com tanta piedade e atenção que se pode
verdadeiramente dizer deles: "dos quais te é conhecida a fé e a
devoção"[91] não é possível que a fé de cada um deles não se
torne mais alegremente operante por meio da caridade, nem se revigore e
brilhe a piedade e não se consagrem todos à conquista da glória
divina, desejando com ardor tornarem-se intimamente semelhantes a
Jesus Cristo que sofreu acerbas dores, oferecendo-se ao sumo
Sacerdote e por meio dele como hóstia espiritual.
90. Isso ensinam ainda as exortações que o bispo endereça em nome
da Igreja aos ministros sagrados no dia da sua ordenação:
"Compenetrai-vos daquilo que fazeis, imitai o que tratais, de modo
que, ao celebrardes o mistério da morte do Senhor, procureis
mortificar os vossos membros de seus vícios e da
concupiscência".[92] E quase do mesmo modo nos livros
litúrgicos são exortados os cristãos que se aproximam do altar a
participarem dos sagrados mistérios: "esteja sobre... este altar o
culto da inocência, nele se imole a soberba, nele se apague a ira,
se debele a luxúria e toda concupiscência, ofereça-se ao invés de
rolas o sacrifício da castidade e em lugar de pombas o sacrifício da
inocência".[93] Assistindo, pois, ao altar, devemos
transformar a nossa alma de modo que se apague radicalmente todo o
pecado que está nela, e com toda diligência se restaure e reforce
tudo aquilo que, mediante Cristo, dá a vida sobrenatural: e assim
nos tornemos, junto com a hóstia imaculada, uma vítima agradável a
Deus Pai.
91. A Igreja se esforça com os preceitos da sagrada liturgia por
levar a efeito, da maneira mais perfeita, este santíssimo
propósito. A isso visam não somente as leituras, as homílias e as
outras exortações dos ministros sagrados, e todo o ciclo dos
mistérios que nos são recordados durante o ano, mas também as
vestes, os ritos sagrados e seu aparato exterior que tem por fim
"fazer pensar na majestade de tão grande sacrifício, excitar a mente
dos fnéis, por meio dos sinais visíveis de piedade e de religião,
à contemplação das altíssimas" coisas encerradas neste
sacrifício".[94]
92. Todos os elementos da liturgia tendem, pois, a reproduzir em
nossa alma a imagem do divino Redentor através do mistério da cruz,
segundo a palavra do apóstolo das gentes: "Estou cravado com Cristo
na cruz e vivo, não mais eu, mas é Cristo que vive em
mim".[95] Por isso nos tornamos hóstia junto com Cristo para a
maior glória do Pai.
93. A isso, pois, devem dirigir e elevar a sua alma os féis que
oferecem a vítima divina no sacrifício eucarístico. Se, com
efeito, como escreve santo Agostinho, sobre a mesa do Senhor é
posto o nosso mistério, isto é, o próprio Cristo Senhor,
[96] enquanto a cabeça é símbolo daquela união em virtude da
qual somos o corpo de Cristo[97] e membros do seu corpo;[98]
se são Roberto Belarmino ensina, segundo o pensamento do doutor de
Hipona, que no sacrifício do altar está significado o sacrifício
geral com o qual todo o corpo místico de Cristo, isto é, toda a
cidade redimida, é oferecida a Deus por meio de Cristo
grão-sacerdote, [99] nada se pode encontrar de mais reto e de
mais justo que nos imolarmos ao eterno Pai, nós todos, com nossa
Cabeça, que sofreu por nós. No sacramento do altar, segundo o
mesmo Agostinho, torna-se patente à Igreja que no sacrifício que
oferece, ela mesma é oferecida.[100]
94. Considerem, pois, os fiéis a que dignidade os eleva a sagrada
água do batismo; e não se contentem em participar do sacrifício
eucarístico com a intenção geral que convém aos membros de Cristo e
filhos da Igreja, mas livre e intimamente unidos ao sumo sacerdote e
ao seu ministro na terra, segundo o espírito da sagrada liturgia, se
unam a ele de modo particular no momento da consagração da hóstia
divina, e a ofereçam junto com ele quando são pronunciadas aquelas
solenes palavras "por ele, com ele, nele, a ti, Deus Pai
todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a
glória por todos os séculos dos séculos'';[101] à essas
palavras o povo responde: Amém. Nem se esqueçam os cristãos de
oferecer-se, com a divina Cabeça crucificada, a si mesmos e as suas
preocupações, angústias, dores, misérias e necessidades.
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