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30. A esses aspectos que têm mais estreita ligação com a liturgia
da Igreja juntam-se, como dissemos, os cantos religiosos populares,
escritos as mais das vezes em língua vulgar, os quais se originam do
próprio canto litúrgico, mas, sendo mais adaptados à índole e aos
sentimentos de cada povo em particular, diferem não pouco entre si,
conforme o caráter dos povos e a índole particular das nações. A
fim de que semelhantes cânticos religiosos proporcionem fruto
espiritual e vantagem ao povo cristão, devem ser plenamente conformes
ao ensinamento da fé cristã, expô-la e explicá-la retamente,
usar linguagem fácil e melodia simples, fugir da profusão de palavras
empoladas e vazias, e, finalmente, mesmo sendo breves e fáceis, ter
uma certa dignidade e gravidade religiosa. Quando esses cânticos
sacros possuem tais dotes, brotando como que do mais profundo da alma
do povo, comovem fortemente os sentimentos e a alma, e excitam
piedosos afetos; quando se cantam como uma só voz nas funções
religiosas da multidão reunida, elevam com grande eficácia a alma dos
fiéis às coisas celestes. Por isso, embora, como dissemos, nas
missas cantadas solenes não possam eles ser usados sem especial
permissão da Santa Sé, todavia nas missas celebradas em forma
não-solene podem eles admiravelmente contribuir para que os fiéis
assistam ao santo sacrifício não tanto como espectadores mudos e quase
inertes, mas de forma que, acompanhando com a mente e com a voz a
ação sacra, unam a própria devoção às preces do sacerdote, e
isso desde que tais cantos sejam bem adaptados às várias partes do
sacrifício, como sabemos que já se faz em muitas partes do mundo
católico, com grande júbilo espiritual.
31. Quanto às cerimônias não estritamente litúrgicas, tais
cânticos religiosos, uma vez que correspondam às condições
supraditas, podem contribuir de modo notável para atrair salutarmente
o povo cristão, para amestrá-lo, para formá-lo numa sincera
piedade, e para enchê-lo de santo regozijo; e isso tanto nas
Igrejas como externamente, especialmente nas procissões e nas
peregrinações aos santuários, e do mesmo modo nos congressos
religiosos nacionais e internacionais. De modo especial serão eles
úteis quando se tratar de instruir na verdade católica os meninos e as
meninas, como também nas associações juvenis e nas reuniões dos
pios sodalícios, tal como muitas vezes o demonstra claramente a
experiência.
32. Por isso, não podemos deixar de exortar-vos vivamente,
veneráveis irmãos, a vos dignardes, com todo cuidado e por todos os
meios, de favorecer e promover nas vossas dioceses esse canto popular
religioso. Não vos faltarão homens experientes para recolher e
reunir juntos esses cânticos onde não se haja feito, a fim de que por
todos os fiéis possam eles ser mais facilmente aprendidos, cantados
com desembaraço e bem gravados na memória. Aqueles a quem está
confiada a formação religiosa dos meninos e das meninas não deixem de
valer-se, pelo modo devido, desses eficazes auxílios, e os
assistentes da juventude católica usem deles retamente na grave tarefa
que lhes foi confiada. Desse modo pode-se esperar obter mais outra
vantagem, que está no desejo de todos, a saber: a de que sejam
eliminadas essas canções profanas que, ou pela moleza do ritmo, ou
pelas palavras não raro voluptuosas e lascivas que o acompanham,
costumam ser perigosas para os cristãos, especialmente para os
jovens, e sejam substituídas por essas outras que proporcionam um
prazer casto e puro, e que, ao mesmo tempo, alimentam a fé e a
piedade; de modo que já aqui na terra o povo cristão comece a cantar
aquele cântico de louvor que cantará eternamente no céu: "Aquele
que se senta no trono e ao Cordeiro seja bênção, honra, glória e
poder pelos séculos dos séculos" (Ap 5,13).
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