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33. Em segundo lugar prova-se que este corpo místico, que é a
Igreja, é realmente distinguido com o nome de Cristo, porque ele
deve ser considerado de fato como sua cabeça. "Ele é, diz S.
Paulo, a cabeça do corpo da Igreja" (Cl 1,18). Ele é a
cabeça, da qual todo o corpo convenientemente organizado e coordenado
recebe crescimento e desenvolvimento na sua edihcação (cf. Ef
4,16, com Cl 2,19).
34. Bem sabeis, veneráveis irmãos, com que eloqüência e
esplendor trataram este assunto os doutores escolásticos e
principalmente o Doutor angélico e comum; e não ignorais que os seus
argumentos reproduzem fielmente a doutrina dos santos Padres; os
quais, por sua parte, não faziam senão expor e comentar as
sentenças da divina linguagem da Escritura.
35. Queremos, contudo, para comum utilidade tocar aqui brevemente
este ponto. E primeiro é evidente que o Filho de Deus e da Virgem
Santíssima deve chamar-se cabeça da Igreja por motivo de
singularíssima excelência. A cabeça está colocada no alto. Ora
quem foi colocado mais alto do que Cristo-Deus, o qual, como Verbo
do Eterno Pai, deve ser considerado "primogênito de toda a
criação"? (Cl 1,15).
Quem, elevado a maior altura do que Cristo-homem, o qual, nascido
da Virgem imaculada, é verdadeiramente e par natureza Filho de
Deus, e por sua prodigiosa e gloriosa ressurreição com que triunfou
da morte, é o "primogênito dos mortos" (Cl 1,18; Ap
1,5). Quem, finalmente, colocado em maior altura do que aquele
que de modo admirável, qual "único medianeiro entre Deus e os
homens" (1Tm 2,5), ajunta a terra com o céu; que exaltado na
cruz, como num trono de misericórdia, atraiu tudo a si (cf. Jo
12,32); e que, filho do homem eleito entre milhões, é amado
por Deus mais que todos os homens, todos os anjos e todas as
criaturas?[14]
36. E porque Cristo ocupa lugar tão sublime, com razão é ele
só a reger e governar a Igreja; nova razão para se assemelhar à
cabeça. Como a cabeça, para o dizer com as palavras de santo
Ambrósio, é "a cidade real" do corpo,[15] e, sendo dotada de
maiores qualidades, dirige naturalmente todos os membros, aos quais
sobrestar para olhar por eles, [16] assim o divino Redentor
empunha o timão e governa toda a república cristã. Uma vez que
governar uma sociedade composta de homens não é outra coisa do que com
útil providência, meios aptos e retas normas conduzi-los a um fim
determinado,[17] é fácil de ver que nosso Salvador, modelo e
exemplar dos bons pastores (cf. Jo 10,1-18;1Pd
5,115), exercita maravilhosamente todos estes ofícios.
37. Ele na sua vida mortal instruiu-nos com leis, conselhos,
avisos, em palavras que não passarão nunca e para os homens de todos
os tempos serão Espírito e vida (cf. Jo 6,63). Além disso
deu aos apóstolos e seus sucessores o tríplice poder de ensinar,
reger e santificar, poder definido com especiais leis, direitos e
deveres, que constituem a lei fundamental de toda a Igreja.
38. Mas nosso divino Salvador governa e dirige também por si mesmo
e diretamente a sociedade que fundou; pois que ele reina nas
inteligências e corações dos homens e dobra e compele a seu
beneplácito as vontades ainda mais rebeldes. "O coração do rei
está na mão do Senhor; inclinálo-á para onde quiser" (Pr
21,1). Com este governo interno ele, qual "pastor e bispo das
nossas almas" (cf. 1Pd 2,25) não só tem cuidado de cada um
em particular, mas também de toda a Igreja; tanto quando ilumina e
fortalece os sagrados pastores para que fel e frutuosamente se
desempenhem de seus ofícios, como quando - em circunstâncias
particularmente graves - faz surgir no seio da Igreja homens e
mulheres de santidade assinalada, que sejam de exemplo aos outros
fiéis, para incremento do seu corpo místico. Acresce ainda que
Cristo do céu vela sempre com particular amor pela sua esposa
intemerata, que labuta neste terrestre exílio; e quando a vê em
perigo, ou por si mesmo, ou pelos seus anjos (cf. At 8,26;
9,119; 10,1-7; 12,3-10), ou por aquela que
invocamos como auxílio dos cristãos, e pelos outros celestes
protetores, salva-a das ondas procelosas e, serenado e abonançado o
mar, consola-a com aquela paz "que supera toda a inteligência"
(Fl 4,7).
