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58. Passamos já, veneráveis irmãos, a expor as razões com que
desejamos mostrar que o corpo de Cristo, que é a Igreja, se deve
denominar místico. Essa denominação, usada já por vários
escritores antigos, comprovam-na não poucos documentos pontifícios.
E há muitas razões para se dever adotar: pois que por ela o corpo
social da Igreja, cuja cabeça e supremo regedor é Cristo, pode
distinguir-se do seu corpo físico, nascido da Virgem Maria e que
agora está sentado à destra do Pai ou oculto sob os véus
eucarísticos; pode também distinguir-se, e isto é importante por
causa dos erros atuais, de qualquer corpo natural, quer físico, quer
moral.
59. De fato, enquanto no corpo natural o princípio de unidade
junta de tal maneira as partes que cada uma fica sem própria
subsistência, ao contrário no corpo místico a força de mútua
coesão, por mais íntima que seja, une os membros de modo que
conservam perfeita e própria personalidade. Além disso, se
considerarmos a relação entre o todo e os diversos membros em todo e
qualquer corpo físico dotado de vida, os membros particulares
destinam-se, em última análise, unicamente ao bem de todo o
composto, ao passo que toda a sociedade de homens, considerado o fim
último da sua unidade, é finalmente ordenada ao proveito de todos e
cada um dos membros, como pessoas que são. Portanto, para voltarmos
ao nosso ponto, como o Filho do Eterno Pai desceu do céu por amor
da nossa eterna salvação, assim fundou o corpo da Igreja e o
enriqueceu do seu divino Espírito para procurar e conseguir a
bem-aventurança das almas imortais, conforme aquela sentença do
Apóstolo; "Todas as coisas são vossas; vós, porém, sois de
Cristo; e Cristo de Deus" (l Cor 3,23);[36] A Igreja
como é ordenada ao bem dos fiéis, assim é destinada a glória de
Deus e à daquele que ele mandou, Jesus Cristo.
60. Se compararmos o corpo místico com o moral, veremos que a
diferença não é leve, mas importantíssima e gravíssima. No corpo
moral não há outro princípio de unidade senão o fim comum e a comum
cooperação sob a autoridade social para o mesmo fim; ao passo que no
corpo místico de que falamos, a essa tendência comum do mesmo fim
junta-se outro princípio interno, realmente existente e ativo, tanto
de todo o composto, como em cada uma das partes, e tão excelente,
que supera imensamente todos os vínculos de unidade que unem o corpo,
quer físico, quer moral. Esse princípio é, como acima dissemos,
de ordem não natural mas sobrenatural, antes em si mesmo absolutamente
infinito e incriado: o Espírito divino, que, como diz o
Angélico, "sendo um só e o mesmo enche e une toda a
Igreja".[37]
61. Por conseguinte esse termo bem entendido lembra-nos que a
Igreja, sociedade perfeita no seu gênero, não consta só de
elementos sociais e jurídicos. Ela é muito mais excelente que
quaisquer outras sociedades humanas [38] às quais excede quanto a
graça supera a natureza, quanto as coisas imortais se avantajam as
mortais e caducas.[39] As Comunidades humanas, sobretudo a
Sociedade civil, não são para desprezar, nem para ser tidas em
pouca conta; mas a Igreja não está toda em realidades desta ordem,
como o homem todo não é só corpo mortal.[40] É verdade que os
elementos jurídicos, em que a Igreja se estriba e de que se compõe,
nascem da divina constituição que Cristo lhe deu, e servem para
conseguir o fim sobrenatural; contudo o que eleva a sociedade cristã a
um grau absolutamente superior a toda a ordem natural, é o Espírito
do Redentor, que, como fonte de todas as graças, dons e carismas,
enche perpétua e intimamente a Igreja e nela opera. O organismo do
nosso corpo é por certo obra-prima do Criador, mas fica imensamente
aquém da excelsa dignidade da alma; assim a constituição social da
república cristã, embora apregoe a sabedoria do seu divino
Arquiteto, é, contudo, de ordem muitíssimo inferior, quando se
compara aos dons espirituais de que se adorna e vive, e à fonte divina
donde eles dimanam.
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