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1. A doutrina do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja
(cf. Cl 1,24), recebida dos lábios do próprio Redentor e que
põe na devida luz o grande e nunca assaz celebrado benefício da nossa
íntima união com tão excelsa Cabeça, é de sua natureza tão
grandiosa e sublime que convida à contemplação todos aqueles a quem
move o Espírito de Deus; e, iluminando as suas inteligências,
incita-os eficazmente a obras salutares, consentâneas com a mesma
doutrina. Por isso resolvemos entreter-nos convosco sobre tão
relevante assunto, expondo e explicando principalmente a parte relativa
à Igreja militante. Move-nos a fazê-lo não só a excepcional
importância da doutrina, mas também as circunstâncias atuais da
humanidade.
Propomo-nos, pois, falar das riquezas entesouradas no seio da
Igreja que Cristo adquiriu com seu sangue (At 20, 28) e cujos
membros se gloriam de uma Cabeça coroada de espinhos. Isto mesmo já
é prova evidente de que a verdadeira glória e grandeza não nascem
senãu da dor; por isso nós quando compartilhamos dos sofrimentos de
Cristo, devemos alegrar-nos, para que também na renovação da sua
glória jubilemos e exultemos (cf. 1Pd 4,13).
3, E para começar, note-se que assim como o Redentor do gênero
humano foi perseguido, caluniado, atormentado por aqueles mesmos que
vinha salvar, assim a sociedade por ele fundada também neste ponto se
parece com o divino Fundador. Com efeito, ainda que não neguemos,
antes gostosamente e bendizendo a Deus confessemos, que também nestes
tempos tão agitados há muitos que, embora separados do redil de
Cristo, olham para a Igreja como para o único porto de salvação,
contudo não ignoramos que a Igreja de Deus não só é soberbamente
desprezada e perseguida por aqueles que, menoscabada a luz da sabedoria
cristã, voltam miseramente às doutrinas, usos e costumes do antigo
paganismo, mas freqüentemente é desconhecida, descurada, aborrecida
por muitos cristãos, que se deixam seduzir pelas aparências, falsas
doutrinas, ou arrastar pelos atrativos e corrupção do mundo. É por
isso que Nós, veneráveis irmãos, obedecendo à voz da nossa
própria consciência, vamos expor à vista de todos e celebrar a
beleza, louvores e glória da santa madre Igreja, a quem depois de
Deus tudo devemos.
4. Confiamos que estes nossos pensamentos e exortações, em
conseqüência das atuais circunstâncias, produzirão os mais copiosos
frutos nos fiéis; porquanto sabemos que os infinitos trabalhos e
sofrimentos desta nossa tempestuosa idade que tão terrivelmente
torturam gente sem número, se forem recebidos serena e resignadamente
da mão de Deus, converterão como que naturalmente os corações dos
bens caducos da terra aos bens celestes e eternos, e despertarão neles
uma sede misteriosa das coisas espirituais e um desejo ardente que, sob
o impulso do Espírito Santo, os mova e quase force a procurar com
mais diligência o reino de Deus. O homem, quanto mais se desprende
das vaidades do mundo e do amor desordenado dos bens presentes, tanto
mais se dispõe para perceber a luz dos mistérios celestes. Ora,
talvez nunca a vaidade e inanidade das coisas da terra se manifestou
mais eloqüentemente que hoje, quando desabam reinos e nações,
quando os abismos dos vastos oceanos engolem imensas riquezas e tesouros
de toda a espécie, quando cidades e vilas e férteis campos se cobrem
de imensas ruínas e se mancham de sangue fraterno.
5. Confiamos ainda que o que vamos expor sobre o Corpo Místico de
Cristo não será desagradável nem inútil aos que vivem fora do seio
da Igreja católica. E isto, não só porque a sua benevolência
para com a Igreja parece aumentar de dia para dia, senão também
porque vendo eles atualmente como as nações se erguem contra as
nações e os reinos contra os reinos, e crescem indefinidamente as
discórdias, os antagonismos e as sementeiras do ódio, se volverem os
olhos para a Igreja, se contemplarem a sua unidade de origem divina,
por virtude da qual os homens de todas as nacionalidades se unem a
Cristo com vínculos fraternos, então sem dúvida ver-se-ão
forçados a admirar uma tal sociedade de amor e sentir-seão atraídos
com o auxílio da graça a participar da mesma unidade e caridade.
