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124. O ideal da vida cristã consiste em se unir cada um
intimamente a Deus. Por isso, o culto que a Igreja rende ao Eterno
e que se sintetiza no sacrifício eucarístico e no uso dos sacramentos
é ordenado e disposto, de modo que, com o ofício divino, se estenda
a todas as horas do dia, às semanas, a todo o curso do ano, a todos
os tempos e a todas as condições da vida humana.
125. Tendo o divino Mestre recomendado: "É necessário rezar
sempre, sem esmorecer",[132] a Igreja, obedecendo fielmente a
essa recomendação, não cessa de rezar e exortar-nos com o apóstolo
das gentes: "Por seu intermédio (de Jesus) ofereçamos sempre a
Deus o sacrifício de louvor".[133]
126. A oração pública e coletiva endereçada a Deus por todos
juntos, realizava-se na antiguidade somente em certos dias e outros
momentos do dia. Contudo rezava-se não só nas reuniões públicas,
mas ainda nas casas particulares e, às vezes, com os vizinhos e
amigos. Bem cedo, porém, nas várias partes da cristandade,
introduziu-se o uso de reservar à oração tempos particulares, por
exemplo, a última hora do dia, quando o sol se esconde e se acende o
lampadário; ou à primeira hora, quando termina a noite, isto é,
depois do canto do galo e ao surgir do sol. Outros momentos do dia
são indicados como mais próprios para a oração pela Sagrada
Escritura, pelo costume tradicional hebráico e práticas cotidianas.
Segundo os Atos dos Apóstolos, os discípulos de Jesus Cristo
reuniam-se para orar na terceira hora, quando "ficaram todos repletos
do Espírito Santo" ;[134] o príncipe dos apóstolos, antes
de tomar alimento, "subiu à parte superior da casa para rezar por
volta da hora sexta";[135] Pedro e João "subiam ao templo
para a oração na hora nona"; [136] e Paulo e Silas "louvavam
a Deus à meia noite".[137]
127. Essas várias orações especialmente por iniciativa e obra
dos monges e dos ascetas, aperfeiçoaram-se cada dia mais, e pouco a
pouco foram introduzidas no uso da sagrada liturgia por autoridade da
Igreja.
128. O Ofício divino é, pois, a oração do corpo místico de
Cristo, dedicada a Deus em nome de todos os cristãos e em seu
beneficio, feita pelos sacerdotes, por outros ministros da Igreja e
pelos religiosos delegados da própria Igreja para isso.
129. Qual deva ser o caráter e eficácia desse louvor divino,
deduz-se das palavras que a Igreja sugere dizer antes de iniciar-se a
oração do Ofício, prescrevendo que sejam recitadas "digna, atenta
e devotamente".
130. Assumindo a natureza humana, o Verbo de Deus introduziu no
exílio terreno o hino que se canta no céu por toda a eternidade. Une
a si toda a comunidade humana e a associa no canto deste hino de
louvores. Confessemos com humildade que "não sabemos o que devemos
convenientemente pedir, mas o próprio Espírito reza por nós com
gemidos inenarráveis". [138] E ainda Cristo, por meio do seu
Espírito, invoca em nós o Pai. "Deus não poderia fazer aos
homens um dom maior... reza (Jesus) por nós como nosso
sacerdote; reza em nós como nossa cabeça; é invocado por nós como
nosso Deus... reconheçamos, pois, as nossas vozes nele e a sua
voz em nós... Rezamos a ele como a Deus, ele reza como servo:
lá o Criador, aqui um ser criado, enquanto, sem sofrer mudança,
tomou uma natureza mutável, fazendo de nós um só homem com ele:
cabeça e corpo".[139]
131. A excelsa dignidade dessa oração da Igreja deve
corresponder a intensa devoção da nossa alma e, visto que a voz do
orante repete os poemas escritos por inspiração do Espírito Santo,
que proclamam e exaltam a perfeitíssima grandeza de Deus, é ainda
necessário que a essa voz se junte o movimento interior do nosso
espírito para fazer nossos aqueles mesmos sentimentos com os quais nos
elevamos ao céu, adoramos a santíssima Trindade e lhe rendemos os
devidos louvores e ações de graças: "Devemos salmodiar de modo que
a nossa mente concorde com a nossa voz". [140] Não se trata,
pois, de uma recitação somente, ou de um canto que, embora
perfeitíssimo segundo as leis da arte musical e as normas dos sagrados
ritos, chegue apenas ao ouvido; mas sobretudo de uma elevação da
nossa mente e da nossa alma a Deus para que nos consagremos, nós e
todas as nossas ações, a ele, unidos com Jesus Cristo.
