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171. Nós vos exortamos instantemente, veneráveis irmãos, a
que, desfeitos os erros e a falsidade, e proibido tudo o que está
fora da verdade e da ordem, promovais as iniciativas que dão ao povo
um mais profundo conhecimento da sagrada liturgia, de modo que ele
possa mais adequada e mais facilmente participar dos ritos divinos, com
disposição verdadeiramente cristã.
172. É necessário, antes de tudo, empenhar-vos por que todos
obedeçam com a devida reverência e fé aos decretos publicados pelo
concílio de Trento, pelos pontífices romanos, pela Congregação
dos ritos, e a todas as disposições dos livros litúrgicos naquilo
que respeita à ação externa do culto público.
173. Em todas as coisas da liturgia devem brilhar sobretudo estes
três ornamentos de que fala o nosso predecessor Pio X: a santidade,
que rejeita toda influência profana; a nobreza das imagens e das
formas, às quais serve toda arte genuína e superior; a
universalidade, enfim, a qual - conservando os legítimos usos e
costumes regionais - exprime a unidade católica da Igreja.[169]
174. Desejamos e recomendamos calorosamente, ainda uma vez, o
decoro dos sagrados edifícios e altares. Sinta-se cada um animado
pela palavra divina: "O zelo de tua casa me devora"[170] e se
empenhe segundo as suas forças para que tudo, quer nos sagrados
edifícios, quer nas vestes e nas alfaias litúrgicas, ainda que não
brilhe por excessiva riqueza e esplendor, seja, todavia, apropriado e
limpo, estando tudo consagrado à divina Majestade. Se já
reprovamos, acima, o modo não reto de proceder daqueles que, a
pretexto de restaurar o antigo, querem excluir dos templos as imagens
sagradas temos que é nossa obrigação repreender a piedade não bem
formada daqueles que, nas Igrejas e em seus próprios altares,
propõem à veneração, sem justo motivo, múltiplos simulacros e
efígies; daqueles que expõem relíquias não reconhecidas pela
legítima autoridade; daqueles, enfim, que insistem em coisas
particulares e de pouca importância, enquanto descuram as principais e
necessárias, e, assim, tornam ridícula a religião, e envilecem a
gravidade do culto.
175. Lembramos ainda o decreto "sobre novas formas de culto e de
devoção a não introduzir",[171] cuja religiosa observância
recomendamos à vossa vigilância.
176. Quanto à música, observem-se escrupulosamente as
determinadas e claras normas emanadas desta Sé Apostólica. O canto
gregoriano que a Igreja romana considera coisa sua, porque recebido da
antiga tradição e guardado no correr dos séculos sob a sua cuidadosa
tutela e que propõe aos fiéis como coisa também deles, prescrito
como é de modo absoluto em algumas partes da liturgia,[172] não
só acrescenta decoro e solenidade à celebração dos divinos
mistérios, antes contribui extremamente até para aumentar a fé e a
piedade dos assistentes. A esse propósito nossos predecessores de
imortal memória, Pio X e Pio XI, estabeleceram - e nós de bom
grado confirmamos com a nossa autoridade as disposições por eles dadas
- que nos seminários e nos Institutos religiosos seja cultivado com
estudo e diligência o canto gregoriano, e que, ao menos nas Igrejas
mais importantes, sejam restauradas as antigas "Scholae cantorum";
como já foi feito com feliz resultado em não poucos
lugares.[173]
177. Além disso, "para que os féis participem mais ativamente
do culto divino, seja restaurado o canto gregoriano até no uso popular
na parte que respeita ao povo. E urge verdadeiramente que os fiéis
assistam às sagradas cerimônias não como espectadores mudos e
estranhos, mas penetrados, intimamente, da beleza da liturgia...
