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115. Contém o alimento eucarístico, como todos sabem,
"verdadeira, real e substancialmente o corpo e o sangue junto com a
alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo"; [122] não
é de admirar, pois, se a Igreja, desde as origens adorou o corpo de
Cristo sob as espécies eucarísticas, como se vê dos ritos mesmos do
augusto sacrifício, com os quais se prescreve aos sagrados ministros
que adorem o santíssimo sacramento com genuflexões e inclinações
profundas.
116. Os sagrados concílios ensinam que, desde o início de sua
vida, foi transmitido à Igreja que se deve honrar "com uma única
adoração o Verbo Deus encarnado e a sua própria carne"
[123] ; e santo Agostinho afirma: "Ninguém come esta carne sem
tê-la primeiro adorado", acrescentando que não só não pecamos
adorando, antes pecamos não adorando.[124]
117. Desses princípios doutrinários nasceu e se foi pouco a pouco
desenvolvendo o culto eucarístico da adoração, distinto do santo
sacrifício. A conservação das sagradas espécies para os enfermos e
para todos os que viessem a encontrar-se em perigo de morte,
introduziu o louvável uso de adorar este alimento celeste conservado
nas igrejas. Esse culto de adoração tem um válido e sólido
motivo. A eucaristia, de fato, é sacrifício e é, também,
sacramento; e difere dos outros sacramentos enquanto não só produz a
graça, mas ainda contém de modo permanente o próprio autor da
graça. Quando, por isso, a Igreja nos manda adorar a Cristo sob
os véus eucarísticos e suplicar-lhe os dons sobrenaturais e terrenos
de que temos sempre necessidade, manifesta a fé viva com a qual crê
presente sob aqueles véus o seu Esposo divino, manifesta-lhe o seu
reconhecimento e goza da sua íntima familiaridade.
118. Nesse culto, a Igreja, no decurso dos tempos, introduziu
várias formas cada dia certamente mais belas e salutares, como, por
exemplo: devotas e mesmo cotidianas visitas ao divino tabernáculo;
bênção do santíssimo sacramento; procissões solenes por vilas e
cidades, especialmente por ocasião dos congressos eucarísticos, e
adoração do augusto sacramento publicamente exposto, as quais algumas
vezes duram pouco e outras vezes se prolongam por horas inteiras e
até, por quarenta horas; em alguns lugares são estabelecidas durante
o ano todo, por turnos, em cada Igreja; em outros lugares se
continuam de dia e de noite ao cuidado de comunidades religiosas e nelas
freqüentemente tomam parte também os fiéis.
119. Esses exercícios de devoção contribuíram de modo
admirável para a fé e a vida sobrenatural da Igreja militante na
terra, a qual, assim fazendo, se torna, de certo modo, eco da
Igreja triunfante que eternamente canta o hino de louvor a Deus e ao
Cordeiro "que foi imolado".[125] Por isso, a Igreja não só
aprovou mas fez seus e confirmou com a sua autoridade estes exercícios
devotos propagados em toda a parte no correr dos séculos.[126]
Eles fluem do espírito da sagrada liturgia; e por isso, desde que
sejam cumpridos com o decoro, a fé e a devoção requeridas pelos
sagrados ritos e pelas prescrições da Igreja, certamente ajudam
muitíssimo a viver a vida litúrgica.
120. Nem se diga que tal culto eucarístico provoca uma errônea
confusão entre o Cristo histórico, como dizem, que viveu na terra,
o Cristo presente no augusto sacramento do altar, e o Cristo
triunfante no céu e dispensador de graças; deve-se, pelo
contrário, afirmar que, desse modo, os fiéis testemunham e
manifestam solenemente a fé da Igreja, com a qual se crê que um e
idêntico é o Verbo de Deus e o Filho de Maria virgem, que sofreu
na cruz, que está presente e oculto na eucaristia, e que reina no
céu. Assim afirma são João Crisóstomo: "Quando vês a ti;
apresentado (o corpo de Cristo) dize a ti mesmo: por este corpo não
sou mais terra e pó, não mais escravo, porém livre: por isso,
espero alcançar o céu e os bens que aí se encontram, a vida
imortal, a herança dos anjos, a companhia de Cristo; este corpo
transpassado pelos cravos, dilacerado pelos açoites, não foi presa
da morte... Este é aquele corpo que foi ensangüentado,
transpassado pela lança, do qual brotaram duas fontes salutares: uma
de sangue, outra de água... Este corpo foi-nos dado para o
possuir e para o comer, e isso foi conseqüência de intenso
amor".[127]
121. De modo particular, ademais, é muito de louvar-se o
costume segundo o qual muitos exercícios de piedade entrados no uso do
povo cristão, se encerram com o rito da bênção eucarística. Nada
melhor nem mais vantajoso que o gesto com o qual o sacerdote,
levantando ao céu o pão dos anjos, em presença da multidão cristã
ajoelhada, e movendo-o em forma de cruz, invoca o Pai Celeste para
que se digne volver benignamente os olhos a seu Filho crucificado por
nosso amor, e, graças a ele, que quis ser nosso Redentor e irmão,
difunda por sua intervenção, os seus dons celestes sobre os remidos
pelo sangue imaculado do Cordeiro.[128]
122. Procurai, pois, veneráveis irmãos, com a vossa habitual e
grande diligência, que os templos edificados pela fé e pela piedade
das gerações cristãs no decurso dos séculos como um perene hino de
glória a Deus onipotente e como digna habitação do nosso Redentor
oculto sob as espécies eucarísticas, sejam o mais possível abertos
aos sempre mais numerosos fiéis, para que eles, recolhidos aos pés
de nosso Salvador, ouçam o seu dulcíssimo convite: "Vinde a mim,
vós todos que estais atribulados e oprimidos, e eu vos
aliviarei".[129] Os templos sejam em verdade a casa de Deus,
na qual quem entra para pedir favores se alegre de tudo conseguir
[130] e alcance a consolação celeste.
123. Somente assim poderá acontecer que toda a família humana se
pacifique na ordem e, com inteligência e coração concordes, cante o
hino da esperança e do amor: "Bom Pastor, pão verdadeiro - ó
Jesus, compadece-te de nós - apascenta-nos, guarda-nos, -
faze-nos contemplar a felicidade na terra dos vivos".[131]
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