|
20. E a esse propósito deve notar-se que assim como Deus no
princípio do mundo dotou o homem de um riquíssimo organismo com que
pudesse sujeitar as outras criaturas e multiplicar-se e encher a
terra, assim ao princípio da era cristã proveu a Igreja dos recursos
necessários para vencer perigos quase inumeráveis e povoar não só
toda a terra, mas também o reino dos céus.
21. Como membros da Igreja contam-se realmente só aqueles que
receberam o lavacro da regeneração e professam a verdadeira fé, nem
se separaram voluntariamente do organismo do corpo, ou não foram dele
cortados pela legítima autoridade em razão de culpas gravíssimas.
"Todos nós, diz o Apóstolo, fomos batizados num só Espírito
para formar um só Corpo, judeus ou gentios, escravos ou livres"
(lCor 12,13). Portanto como na verdadeira sociedade dos fiéis
há um só corpo, um só Espírito, um só Senhor, um só batismo,
assim não pode haver senão uma só fé (cf. Ef 4,5), e por
isso quem se recusa a ouvir a Igreja, manda o Senhor que seja tido
por gentio e publicano (cf. Mt 18,17). Por conseguinte os que
estão entre si divididos por motivos de fé ou pelo governo, não
podem viver neste corpo único nem do seu único Espírito divino.
22. Não se deve, porém, julgar que já durante o tempo da
peregrinação terrestre, o corpo da Igreja, por isso que leva o nome
de Cristo, consta só de membros com perfeita saúde, ou só dos que
de fato são por Deus predestinados à sempiterna felicidade. Por sua
infinita misericórdia o Salvador não recusa lugar no seu corpo
místico àqueles a quem o não recusou outrora no banquete (Mt
9,11; Mc 2,16; Lc 15,2). Nem todos os pecados,
embora graves, são de sua natureza tais que separem o homem do corpo
da Igreja como fazem os cismas, a heresia e a apostasia. Nem perdem
de todo a vida sobrenatural os que pelo pecado perderam a caridade e a
graça santificante e por isso se tornaram incapazes de mérito
sobrenatural, mas conservam a fé e a esperança cristã, e alumiados
pela luz celeste, são divinamente estimulados com íntimas
inspirações e moções do Espírito Santo ao temor salutar, à
oração e ao arrependimento das suas culpas.
23. Tenha-se, pois, sumo horror ao pecado que mancha os membros
místicos do Redentor; mas o pobre pecador que não se tornou por sua
contumácia indigno da comunhão dos fiéis, seja acolhido com maior
amor, vendo-se nele com caridade operosa um membro enfermo de Jesus
Cristo: Pois que é muito melhor, como nota o bispo de Hipona,
"curá-los no corpo da Igreja, do que amputá-los como membros
incuráveis".[5] "Enquanto o membro está ainda unido ao corpo
não há por que desesperar da sua saúde; uma vez amputado, nem se
pode curar, nem se pode sarar".[6]
|
|