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151. No decurso do ano litúrgico relembram-se não só os
mistérios de Jesus Cristo, mas ainda as festas dos santos, nas
quais, se bem que se trate de uma ordem inferior e subordinada, a
Igreja tem sempre a preocupação de propôr aos fiéis exemplos de
santidade que os levem a adornar-se das mesmas virtudes do Divino
Redentor. [153] . É necessário, com efeito, que imitemos as
virtudes dos santos, nas quais brilha, de modo vário, a própria
virtude de Cristo, porque dele foram imitadores, visto que, em
alguns fulgiu o zelo do apostolado; em outros se demonstrou a fortaleza
dos nossos heróis até a efusão do sangue; em outros brilhou a
constante vigilância na espera do Redentor; em outros resplandeceu o
candor virginal da alma e a modesta doçura da humildade cristã; em
todos arde uma fervidíssima caridade para com Deus e para com o
próximo. A liturgia põe diante de nossos olhos todos esses belos
ornamentos de santidade, para que salutarmente os olhemos e para que
"nós que gozamos dos seus méritos sejamos inflamados pelos seus
exemplos". [154] É necessário, pois, conservar "a inocência
na simplicidade", a concórdia na caridade, a modéstia na
humildade, a diligência no governo, a atenção em ajudar o que
sofre, a misericórdia em cuidar dos pobres, a constância em defender
a verdade, a justiça na severidade da disciplina, para que não falte
em nós nenhuma de todas as virtudes que nos foram propostas para
exemplo. Essas são as pegadas que os santos, na sua volta à pátria
nos deixaram, para, palmilhando os seus caminhos, podermos segui-los
na bem-aventurança... [155] E para salutarmente impressionar
também os nossos sentidos, quer a Igreja que em nossos templos
estejam expostas as imagens dos santos, sempre, porém, com o mesmo
fim, isto é, que "imitemos as virtudes daqueles cujas imagens
veneramos".[156]
153. Mas há ainda outro motivo no culto do povo cristão aos
santos: o de implorar a sua ajuda, e o de "ser amparados pelo
patrocínio daqueles em cujo louvor nos deleitamos". [157] Disso
facilmente se deduz o porquê das numerosas fórmulas de oração que a
Igreja nas propõe para invocar a proteção dos santos.
154. Entre os santos há um culto proeminente a Maria virgem Mãe
de Deus. A sua vida, pela missão comada por Deus, está
estreitamente inserida nos mistérios de Jesus Cristo e ninguém,
certamente, mais do que ela, seguiu tão de perto e com maior
eficácia, as pegadas do Verbo encarnado, ninguém goza de maior
graça e poder junto do coração sacratíssimo do Filho de Deus e,
através do Filho, junto do Pai celeste ela é mais santa do que os
querubins e os serafins e, sem nenhuma comparação, mais gloriosa do
que todos os outros santos, porque é "cheia de graça", [158]
Mãe de Deus, e por nos haver dado, com o seu parto feliz, o
Redentor. A ela, que é "mãe de misericórdia, vida, doçura e
esperança nossa" recorramos todos nós "gemendo e chorando neste vale
de lágrimas".[159] À sua proteção, entreguemo-nos
confiantes, nós e todas as nossas coisas. Ela se tornou nossa mãe
quando o divino Redentor cumpria o sacrifício de si mesmo, e por
isso, ainda por esse título, somos seus filhos. Ela nos ensina
todas as virtudes, dá-nos seu Filho e, com ele, todos os auxílios
que nos são necessários, porque Deus "quis que tudo nos viesse por
meio de Maria".[160]
155. Por esse caminho litúrgico que nos é, cada ano, aberto de
novo, sob a ação santificadora da Igreja, confortados com os
auxílios e os exemplos dos santos, sobretudo da imaculada virgem
Maria, "aproximemo-nos com sincero coração, com plenitude de
fé, purificado o coração da consciência de culpa e lavado o corpo
com água pura", [161] do "grande Sacerdote",[162] para
viver e sentir com ele e penetrar por seu intermédio "até além do
véu" [163] e aí honrar o Pai celeste por toda a eternidade.
156. Tal é a essência e a razão de ser da sagrada liturgia.
Ela cuida do sacrifício, dos sacramentos e do louvor a Deus; da
união das nossas almas com Cristo e da santificação por meio do
divino Redentor, afim de ser honrado Cristo e, por ele e nele, a
Santíssima Trindade. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito
Santo.
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