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25. Devendo expor brevemente o modo como Cristo fundou o seu corpo
social, acode-nos antes de mais nada esta sentença de nosso
predecessor de feliz memória Leão XIII: "A Igreja, que já
concebida, nascera do lado do segundo Adão, adormecido na cruz,
manifestou-se pela primeira vez à luz do mundo de modo insigne no
celebérrimo dia de Pentecostes".[7] De fato o divino Redentor
começou a fábrica do templo místico da Igreja, quando na sua
pregação ensinou os seus mandamentos; concluiu-a quando,
glorificado, pendeu da Cruz; manifestou-a enfim e promulgou-a
quando mandou sobre os discípulos visivelmente o Espírito
paráclito.
26. Durante o seu ministério público escolhia os Apóstolos,
enviando-os como ele próprio tinha sido enviado pelo Pai (Jo
17,18), como mestres, guias, agentes da santidade na
assembléia dos fiéis; designava o chefe deles e seu vigário em terra
(cf. Mt 16,18-19); fazia-lhes conhecer tudo o que tinha
ouvido do Pai (Jo 15,15; 17,8.14); indicava também o
batismo (cf. Jo 3,5) como meio para os que no futuro cressem
serem incorporados no Corpo da Igreja; finalmente chegando ao
anoitecer da vida, durante a última ceia, instituía a Eucaristia,
admirável sacrifício e admirável sacramento.
27. Ter ele consumado no patíbulo da cruz a sua obra,
afirmam-no, numa série ininterrupta de testemunhos, os santos
Padres, que notam ter a Igreja nascido na cruz do lado do Salvador,
qual nova Eva, mãe de todos os viventes (cf. Gn 3,20).
"Agora, diz o grande Ambrósio tratando do lado de Cristo aberto,
é ela edificada, agora formada, agora esculpida, agora criada...
Agora é a casa espiritual elevada a sacerdócio santo".[8] Quem
devotamente investigar esta venerável doutrina, poderá sem
dificuldade ver as razões em que ela se funda.
28. E primeiramente com a morte do Redentor, foi abrogada a antiga
Lei e sucedeu-lhe o Novo Testamento; então com o sangue de Cristo
foi sancionada para todo o mundo a Lei de Cristo com seus mistérios,
leis, instituições e ritos sagrados. Enquanto o divino Salvador
pregava num pequeno território - pois que não fora enviado senão às
ovelhas perdidas da casa de Israel (cf. Mt 15,24) - corriam
juntos a Lei e o Evangelho,[9] ) mas no patíbulo, onde morreu,
anulou a Lei com as suas prescrições (cf. Ef 2,15), afixou a
cruz o quirógrafo do Antigo Testamento (cf. Cl 2,14),
estabelecendo, com o sangue, derramado por todo o gênero humano, a
Nova Aliança (cf. Mt 26,28;1Cor 11,25). "Então,
diz S. Leão Magno falando da cruz do Senhor, fez-se a
transferência da Lei para o Evangelho, da Sinagoga para a Igreja,
de muitos sacrifícios para uma única hóstia, tão evidentemente,
que ao exalar o Senhor o último suspiro, o místico véu, que
fechava os penetrais do templo e o misterioso santuário, se rasgou
improvisamente de alto a baixo".[10]
29. Portanto na cruz morreu a Lei antiga; dentro em pouco será
sepultada e se tornará mortífera,[11] para ceder o lugar ao Novo
Testamento, para o qual tinha Cristo escolhido ministros idôneos na
pessoa dos apóstolos (cf. 2Cor 3,6): e é pela virtude da cruz
que o Salvador, constituído cabeça de toda a família humana já
desde o seio da Virgem, exerce plenamente o seu múnus de cabeça da
Igreja. "Pela vitória da cruz, segundo o doutor angélico,
mereceu o poder e domínio sobre todas as gentes",[12] por ela
enriqueceu imensamente aquele tesouro de graça que na glória do céu
distribui incessantemente aos seus membros mortais; pelo sangue
derramado na cruz fez com que, removido o obstáculo da ira divina,
pudessem todos os dons celestes e em primeiro lugar as graças
espirituais do Novo e Eterno Testamento correr das fontes do
Salvador para a salvação dos homens, sobretudo dos fiéis; enfim na
árvore da cruz adquiriu a sua Igreja, isto é, os membros do seu
corpo místico, pois que estes não seriam a ele incorporados nas
águas do batismo, se não fosse pela virtude salutífera da cruz,
onde o Senhor já adquiriu sobre eles domínio pleníssimo.
30. Se nosso Salvador por sua morte foi feito cabeça da Igreja no
pleno sentido da palavra, igualmente pelo seu sangue foi a Igreja
enriquecida daquela abundantíssima comunicação do Espírito que
divinamente a ilustra desde que o Filho do homem foi elevado e
glorificado no seu doloroso patíbulo. Então como nota santo
Agostinho,[13] rasgado o véu do templo, o orvalho dos dons do
Paráclito, que até ali descera somente sobre o velo, isto é,
sobre o povo de Israel, começou deixando o velo enxuto, a regar a
Igreja e abundantemente toda a terra, quer dizer a Igreja católica,
que não conhece fronteira de estirpe ou território. Como no primeiro
instante da encarnação, o Filho do Eterno Pai ornou a natureza
humana, consigo substancialmente unida, com a plenitude do Espírito
Santo, para que fosse apto instrumento da divindade na hora cruenta da
redenção; assim na hora da sua preciosa morte enriqueceu a sua
Igreja com mais copiosos dons do Paráclito, para a tornar válido e
perpétuo instrumento do Verbo encarnado na distribuição dos divinos
frutos da redenção. De fato a missão jurídica da Igreja e o poder
de ensinar, governar e administrar os sacramentos não têm força e
vigor sobrenatural para edificar o corpo de Cristo, senão porque
Cristo pendente da cruz abriu à sua Igreja a fonte das divinas
graças com as quais pudesse ensinar aos homens doutrina infalível,
governá-los salutarmente por meio de pastores divinamente iluminados,
e inundá-los com a chuva das graças celestes.
31. Se considerarmos atentamente todos estes mistérios da cruz,
já nos não parecerão obscuras as palavras do Apóstolo, onde ensina
aos efésios que Cristo com o sangue fez um povo único de judeus e
gentios "destruindo na sua carne a parede interposta", que separava
os dois povos; e que ab-rogou a Antiga Lei "para dos dois formar em
si mesmo um só homem novo", isto é, a Igreja; e a ambos,
reunidos num só Corpo, reconciliar com Deus pela cruz (cf. Ef
2,14-16).
32. A Igreja que com seu sangue fundara, robusteceu-a com
energias especiais descidas do céu, no dia de Pentecostes. Com
efeito, depois de ter solenemente investido no seu ofício aquele que
já antes tinha designado para seu vigário, subiu ao céu; e,
sentado à direita do Pai, quis manifestar e promulgar a sua esposa
com a descida visível do Espírito Santo, com o ruído do vento
impetuoso e com as línguas de fogo (cf. At 2,1-4). Como ele
próprio ao princípio do seu público ministério tinha sido
manifestado pelo Eterno Pai por meio do Espírito Santo que em
figura de pomba desceu e pousou sobre ele (cf. Lc 3,22; Mc
1,10), assim igualmente quando os Apóstolos estavam para
começar o sagrado ofício de pregar, mandou Cristo Senhor nosso do
céu o seu Espírito que, tocando-os com línguas de fogo, mostrou,
como com o dedo de Deus, a missão e o múnus sobrenatural da
Igreja.
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