132. Disso depende certamente, em não pequena parte, a eficácia
das orações, as quais, se não se dirigem ao próprio Verbo feito
homem, concluem com estas palavras: "Por nosso Senhor Jesus
Cristo" que, mediador entre nós e Deus, mostra ao Pai celeste os
seus estigmas gloriosos, "sempre viva para interceder por
nós".[141]
133. Os salmos, como todos sabem, constituem parte principal do
Oficio divino. Eles abrangem todo o curso do dia e lhe dão um
contato e um ornamento de santidade. Cassiodoro disse belamente a
propósito dos salmos distribuídos no Oficio divino do seu tempo:
"Eles... com júbilo matutino nos tornam favorável o dia que está
para começar, santificam a primeira hora do dia, consagram a terceira
hora, alegram a sexta na fração do pão, assinalam, à nona, o fim
do jejum, concluem o término do dia e impedem o nosso espírito de
obscurecer-se ao avizinhar-se a noite".[142]
134. Eles lembram as verdades reveladas por Deus ao povo eleito,
às vezes terríveis, às vezes impregnadas de suavíssima doçura;
repetem e acendem a esperança no Libertador prometido que outrora era
animada com o canto em torno da lareira doméstica e na própria
majestade do templo; põem em maravilhosa luz a profetizada glória de
Jesus Cristo e o seu sumo e eterno poder, a sua vinda e o seu
aniquilamento neste exílio terreno, a sua dignidade real e o seu poder
sacerdotal, as suas benéficas fadigas e o seu sangue derramado pela
nossa redenção. Exprimem igualmente a alegria das nossas almas, a
tristeza, a esperança, o temor, a correspondência do amor e o
abandono a Deus qual mística ascensão para os divinos tabernáculos.
135. "O salmo... é a bênção do povo, o louvor de Deus, o
elogio do povo, o aplauso de todos, a linguagem geral, a voz da
Igreja, a harmoniosa confissão de fé, o pleno devotamento à
autoridade, a alegria da liberdade, o grito de entusiasmo, o eco da
alegria."[143]
136. Na antiguidade, a assistência dos fiéis a essas orações
do Ofício era maior; mas gradativamente diminuiu como dissemos; e
como acabamos de dizer, a sua recitação atualmente é reservada ao
clero e aos religiosos. Em rigor de lei, nada é prescrito aos leigos
nesta matéria, mas é muito de desejar que eles tomem parte ativa no
canto ou na recitação do Oficio de Vésperas nos dias festivos, na
própria paróquia. Recomendamos vivamente, veneráveis irmãos, a
vós e aos vossos féis que não cesse este piedoso hábito e que, se
possível, se ponha em vigor onde tiver desaparecido. Isso
acontecerá certamente com frutos salutares se as Vésperas forem
cantadas não só digna e decorosamente mas de maneira que nutra
suavemente de vários modos a piedade dos fiéis. Seja sagrada a
observância dos dias festivos que devem ser dedicados e consagrados a
Deus de modo particular; e; sobretudo, do domingo, que os
apóstolos, instruídos pelo Espírito Santo, substituíram ao
sábado. Se foi ordenado aos judeus: "Trabalhareis durante seis
dias; no sétimo dia que é sábado, repouso santo do Senhor, quem
trabalhar neste dia será condenado à morte";[144] como não
terão a morte espiritual aqueles cristãos que fazem obra servil nos
dias festivos e durante o repouso festivo não se dedicam à piedade nem
à religião, mas se abandonam demasiadamente aos atrativos deste
século? O domingo e os dias festivos devem ser consagrados ao culto
divino com o qual se adora a Deus e a alma se nutre do alimento
celeste; e se bem que a Igreja prescreva somente que os fiéis devam
abster-se do trabalho servil e devam assistir ao sacrifício
eucarístico, e não dê nenhum preceito para o culto vespertino,
note-se que, além dos preceitos existem também suas insistentes
recomendações e desejos, o que ainda mais é exigido pela necessidade
que todos têm de tornar propício o Senhor para impetrar benefícios.
Contrista-se profundamente nossa alma ao ver como em nossos tempos o
povo cristão passa a tarde do dia festivo: enchem-se os lugares de
espetáculos públicos e de jogos, enquanto as igrejas são menos
freqüentadas do que conviria. Mas é necessário, sem dúvida, que
todos vão aos nossos templos para ser instruídos na verdade da fé
"católica, para cantar os louvores de Deus, para serem enriquecidos
pelo sacerdote com a bênção eucarística e munidos do auxílio
celeste contra a adversidade da vida presente. Procurem todos aprender
as fórmulas que se cantam nas Vésperas e penetrar-lhes o íntimo
sentido; sob o influxo dessas orações experimentarão aquilo que
santo Agostinho afirmava de si mesmo: "Quanto chorei entre hinos e
cânticos, vivamente comovido pelo canto suave da tua Igreja!
Aquelas vozes ressoavam nos meus ouvidos, instilavam a verdade no meu
coração, em mim ardiam sentimentos de devoção, e as lágrimas
corriam, fazendo-me bem".[145]
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