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62. De quanto até aqui expusemos, veneráveis irmãos, é
evidente que estão em grave erro os que arbitrariamente ungem uma
Igreja como que escondida e invisível; e não menos aqueles que a
consideram como simples instituição humana com determinadas leis e
ritos externos, mas sem comunicação de vida sobrenatural. [41]
Ao contrário, assim como Cristo, cabeça e exemplar da Igreja,
"não é todo se nele se considera só a natureza humana visível...
ou só a natureza divina invisível... mas é um de ambas e em ambas
as naturezas...: assim o seu corpo místico";[42] pois que o
Verbo de Deus assumiu a natureza humana passível, para que, uma vez
fundada e consagrada com seu sangue a sociedade visível, "o homem
fosse reconduzido pelo governo visível às realidades
invisíveis".[43]
63. Por isso lamentamos também e reprovamos o erro funesto dos que
sonham uma Igreja ideal, uma sociedade formada e alimentada pela
caridade, à qual, com certo desprezo, opõem outra que chamam
jurídica. Enganam-se grandemente os que introduzem tal distinção;
pois que vêem que o divino Redentor pela mesma razão por que ordenou
que a sociedade humana por ele fundada fosse perfeita no seu gênero e
dotada de todos os elementos jurídicos e sociais, a saber, para
perdurar na terra a obra salutífera da Redenção, [44] por essa
mesma razão e para conseguir o mesmo fim quis que fosse enriquecida de
dons e graças celestes pelo Espírito Paráclito. O Eterno Pai
quis que ela fosse "o reino do seu Filho muito amado" (Cl
1,13); mas realmente um reino em que todos os fiéis prestassem
homenagem plena de entendimento e de vontade, [45] e com humildade
e obediência se conformassem àquele que por nós "se fez obediente
até à morte" (Fl 2,8). Portanto nenhuma oposição ou
contradição pode haver entre a missão invisível do Espírito Santo
e o múnus jurídico dos pastores e doutores recebido de Cristo; pois
que as duas coisas, como em nós o corpo e a alma, mutuamente se
completam e aperfeiçoam e provêm igualmente do único Salvador
nosso, que não só disse ao emitir o sopro divino: "Recebei o
Espírito Santo" (Jo 20, 22), mas em voz alta e clara
acrescentou: "Como o Pai me enviou a mim, assim eu vos envio a
vós" (Jo 20, 21), e também: "Quem vos ouve a mim ouve"
(Lc 10,16).
64. E se às vezes na Igreja se vê algo em que se manifesta a
fraqueza humana, isso não deve atribuir-se a sua constituição
jurídica, mas àquela lamentável inclinação do homem para o mal,
que seu divino Fundador às vezes permite até nos membros mais altos
do seu corpo místico para provar a virtude das ovelhas e dos pastores e
para que em todos cresçam os méritos da fé cristã. Cristo, como
acima dissemos, não quis excluir da sua Igreja os pecadores;
portanto se alguns de seus membros estão espiritualmente enfermos,
não é isso razão para diminuirmos nosso amor para com ela, mas antes
para aumentarmos a nossa compaixão para com os seus membros.
65. Sem mancha alguma, brilha a santa madre Igreja nos sacramentos
com que gera e sustenta os filhos; na fé que sempre conservou e
conserva incontaminada; nas leis santíssimas que a todos impõe, nos
conselhos evangélicos que dá; nos dons e graças celestes, pelos
quais com inexaurível fecundidade [46] produz legiões de
mártires, virgens e confessores. Nem é sua culpa se alguns de seus
membros sofrem de chagas ou doenças; por eles ora a Deus todos os
dias: "Perdoai-nos as nossas dívidas" e incessantemente com
fortaleza e ternura materna trabalha pela sua cura espiritual.
66. Quando, por conseguinte, denominamos "místico" o corpo de
Jesus Cristo, a força mesmo do termo é para nós uma grave
lição; a lição que ressoa nestas palavras de são Leão:
"Reconhece, ó cristão, a tua dignidade; e feito consorte da
natureza divina, vê que não recaias por um comportamento indigno na
tua antiga baixeza. Lembrate de que cabeça e de que corpo és
membro".[47]
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