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100. O augusto sacrifício do altar conclui-se com a comunhão do
divino banquete. Mas, como todos sabem, para haver integridade do
sacrifício, somente é exigido que o sacerdote se nutra do alimento
celeste e não que o povo - coisa aliás sumamente desejável -
participe da santa comunhão.
101. Agrada-nos a esse propósito repetir as considerações de
Nosso predecessor Bento XIV sobre as definições do concílio de
Trento: "Em primeiro lugar... devemos dizer que a nenhum fiel
pode vir à mente que as missas privadas, nas quais apenas o sacerdote
comunga, percam por isso o valor do verdadeiro, perfeito e íntegro
sacrifício instituído por Cristo Senhor e devam, portanto, ser
consideradas ilícitas. Nem os fiéis ignoram - pelo menos podem ser
facilmente instruídos - que o sacrossanto concílio de Trento,
fundando-se na doutrina guardada na ininterrupta tradição da
Igreja, condenou a nova e falsa doutrina de Lutero, contraria a
esta"[103] . Quem disser que as missas nas quais só o sacerdote
comunga sacramentalmente são ilícitas, e por isso devam ser
abolidas, seja anátema".[104]
102. Afastam-se, pois, do caminho da verdade os que recusam
celebrar, se o povo cristão não se aproximar da mesa divina; e ainda
mais se afastam os que, para sustentar a absoluta necessidade de que os
fiéis se nutram do banquete eucarístico juntamente com o sacerdote,
afirmam capciosamente que não se trata somente de um sacrifício, mas
de sacrifício e banquete de união fraterna, e fazem da santa
comunhão em comum quase o ápice de toda a celebração.
103. Deve-se ainda uma vez notar que o sacrifício eucarístico
consiste essencialmente na imolação incruenta da vítima divina,
imolação que é misticamente manifestada pela separação das sagradas
espécies e pela sua oblação feita ao Pai Eterno. A santa
comunhão pertence à integridade do sacrifício, e à participação
nele por meio da recepção do augusto sacramento; e enquanto é
absolutamente necessária ao ministro sacrificador, aos fiéis é
vivamente recomendável.
104. Como, porém, a Igreja, enquanto mestra de verdade, se
esforça com todo o cuidado por guardar a integridade da fé católica,
assim, enquanto mãe solícita de seus filhos exorta-os instantemente
a participarem com avidez e freqüência deste máximo benefício da
nossa religião.
105. Deseja antes de tudo, que os cristãos - especialmente
quando não possam facilmente receber de fato o alimento eucarístico -
o recebam ao menos em desejo; de sorte que se unam a ele com fé viva,
com ânimo reverentemente humilde e confiante na vontade do Redentor
divino e com o amor mais ardente.
106. Mas isso não lhe basta. Já que, como acima dissemos,
podemos participar do sacrifício também pela comunhão sacramental,
por meio do banquete do pão dos anjos, a madre Igreja, para que mais
eficazmente "possamos sentir em nós continuamente o fruto da
redenção" [105] repete a todos os seus filhos o convite de
Cristo Senhor: "tomai e comei... fazei isto em minha
memória".[106] Nesse propósito o concílio de Trento,
fazendo eco aos desejos de Jesus Cristo e de sua esposa imaculada,
insta por "que em todas as missas os fiéis presentes participem não
só espiritualmente, mas ainda sacramentalmente da eucaristia, para
que lhes venha mais abundante o fruto deste sacrifício".[107]
Aliás, para melhor e mais claramente manifestar-se a participação
dos fiéis no sacrifício divino por meio da comunhão eucarística, o
nosso imortal predecessor Bento XIV louva a devoção daqueles que,
não só desejam nutrir-se do alimento celeste durante a assistência
ao sacrifício, mas preferem alimentar-se com hóstias consagradas no
mesmo sacrifício, se bem que, como ele declara, participemos
verdadeira e realmente do sacrifício, mesmo quando se trate de pão
eucarístico devidamente consagrado antes. Assim, com efeito,
escreve: "Embora participem do mesmo sacrifício não só aqueles aos
quais o sacerdote celebrante dá parte da Vítima por ele oferecida na
