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12. Ao meditar este ponto da doutrina católica ocorrem-nos logo
aquelas palavras do Apóstolo: "Onde o pecado avultou, superabundou
a graça" (Rm 5, 20). Sabemos que Deus constituiu o primeiro
progenitor do gênero humano em tão excelsa condição, que com a vida
terrena transmitiria aos seus descendentes a vida sobrenatural da graça
celeste. Mas depois da triste queda de Adão toda a humana linhagem,
infeccionada pela mancha original, perdeu o consórcio da natureza
divina (cf. 2Pd 1, 4) e todos ficamos sendo filhos de ira (Ef
2,3). Deus, porém, na sua infinita misericórdia "amou tanto
ao mundo que lhe deu seu Filho unigênito" (Jo 3,16); e o
Verbo do Eterno Pai, com a mesma divina caridade, revestiu a
natureza humana da descendência de Adão, mas inocente e imaculada,
para que do novo e celeste Adão dimanasse a graça do Espírito
Santo a todos os filhos do primeiro pai; e estes que pelo primeiro
pecado tinham sido privados da filiação adotiva de Deus, pelo Verbo
encarnado, feitos irmãos segundo a carne do Filho unigênito de
Deus, recebessem o poder de virem a ser filhos de Deus (cf. Jo
1,12). E assim Jesus crucificado não só reparou a justiça do
Eterno Pai ofendida, senão que nos mereceu a nós, seus
consangüíneos, inefável abundância de graças. Essas graças
podia ele distribuí-las diretamente por si mesmo a todo o gênero
humano. Quis, porém, comunicá-las por meio da Igreja visível,
formada por homens, afim de que por meio dela todos fossem, em certo
modo, seus colaboradores na distribuição dos divinos frutos da
Redenção. E assim como o Verbo de Deus, para remir os homens com
suas dores e tormentos, quis servir-se da nossa natureza, assim, de
modo semelhante, no decurso dos séculos se serve da Igreja para
continuar perenemente a obra começada. [2]
13. Ora, para definir e descrever esta verdadeira Igreja de
Cristo - que é a santa, católica, apostólica Igreja romana
[3] - nada há mais nobre, nem mais excelente, nem mais divino do
que o conceito expresso na denominação "corpo místico de Jesus
Cristo"; conceito que imediatamente resulta de quanto nas Sagradas
Escrituras e dos santos Padres freqüentemente se ensina.
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