6. Há ainda uma razão especial e suavíssima pela qual nos ocorreu
ao espírito e grandemente nos deleita esta doutrina. Durante o
passado ano, XXV do nosso episcopado, pudemos com grandíssima
consolação contemplar um espetáculo que luminosa e expressivamente
fez resplandecer a imagem do corpo místico de Cristo em todas as cinco
partes do mundo. Nesse sentido, apesar dessa interminável guerra de
extermínio ter destruído miseramente a fraterna comunidade dos povos,
por toda parte, onde temos filhos em Cristo, todos com uma só
vontade e amor - refletindo em si as preocupações e ansiedades de
todos -, elevavam o pensamento e o coração para o Pai comum, que
governa em tempos tão adversos a nau da Igreja católica. Esse
espetáculo não só demonstra a admirável unidade da família
cristã, mas atesta também que assim como nós com amor paterno
abraçamos os povos de todas as nações, assim também os católicos
de todo o mundo, embora pertencentes a povos que se guerreiam
mutuamente, olham para o vigário de Cristo como para o pai
amantíssimo de todos que, mantendo perfeito equilíbrio entre ambas as
partes contendentes e guiando-se por perfeita retidão de juízo,
superior a todas as tempestades das perturbações humanas, recomenda e
defende com todas as forças a verdade, a justiça, a caridade.
7. Também não foi menor a nossa consolação ao sabermos a boa
vontade com que espontaneamente fora oferecida e reunida uma quantia
para levantar na Cidade eterna um templo em honra do nosso predecessor
e santo do nosso nome, Eugênio I. Ora como esse templo, levantado
por desejo e com o óbolo dos fiéis, conservará perene a memória
deste faustíssimo acontecimento, assim desejamos dar um atestado da
nossa gratidão nesta encíclica onde precisamente se trata das pedras
vivas que, colocadas sobre a pedra angular que é Cristo, formam o
templo santo, muito mais sublime que qualquer templo material, isto
é, a morada de Deus no Espírito (Cf. Ef 2,21-22;1Pd
2,5).
8. Mas a causa principal que nos leva a tratar agora assaz
difusamente desta excelsa doutrina é a nossa solicitude pastoral. É
verdade que muito se tem escrito sobre este argumento; nem ignoramos
que hoje não poucos se dão com grande empenho a estes estudos, com os
quais também se deleita e nutre a piedade cristã. Este movimento
parece dever-se ao renovado estudo da sagrada liturgia, a maior
freqüência da mesa eucarística, e finalmente ao culto mais
intensificado do sacratíssimo Coração de Jesus de que hoje gozamos
por vê-lo mais difundido; tudo isso moveu muitos a uma mais profunda
contemplação das imperscrutáveis riquezas de Cristo que se conservam
na Igreja. Acrescem ainda os documentos sobre a Ação católica
publicados nestes últimos tempos; os quais tornaram mais estreitos os
vínculos dos fiéis entre si e com a hierarquia eclesiástica,
particularmente com o romano pontífice, e contribuíram sem dúvida
grandemente para pôr na devida luz esta doutrina. Todavia se isso que
acabamos de dizer é muito consolador, temos de confessar que não só
autores separados da verdadeira Igreja espalham graves erros nesta
matéria, mas que também entre os fiéis vão serpejando opiniões ou
inexatas ou de todo falsas, que podem desviar os espíritos da reta
senda da verdade.
9. De fato, enquanto por um lado perdura o falso racionalismo que
tem por absurdo tudo o que transcende e supera a capacidade da razão
humana, e com ele outro erro parecido, o naturalismo vulgar que não
vê nem quer reconhecer na Igreja de Cristo senão uma sociedade
puramente jurídica; por outro lado grassa por aí um falso misticismo
que perverte as Sagradas Escrituras, pretendendo remover os limites
intangíveis entre as criaturas e o Criador.
10. Ora esses erros entre si opostos fazem que alguns, cheios de
infundado temor, considerem esta sublime doutrina como perigosa e fujam
dela como do fruto do paraíso, belo e proibido. Não; os mistérios
revelados por Deus não podem ser prejudiciais ao homem, nem devem
permanecer infrutíferos como tesouro enterrado no campo; senão que
nos foram dados por Deus, para proveito espiritual dos que piamente os
contemplam. Pois como ensina o Concílio Vaticano "a razão
iluminada pela fé, quando indaga com diligência, piedade e
sobriedade, alcança sempre por graça de Deus alguma inteligência,
sempre frutuosíssima, dos mistérios, quer pela analogia com os
conhecimentos naturais, quer pela relação que os mistérios têm
entre si e com o último fim do homem"; embora, como adverte o mesmo
sagrado concílio, "nunca ela chegue a compreender os mistérios como
as verdades que constituem o seu próprio objeto".[1]
11. Portanto, tendo nós maduramente ponderado tudo isso diante de
Deus, para que a incomparável formosura da Igreja resplandeça com
nova glória, para que mais esplendidamente se manifeste a excelsa e
sobrenatural nobreza dos fiéis que no corpo de Cristo se unem à sua
cabeça: enfim para fechar de uma vez a porta a muitos erros que pode
haver nesta matéria, julgamos nosso dever pastoral expor a todo o povo
cristão nesta encíclica a doutrina do corpo místico de Jesus Cristo
e da união dos fiéis com o divino Redentor no mesmo Corpo, e
juntamente deduzir desta suavíssima doutrina alguns ensinamentos, com
os quais o maior conhecimento do mistério produza frutos cada vez mais
abundantes de perfeição e santidade.
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