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157. Para afastar da Igreja os erros e os exageros de que acima
falamos e para que possam os fiéis, guiados por mais seguras normas,
praticar o apostolado litúrgico com abundantes frutos, achamos
oportuno, veneráveis irmãos, acrescentar alguma coisa para a
prática da doutrina exposta.
158. Tratando da genuína piedade, afirmamos que entre a liturgia
e os outros atos de religião - desde que sejam retamente ordenados e
tendam ao justo fim - não pode haver verdadeiro contraste; há,
até, alguns exercícios de piedade que a Igreja recomenda grandemente
ao clero e aos religiosos.
159. Ora, desejamos que também o povo cristão não fique alheio
destes exercícios. Estes são - para falar apenas dos principais -
a meditação de assuntos espirituais, o exame de consciência, os
retiros espirituais, instituídos para a reflexão mais intensa das
verdades eternas, a visita ao santíssimo sacramento e as orações
particulares em honra da bem-aventurada virgem Maria, entre as quais
excele, como todos sabem, o rosário.[164]
160. A essas múltiplas formas de piedade não pode ser estranha a
inspiração e a ação do Espírito Santo; elas, com efeito - se
bem que de várias maneiras - visam todas a voltar e dirigir para Deus
as nossas almas, porque as purificam dos pecados, as dispõem à
conquista da virtude e as estimulam à verdadeira piedade,
habituando-as à meditação das verdades eternas, e tornando-as mais
capazes da contemplação dos mistérios da natureza humana e divina de
Cristo. Além disso, nutrindo intensamente nos fiéis a vida
espiritual, preparam-nos para participar das sagradas funções com
fruto maior, e evitam o perigo de se reduzirem as orações litúrgicas
a um ritualismo vão.
161. Não vos canseis, pois, veneráveis irmãos, no vosso zelo
pastoral, recomendando e encorajando esses exercícios de piedade, dos
quais brotam sem dúvida para o povo que vos foi confiado frutos
salutares. Sobretudo, não permitais - como alguns pretendem, ou
com a desculpa de renovação da liturgia, ou falando com leviandade de
uma eficácia e dignidade exclusivas dos ritos litúrgicos - que as
Igrejas sejam fechadas durante as horas não destinadas às funções
públicas, como já acontece em algumas regiões; que a adoração e a
visita ao santíssimo sacramento sejam menosprezadas; que se
desaconselhe a confissão dos pecados feita com o fim único de
devoção; que se desleixe, especialmente entre a juventude, o culto
da virgem Mãe de Deus, que, no dizer dos santos, é sinal de
predestinação. São esses frutos envenenados, sumamente nocivos à
piedade cristã, que repontam de ramos infectos de uma árvore sã; é
necessário, por isso, extirpá-los, para que a seiva da árvore
possa nutrir somente frutos agradáveis e ótimos.
162. Visto que as opiniões manifestadas por alguns a propósito da
confissão freqüente são de todo alheias ao Espírito de Cristo e de
sua esposa imaculada, e verdadeiramente funestas para a vida
espiritual, recordamos o que a propósito escrevemos, com pesar, na
encíclica "Mystici Corporis"; e insistimos de novo para que
proponhais à séria meditação e à docil atuação dos vossos
rebanhos e especialmente dos candidatos ao sacerdócio e do jovem
clero, quanto ali vos dissemos em graves palavras.
163. Zelai, pois, de modo particular, para que muitíssimos,
não só do clero mas ainda do laicato, e especialmente os pertencentes
aos sodalícios religiosos e às fileiras da Ação católica, tomem
parte nos retiros mensais e nos exercícios espirituais realizados em
determinados dias para incrementar a piedade. Como dissemos acima,
esses exercícios espirituais são utilíssimos e até necessários,
para instilar nas almas a genuína piedade, e para formá-las à
santidade, de modo que possam haurir da sagrada liturgia benefícios
mais eficazes e abundantes.
164. Quanto aos vários modos sob os quais se costuma praticar
esses exercícios, fique bem conhecido e claro a todos, que na Igreja
terrena, como na celeste, há "muitas moradas"; [165] e que a
ascética não pode ser monopólio de ninguém. Um é o Espírito, o
qual, porém, "sopra onde quer";[166] e com diversos dons e
por diversas vias dirige as almas por ele iluminadas à consecução da
santidade. A sua liberdade e a ação sobrenatural do Espírito
Santo nelas seja coisa sacrossanta, que a ninguém é lícito, a
nenhum título, perturbar e conculcar.
165. É sabido, entretanto, que os exercícios espirituais de
santo Inácio foram plenamente aprovados e insistentemente recomendados
pelos nossos predecessores por causa de sua admirável eficácia; e
nós, também, pela mesma razão, os aprovamos e recomendamos, como
presentemente com prazer o tornamos a fazer.
166. É absolutamente necessário, porém, que a inspiração a
seguir e praticar determinados exercícios de piedade, venha do Pai
das luzes, do qual provém todo bem, e todo dom perfeito;[167] e
disso será índice a eficácia com a qual servirão para que o culto
divino seja sempre mais amado e amplamente promovido, e os fiéis sejam
solicitados por um mais intenso desejo à participação dos sacramentos
e à devida honra e respeito de todas as coisas sagradas. Se eles, ao
contrário, se transformassem em obstáculo ou se revelassem em
contraste com os princípios e normas do culto divino, então sem
dúvida se deveria tê-los como não ordenados por pensamento reto,
nem guiados por zelo iluminado.
167. Além disso, há outros exercícios de piedade que, se bem
não pertençam a rigor e de direito à sagrada liturgia, se revestem
de particular dignidade e importância, de modo que são tidos por
insertos no quadro litúrgico, e gozam de repetidas aprovações e
louvores desta Sé Apostólica e dos bispos. Entre esses se devem
enumerar as orações que se costuma fazer durante o mês de maio em
honra da virgem Mãe de Deus, ou durante o mês de junho em honra do
sacratíssimo coração de Jesus, os tríduos e novenas, a "Via
sacra" e outros semelhantes.
168. Essas piedosas práticas, que exercitam o povo cristão a uma
assídua freqüência do sacramento da penitência e a uma devota
participação no sacrifício eucarístico e na mesa divina, como
também à meditação dos mistérios da nossa Redenção e à
imitação dos grandes exemplos dos santos, por isso mesmo contribuem
com fruto salutar para a nossa participação no culto litúrgico.
169. Por isso faria obra perniciosa e de todo errônea quem ousasse
temerariamente assumir a reforma desses exercícios de piedade, para
enquadrá-los apenas nos esquemas litúrgicos. É necessário,
todavia, que o espírito da sagrada liturgia e os seus preceitos
influam beneficamente neles, para evitar que aí se introduza algo de
inepto ou de indigno ao decoro da casa de Deus, ou seja em detrimento
das sagradas funções e contrário à sã piedade.
170. Cuidai, pois, veneráveis irmãos, para que essa pura e
genuína piedade prospere sob os vossos olhos, e floresça sempre
mais. Não vos canseis, sobretudo, de inculcar a cada um que a vida
cristã não consiste na multiplicidade e variedade das orações e dos
exercícios de piedade, mas acima de tudo em que eles contribuam
realmente para o progresso espiritual dos fiéis e ao incremento de toda
a Igreja, porquanto o Pai Eterno "nos elegeu nele (Cristo) antes
da fundação do mundo, para sermos santos e imaculados na sua
presença". [168] Devem, pois, tender todas as nossas
orações e todas as nossas práticas devotas a dirigir todos os nossos
recursos espirituais à realização desse supremo e nobilíssimo fim.
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