mesma missa, mas também aqueles aos quais o sacerdote dá a eucaristia
que se costuma conservar; nem por isso a Igreja proibiu no passado,
ou proíbe atualmente, que o sacerdote satisfaça à devoção e ao
justo pedido daqueles que assistem à missa e pedem para participar do
mesmo sacrifício, também por eles oferecido na maneira que lhes é
apropriada; antes aprova e deseja que assim se faça e reprovaria os
sacerdotes que, por sua culpa ou negligência privassem os fiéis desta
participação". [108]
107. Queira, pois, Deus que todos, espontanea e livremente,
correspondam a esses solícitos convites da Igreja; queira Deus que
os fiéis, mesmo todos os dias se o puderem, participem não só
espiritualmente do sacrifício divino, mas ainda da comunhão do
augusto sacramento, recebendo o corpo de Jesus Cristo, oferecido por
todos ao Pai Eterno. Estimulai, veneráveis irmãos, nas almas
confïadas aos vossos cuidados, a apaixonada e insaciável fome de
Jesus Cristo; vosso ensinamento cerque os altares de crianças e de
jovens que ofereçam ao Redentor divino a sua inocência e o seu
entusiasmo: aproximem-se freqüentemente os cônjuges para que,
nutridos na sagrada mesa e graças a ela, possam educar no espírito e
na caridade de Jesus Cristo a prole que lhes foi confiada; sejam
convidados os operários para que possam receber o alimento eficaz e
indefectível que lhes restaura as forças e prepara às suas fadigas a
recompensa eterna no céu; aproximai enfim os homens de todas as
classes e "compeli-os a entrar",[109] porque este é o pão da
vida do qual todos têm necessidade. A Igreja de Jesus Cristo só
dispõe desse pão para saciar as aspirações e os desejos das nossas
almas, para uni-las intimamente a Jesus Cristo, afim de, por ele,
se tornarem "um só corpo"[110] e confraternizarem quantos se
sentam à mesma mesa para tomar o remédio da imortalidade [111]
com a fração do pão único.
108. É assaz oportuno, ainda - o que aliás é estabelecido pela
liturgia - que o povo compareça à santa comunhão depois que o
sacerdote tomou no altar o alimento divino; e, como já dissemos,
são para louvar aqueles que, assistindo à missa, recebem as hóstias
consagradas no mesmo sacrifício, verificando-se destarte que
"quantos, participando deste altar, hajamos recebido o sacrossanto
corpo e sangue de teu Filho, sejamos cumulados de toda a graça e
bênção celeste".[112]
109. Todavia, não faltam nem são raras as causas pelas quais se
deva distribuir o pão eucarístico, antes ou depois do sacrifício,
como também que se comungue com hóstias anteriormente consagradas,
embora se distribua a comunhão em seguida à do sacerdote. Mesmo
nesses casos - como aliás já advertimos antes - o povo participa
regularmente do sacrifício eucarístico e pode freqüentemente, com
maior facilidade, aproximar-se da mesa de vida eterna. Se a Igreja
com maternal condescendência se esforça por vir ao encontro das
necessidades espirituais dos seus filhos, estes, contudo, de sua
parte, não devem facilmente desdenhar o que a sagrada liturgia
aconselha e, sempre que não haja motivo plausível em contrário,
devem fazer tudo o que mais claramente manifesta no altar a viva unidade
do corpo místico.
110. Finda a sagrada ação, regulada pelas normas litúrgicas
particulares, não dispensa a ação de graças de quem saboreou o
alimento celeste; é, aliás muito conveniente que, recebido o
alimento eucarístico e terminados os ritos públicos, se recolha e,
intimamente unido com o divino Mestre, se entretenha com ele tanto
quanto as circunstâncias lho permitam, em dulcíssimo e salutar
colóquio. Afastam-se, pois, do reto caminho da verdade aqueles
que, baseando-se nas palavras mais que no sentido, afirmam e ensinam
que, terminada a missa, não se deve prolongar a ação de graças,
não só porque o sacrifício do altar é por natureza uma ação de
graças mas ainda porque isso pertence à piedade privada, pessoal e
não ao bem da comunidade. Pelo contrário, a própria natureza do
Sacramento requer do cristão que o recebe, que se locuplete com
abundantes frutos de santidade.