que alternem, segundo as normas prescritas, sua voz com a voz do
sacerdote e dos cantores; se isso graças a Deus se verificar, então
não acontecerá mais que o povo responda apenas com um leve e submisso
murmúrio às orações comuns ditas em latim e em língua
vulgar".[174] A multidão que assiste atentamente ao sacrifício
do altar, no qual nosso Salvador, junto com os seus filhos remidos
pelo seu sangue, canta o epitalâmio da sua imensa caridade,
certamente não poderá calar, pois "cantar é proprio de quem
ama",[175] e como já dizia o provérbio antigo: "Quem canta
bem, reza duas vezes". Assim, a Igreja militante, clero e povo
juntos, une a sua voz aos cantos da Igreja triunfante e aos coros
angélicos, e todos juntos cantam um magnífico e eterno hino de louvor
à Santíssima Trindade, como está escrito: "Com os quais te
imploramos que sejam ouvidas ainda as nossas vozes".[176]
178. Não se pode, todavia, asseverar que a música e o canto
moderno devam ser de todo excluídos do culto católico. Aliás, se
nada têm de profano e de inconveniente à santidade do lugar e da
ação sagrada, nem derivam de uma procura vã de efeitos
extraordinários, certamente devemos abrir-lhes as portas de nossas
Igrejas, podendo ambos contribuir não pouco para o esplendor dos
ritos sagrados, para a elevação das mentes e, ao mesmo tempo, para
a verdadeira devoção.
179. Nós vos exortamos ainda, veneráveis irmãos, a que tomeis
cuidado em promover o canto religioso popular e a sua acurada execução
feita com a dignidade conveniente, podendo isso estimular e aumentar a
fé e a piedade das populações cristãs. Suba ao céu o canto
uníssono e possante de nosso povo como o fragor das ondas do
mar,[177] expressão canora e vibrante de um só coração e uma
só alma, (177) como convém a irmãos e filhos de um mesmo
Pai. O que dissemos da música, se aplica às outras
artes e especialmente à arquitetura, à escultura e à pintura. Não
se devem desprezar e repudiar genericamente e por preconceitos as formas
e imagens recentes, mais adaptadas aos novos materiais com os quais
são hoje confeccionados; mas, evitando com sábio equilíbrio o
excessivo realismo de uma parte e o exagerado simbolismo de outra, e
tendo em conta as exigências da comunidade cristã, mais do que o
juízo e o gosto pessoal dos artistas, é absolutamente necessário dar
livre campo também à arte moderna, se esta serve com a devida
reverência e a devida honra aos sagrados edifícios e ritos; de modo
que ela possa unir a sua voz ao admirável cântico de glória que os
gênios cantaram nos séculos passados a fé católica.
Não podemos deixar, porém, por dever de consciência, de deplorar
e reprovar aquelas imagens e formas por alguns recentemente
introduzidas, que parecem ser depravação e deformação da verdadeira
arte e que, muitas vezes, repugnam abertamente ao decoro, à
modéstia e à piedade cristã e ofendem, lamentavelmente, o genuíno
sentimento religioso; elas devem ser mantidas absolutamente afastadas e
postas fora das nossas igrejas como "em geral tudo que não está em
harmonia com a santidade do lugar".[178]
181. Fiéis às normas e decretos dos pontífices, cuidai
diligentemente, veneráveis irmãos, de iluminar e dirigir a mente e a
alma dos artistas, aos quais será confiado hoje o encargo de restaurar
e reconstruir tantas Igrejas destruídas ou arruinadas pela violência
da guerra; possam e queiram eles, inspirando-se na religião,
encontrar os motivos mais dignos e adaptados às exigências do culto;
assim, com efeito, felizmente acontecerá que as artes humanas, como
vindas do céu, brilhem com luz serena, promovam sumamente a humana
civilização e contribuam para a glória de Deus e a santificação
das almas, pois que as artes são, em verdade, como armas para a
religião, quando servem "como nobilíssimas servas do culto
divino".[179]
182. Mas há ainda uma coisa mais importante, veneráveis
irmãos, que recomendamos de modo especial à vossa solicitude e ao
vosso zelo apostólico. Tudo o que diz respeito ao culto religioso
externo tem sua importância, mas urge sobretudo que os cristãos vivam
a vida litúrgica e alimentem e fortaleçam seu espírito sobrenatural.
183. Providenciai, pois, alacremente, porque o jovem clero seja
formado na inteligência das cerimônias sagradas, na compreensão de
sua beleza e majestade, e aprenda diligentemente as rubricas, em
harmonia com a sua formação ascética, teológica, jurídica e
pastoral. E isso não somente por razões de cultura, não apenas
para que o seminarista possa um dia cumprir os ritos da religião com a
ordem, o decoro e a dignidade necessárias, mas sobretudo para que
seja educado em íntima união com Cristo sacerdote e se torne um santo
ministro de santidade.