39. Não se julgue, porém, que o seu governo se limita a uma
ação invisível,[18] ou extraordinária. Ao contrário, o
divino Redentor governa o seu corpo místico de modo visível e
ordinário por meio do seu vigário na terra. Vós bem sabeis,
veneráveis irmãos, que Cristo nosso Senhor, depois de ter,
durante a sua carreira mortal, governado pessoalmente e de modo
visível o seu "pequeno rebanho" (Lc 12,32), quando estava
para deixar este mundo e voltar ao Pai, confiou ao príncipe dos
apóstolos o governo visível de toda a sociedade que fundara. E
realmente, sapientíssimo como era, não podia deixar sem cabeça
visível o corpo social da Igreja que instituíra. Nem se objete que
com o primado de jurisdição instituído na Igreja ficava o corpo
místico com duas cabeças. Porque Pedro, em força do primado,
não é senão vigário de Cristo, e por isso a cabeça principal
deste corpo é uma só: Cristo; o qual, sem deixar de governar a
Igreja misteriosamente por si mesmo, rege-a também de modo visível
por meio daquele que faz as suas vezes na terra; e assim a Igreja,
depois da gloriosa ascensão de Cristo ao céu não está educada só
sobre ele, senão também sobre Pedro, como fundamento visível.
Que Cristo e o seu vigário formam uma só cabeça ensinou-o
solenemente nosso predecessor de imortal memória Bonifácio VIII,
na carta apostólica "Unam Sanctam"[19] e seus sucessores não
cessaram nunca de o repetir.
40. Em erro perigoso estão, pois, aqueles que julgam poder
unir-se a Cristo, cabeça da Igreja, sem aderirem fielmente ao seu
vigário na terra. Suprimida a cabeça visível e rompidos os
vínculos visíveis da unidade, obscurecem e deformam de tal maneira o
corpo místico do Redentor, que não pode ser visto nem encontrado de
quantos demandam o porto da eterna salvação.
41. Tudo o que dissemos da Igreja universal deve afirmar-se
igualmente das comunidades cristãs particulares, assim orientais como
latinas, das quais consta e se compõe uma só Igreja católica; por
isso que também a elas governa Jesus Cristo por meio da voz e
autoridade dos respectivos prelados. Os bispos não só devem ser
considerados como membros mais eminentes da Igreja universal, pois que
se unem com nexo singularíssimo à cabeça de todo o corpo, e com
razão se chamam "os primeiros dos membros do Senhor",[20] mas
nas próprias dioceses, como verdadeiros pastores, apascentam e
governam em nome de Cristo os rebanhos que lhes foram
confiados;[21] ainda que nisto mesmo não sejam plenamente
independentes, mas estão sujeitos à autoridade do romano pontífice,
de quem receberam imediatamente o poder ordinário de jurisdição que
possuem. Devem pois ser venerados, pelo povo cristão, como
sucessores dos apóstolos por instituição divina;[22] a eles,
como sagrados com a unção do Espírito Santo, muito melhor que às
autoridades deste mundo, ainda que elevadas, se pode aplicar aquela
sentença: "Não toqueis nos meus ungidos" (1Cr 16,22; Sl
104,15).