111. Certamente a pública assembléia da comunidade está
dissolvida, mas é necessário que os indivíduos unidos com Cristo
não interrompam na sua alma o cântico de louvor, "agradecendo sempre
tudo em nome de nosso Senhor Jesus Cristo a Deus e
Pai".[113] A isso nos exorta ainda a própria liturgia do
sacrifício eucarístico, quando nos manda rezar com estas palavras:
"Concede, nós te pedimos, render-te contínuas graças [114]
e não cessar jamais de louvar-te".[115] Se se deve, pois,
sempre agradecer a Deus e jamais cessar de louvá-lo, quem ousaria
repreender e desaprovar a Igreja que aconselha aos seus sacerdotes
[116] e aos fiéis entreterem-se ao menos um pouco de tempo depois
da comunhão em colóquio com o divino Redentor, e que inseriu nos
livros litúrgicos oportunas orações enriquecidas de indulgências com
as quais os sagrados ministros se possam convenientemente preparar antes
de celebrar e de comungar e, acabada a santa missa, manifestar a Deus
a sua ação de graças? A sagrada liturgia, longe de sufocar os
íntimos sentimentos particulares dos cristãos, os facilita e estimula
a que sejam assimilados a Jesus Cristo e por meio dele dirigidos ao
Pai; portanto ela mesma exige que aquele que se aproxima da mesa
eucarística agradeça devidamente a Deus. O divino Redentor
compraz-se em ouvir as nossas orações, falar conosco de coração
aberto e oferecer-nos refúgio no seu Coração ardente.
112. Esses atos próprios dos indivíduos são absolutamente
necessários para aproveitar-nos mais abundantemente de todos os
sobrenaturais tesouros de que é rica a eucaristia e para transmiti-los
aos outros segundo as nossas possibilidades, a fim de que Cristo
Senhor consiga em todas as almas a plenitude de sua virtude. Por
que, pois, veneráveis irmãos; não louvaremos aqueles que,
recebido o alimento eucarístico, ainda depois que se dissolveu
oficialmente a assembléia cristã, se demoram em íntima familiaridade
com o divino Redentor, não só para tratar docemente com ele, mas
ainda para agradecê-lo, louvá-lo e especialmente para pedir-lhe
ajuda, e, assim, afastar de sua alma tudo quanto possa diminuir a
eficácia do sacramento, ao passo que se aproveita de tudo o que logra
favorecer a atualíssima ação de Jesus? Antes, nós os exortamos a
fazê-lo, de modo particular, quer traduzindo na prática os
propósitos concebidos e exercitando as virtudes cristãs, quer
adaptando às próprias necessidades quanto tenham recebido com real
liberalidade. Falava deveras segundo os preceitos e espírito da
liturgia o autor do áureo livrinho a "Imitação de Cristo",
quando aconselhava a quem tivesse comungado: "Recolhe-te em segredo
e goza de teu Deus para que possuas aquele que o mundo inteiro não
poderá tirar-te".[117]
113. Assim, pois, intimamente unidos a Cristo, procuremos todos
mergulhar em sua santíssima alma e unir-nos com ele para participar
dos atos de adoração com os quais ele oferece à Trindade Augusta a
homenagem mais grata e aceita; aos atos de louvor e de ação de
graças que ele oferece ao Pai Eterno e a que faz eco o cântico do
céu e da terra: "Bendigam ao Senhor todas as suas obras";
[118] participando dos atos, imploremos a ajuda celeste no momento
mais oportuno para pedir e obter socorro em nome de Cristo [119]
mas, sobretudo, ofereçamo-nos e imolemo-nos como vítimas
clamando: "Faze que sejamos oferta eterna a ti",[120]
114. O divino Redentor repete incessantemente o seu insistente
convite: "Permanecei em mim".[121] por meio do sacramento da
eucaristia, Cristo fica em nós e nós ficamos em Cristo; e como
Cristo, permanecendo em nós, vive e opera, assim é necessário que
nós, permanecendo em Cristo, por ele vivamos e operemos.
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