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95. São, pois, dignos de louvor aqueles que, com o fim de tornar
mais fácil e frutuosa ao povo cristão a participação no sacrifício
eucarístico, se esforçam em colocar oportunamente nas mãos do povo o
"Missal romano" de modo que os fiéis, unidos ao sacerdote, orem
com ele, com as suas próprias palavras e com os mesmos sentimentos da
Igreja; como também os que visam a fazer da liturgia, ainda que
externamente, uma ação sagrada, na qual têm parte de fato todos os
assistentes. Isso pode acontecer de vários modos: quando todo o
povo, segundo as normas rituais, responde disciplinadamente às
palavras do sacerdote ou executa cânticos correspondentes às várias
partes do sacrifício, ou faz uma e outra coisa, ou, enfim, quando,
na missa solene, responde alternadamente às orações dos ministros de
Jesus Cristo e se associa ao canto litúrgico.
96. Todavia, essas maneiras de participar do sacrifício são para
louvar e aconselhar, quando obedecem escrupulosamente aos preceitos da
Igreja e às normas dos sagrados ritos. São ordenadas sobretudo para
alimentar e fomentar a piedade dos cristãos e a sua íntima união com
Cristo e com o seu ministro visível e a estimular aqueles sentimentos
e aquelas disposições interiores com as quais é necessário que a
nossa alma se assemelhe ao sumo sacerdote do Novo testamento. Não
obstante, se bem que isto demonstre no modo exterior, que o
sacrifício por sua natureza, enquanto é realizado pelo mediador de
Deus e dos homens [102] deve ser considerado obra de todo o corpo
místico de Cristo, não são porém necessárias para constituir-lhe
o caráter público e comum. Além disso, a missa "dialogada" não
pode substituir a missa solene, a qual, ainda que celebrada na
presença apenas dos ministros, goza de uma particular dignidade pela
majestade dos ritos e aparato das cerimônias; se bem que o seu
esplendor e solenidade muito ganhem se, como o prefere a Igreja, o
povo numeroso e devoto a ela assistir.
97. Deve-se ainda observar que estão fora da verdade e do caminho
da reta razão os que, arrastados por falsas opiniões, tanto valor
atribuem a todas essas circunstâncias que não duvidam asseverar que,
omitindo-as, a ação sagrada não pode alcançar o fim prefixado.
98. Não poucos fiéis, com efeito, são incapazes de usar o
"Missal Romano" ainda quando escrito em língua vulgar; nem todos
são capazes de compreender corretamente, como convém, os ritos e as
cerimônias litúrgicas. A inteligência, o caráter e a índole dos
homens são tão vários e dissemelhantes que nem todos podem igualmente
impressionar-se e serem guiados pelas orações, pelos cantos ou pelas
ações sagradas feitas em comum. Além disso, as necessidades e as
disposições das almas não são iguais em todos, nem ficam sempre as
mesmas em cada um. Quem, pois, poderá dizer, levado por tal
preconceito, que tantos cristãos não podem participar do sacrifício
eucarístico e aproveitar-lhe os benefícios? Certamente que o podem
fazer de outra maneira, e para alguns mais fácil: por exemplo,
meditando piamente os mistérios de Jesus Cristo ou fazendo
exercícios de piedade e outras orações que, embora na forma difiram
dos sagrados ritos, a eles todavia correspondem pela sua natureza.
Por isso vos exortamos, veneráveis irmãos, a que na vossa diocese
ou jurisdição eclesiástica reguleis e ordeneis o modo mais adequado
mediante o qual o povo consiga participar da ação litúrgica segundo
as normas estabelecidas no "Missal Romano" e segundo os preceitos da
Sagrada Congregação dos ritos e do Código de direito canônico.
Faça-se, pois, tudo com a necessária ordem e decoro, nem seja
permitido a ninguém, ainda que sacerdote, usar os sagrados edifícios
para experimentações arbitrárias. A esse propósito desejamos
ainda, como já existe para a arte e a música sacra, também se
constitua nas dioceses, uma comissão para promover o apostolado
litúrgico, a fim de que, sob o vosso vigilante cuidado, tudo se
faça diligentemente segundo as prescrições da Sé Apostólica.
99. Nas comunidades religiosas observe-se cuidadosamente tudo o que
as próprias constituições estabeleceram nesta matéria, e não se
introduzam novidades que não tenham sido primeiro aprovadas pelos
superiores. Na realidade, ainda que possam ser várias as
circunstâncias exteriores da participação do povo no sacrifício
eucarístico e nas outras ações litúrgicas, sempre deve procurar-se
com todo o cuidado que as almas dos assistentes se unam ao divino
Redentor com os mais estreitos laços possíveis e que a sua vida se
enriqueça de santidade sempre maior e cresça todo dia a glória do
Pai celeste.
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