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9. Nisto a música sacra não obedece a leis e normas diversas das
que regulam todas as formas de arte religiosa, antes à própria arte
em geral. Na verdade, não ignoramos que nestes últimos anos alguns
artistas, com grave ofensa da piedade cristã, ousaram introduzir nas
Igrejas obras destituídas de qualquer inspiração religiosa, e em
pleno contraste até mesmo com as justas regras da arte. Procuram eles
justificar esse deplorável modo de agir com argumentos especiosos, que
eles pretendem fazer derivar da natureza e da própria índole da arte.
Afinal, dizem eles que a inspiração artística é livre, que não
é lícito subordiná-la a leis e normas estranhas à arte, sejam elas
morais ou religiosas, porque desse modo se viria a lesar gravemente a
dignidade da arte e a criar, com vínculos e ligames, óbices ao livre
curso da ação do artista sob a sagrada influência do estro.
10. Com argumentos tais é suscitada uma questão sem dúvida grave
e difícil, atinente a qualquer manifestação de arte e a qualquer
artista; questão que não pode ser resolvida com argumentos tirados da
arte e da estética, mas que, em vez disso, deve ser examinada à luz
do supremo postulado do fim último, regra sagrada e inviolável de
todo homem e de toda ação humana. De fato, o homem diz ordem ao seu
fim último - que é Deus - por força de uma lei absoluta e
necessária, fundada na infinita perfeição da natureza divina, de
maneira tão plena e perfeita, que nem mesmo Deus poderia eximir
alguém de observá-la. Com essa lei eterna e imutável fica
estabelecido que o homem e todas as suas ações devem manifestar, em
louvor e glória do Criador, a infinita perfeição de Deus, e
imitá-la tanto quanto possível. Por isso o homem, destinado por
sua natureza a alcançar esse fim supremo, deve, no seu agir,
conformar-se ao divino arquétipo, e nessa direção orientar todas as
faculdades da alma e do corpo, ordenando-as retamente entre si, e
devidamente domando-as para alcançar o do fim. Portanto, também a
arte e as obras artísticas devem ser julgadas com base na sua
conformidade, com o fim último do homem; e, por certo, deve a arte
contar-se entre as mais nobres manifestações do engenho humano,
porque atinente ao modo de exprimir por obras humanas a infinita beleza
de Deus, de que é ela o revérbero. Razão pela qual, a conhecida
expressão "a arte pela arte" - com a qual, posto de parte aquele
fim que é ingênito em toda criatura, erroneamente se afirma que a
arte não tem outras leis senão aquelas que promanam da sua natureza,
- essa expressão ou não tem valor algum, ou importa grave ofensa ao
próprio Deus, Criador e fim último. Depois, a liberdade do
artista - liberdade que não é um instinto, cego para a ação,
regulado somente pelo arbítrio ou por certa sede de novidade -, pelo
fato de estar sujeita à lei divina em nada é coarctada ou sufocada,
mas, antes, enobrecida e aperfeiçoada.
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