184. Velai ainda de todo o modo para que, com os meios e
subsídios que a vossa prudência julgar mais aptos, sejam o clero e o
povo uma só mente e uma só alma; e, assim, o povo cristão
participe ativamente da liturgia que se tornará em verdade a ação
sagrada, pela qual o sacerdote que atende ao cuidado das almas em sua
paróquia, unido com a assembléia do povo, renda ao Senhor o culto
devido.
185. Para obter isso, será certamente útil que, piedosos
meninos, bem instruídos sejam escolhidos entre todas as classes de
fiéis, para que, com desinteresse e boa vontade, sirvam devota e
assiduamente ao altar - encargo que deveria ser tido em grande
consideração pelos pais, ainda que de alta condição social e
cultura. Se esses jovens forem instruídos com o necessário cuidado e
sob a vigilância de um sacerdote para que cumpram este seu ofício com
reverência e constância, e em horas determinadas, tornar-se-á
fácil o brotar entre eles de novas vocações sacerdotais; e não se
queixará o clero de não encontrar - como infelizmente acontece por
vezes até em regiões catolicíssimas - alguém que na celebração do
augusto sacrifício lhe responda e o sirva.
186. Procurai, sobretudo, obter, com o vosso diligentíssimo
zelo, que todos os fiéis assistam ao sacrifício eucarístico e dele
recebam os mais abundantes frutos de salvação; exortai-os portanto
assiduamente a dele participarem com devoção por todos aqueles modos
legítimos dos quais falamos acima. O augusto sacrifício do altar é
o ato fundamental do culto divino; é necessário, por isso, que ele
seja a fonte, o centro da piedade cristã. Considerai que não tereis
jamais suficientemente satisfeito ao vosso zelo apostólico senão
quando virdes os vossos filhos aproximarem-se em grande número do
celestial banquete que é "sacramento de piedade, sinal de unidade,
vínculo de caridade". [180]
187. Para que, pois, o povo cristão possa conseguir esses dons
sobrenaturais, sempre com maior abundância, instrui-o com zelo por
meio de pregações oportunas e, especialmente, com discursos e ciclos
de conferências, com semanas de estudo e com outras manifestações
semelhantes, a respeito dos tesouros de piedade contidos na sagrada
liturgia. Para esse fim estarão certamente à vossa disposição os
membros da Ação católica, sempre prontos a colaborar com a
hierarquia em promover o reino de Jesus Cristo.
188. É absolutamente necessário, porém, que em tudo isso
vigieis atentamente a fim de que, no campo do Senhor, não se
introduza o inimigo para semear a cizânia no meio do trigo,[181]
para que, em outras palavras, não se infiltrem no vosso rebanho os
perniciosos e sutis erros de um falso "misticismo" e de um nocivo
"quietismo" - erros por nós já condenados como sabeis[182] -
e para que as almas não sejam seduzidas por um perigoso "humanismo",
nem se introduza uma falsa doutrina que altera a própria noção da
fé, nem, enfim, um excessivo "arqueologismo" em matéria
litúrgica. Cuidai com igual diligência por que não se difundam as
falsas opiniões daqueles que erradamente crêem e ensinam que a
natureza humana de Cristo glorificada esteja realmente e com a sua
continua presença nos justificados, ou que uma graça única e
idêntica junte Cristo com os membros do seu Corpo.
189. Não vos deixeis desanimar pelas dificuldades que nascem;
jamais se desencoraje o vosso zelo pastoral. "Fazei soar a trombeta
em Sião, convocai a assembléia, reuni o povo, santificai a
Igreja, juntai os velhos, recolhei os meninos e os recém-nascidos"
[183] e fazei por todos os meios que se encham em todos os lugares
as Igrejas e os altares de cristãos, os quais, como membros vivos
unidos à sua Cabeça divina, sejam revigorados pelas graças dos
sacramentos, celebrem o augusto sacrifício com ele e por ele e dêem
ao Eterno Pai os louvores devidos.
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