42. É, por isso, imensa a nossa dor quando somos informados de que
não poucos de nossos irmãos no episcopado, porque de todo o coração
se fizeram modelos do seu rebanho (cf. 1Pd 5,3) e defendem
estrênua e fielmente, como devem, "o depósito da fé" a eles
confiado (cf. 1Tm 6,20); porque zelam o cumprimento das leis
santíssimas, impressas pela mão de Deus nos corações dos homens,
e a exemplo do supremo Pastor defendem o próprio rebanho contra a
rapacidade dos lobos, não só se vêem eles próprios perseguidos e
vexados, mas - o que para eles é bem cruel e penoso - vêem tratadas
igualmente as suas ovelhas, os colaboradores do seu apostolado, e as
próprias virgens consagradas a Deus. Essas injustiças,
consideramo-las como feitas a nós mesmos e repetimos a eloqüente
frase do nosso predecessor de imortal memória, Gregório Magno: A
nossa honra é a honra de nossos irmãos; e, então, verdadeiramente
somos honrados, quando a nenhum deles se nega a honra que lhes é
devida.[23]
43. Todavia não se julgue que Cristo, cabeça da Igreja, por
estar posto tão alto, dispensa a cooperação do corpo; pois que deve
armar-se do corpo místico o que Paulo afirma do corpo humano:
"Não pode a cabeça dizer aos pés: não preciso de vós" (lCor
12,21). É mais que evidente que os fiéis precisam do auxílio
do divino Redentor, pois que ele disse: "Sem mim nada podeis
fazer" (Jo 15,5), e segundo o Apóstolo, todo o aumento deste
corpo místico na sua edificação vem-lhe de Cristo, sua cabeça
(Cf. Ef 4,16; Cl 2,19). Contudo é igualmente verdade,
por mais admirável que pareça, que Cristo também precisa dos seus
membros. E isso, em primeiro lugar, porque a pessoa de Jesus
Cristo é representada pelo sumo pontífice, e este, para não ficar
esmagado sob o peso do múnus pastoral, precisa confiar a outros parte
não pequena da sua solicitude, e todos os dias deve ser ajudado pelas
orações de toda a Igreja. Além disso nosso Salvador, enquanto
rege por si mesmo de modo invisível a Igreja, quer ser ajudado pelos
membros deste corpo místico na realização da obra da redenção;
não por indigência ou fraqueza da sua parte, mas ao contrário porque
ele assim o dispôs para maior honra da sua esposa intemerata. Com
efeito, morrendo na cruz, deu à Igreja, sem nenhuma cooperação
dela, o imenso tesouro da redenção; ao tratar-se porém de
distribuir este tesouro, não só faz participante a sua incontaminada
esposa desta obra de santificação, mas quer que em certo modo nasça
da sua atividade. Tremendo mistério, e nunca assaz meditado: Que a
salvação de muitos depende das orações e dos sacrifícios
voluntários, feitos com esta intenção, pelos membros do corpo
místico de Jesus Cristo, e da colaboração que pastores e féis,
sobretudo os pais e mães de família, devem prestar ao divino
Salvador.
44. Agora aos motivos expostos para demonstrar que Cristo Senhor
nosso deve dizer-se cabeça do seu corpo social, acrescentemos outros
três entre si intimamente conexos.
45. Começamos pela mútua relação que existe entre a cabeça e o
corpo, pelo fato de serem da mesma natureza. Neste ponto note-se que
a nossa natureza, bem que inferior à angélica, a vence por bondade
de Deus: "De fato Cristo, como diz o Doutor de Aquino, é
cabeça dos Anjos; pois que preside aos Anjos também segundo a
humanidade... e enquanto homem ilumina os Anjos e influi sobre
eles. Mas quanto à conformidade de natureza Cristo não é cabeça
dos Anjos, porque não assumiu os Anjos, mas, segundo o
Apóstolo, a descendência de Abraão".[24] E não só assumiu
Cristo a nossa natureza, mas fez-se nosso consangüíneo num corpo
passível e mortal. Ora se o Verbo "se aniquilou a si mesmo tomando
a forma de servo" (Fl 2,7) fê-lo também para tornar os seus
irmãos segundo a carne consortes da natureza divina (cf. 2Pd
1,4) tanto no exílio terreno pela graça santificante, como na
pátria celeste pela eterna bem-aventurança. De fato se o
Unigênito do Eterno Pai quis ser falho do homem, foi para que nós
nos conformássemos à imagem do Filho de Deus (cf: Rm 8,29) e
nos renovássemos segundo a imagem daquele que nos criou (cf. Cl
3,10). Por conseguinte todos os que se gloriam do nome de
cristãos, não só olhem para o divino Salvador como para um
altíssimo e perfeitíssimo exemplar de todas as virtudes, mas evitando
cuidadosamente o pecado e praticando diligentemente a virtude, procurem
reproduzir em seus costumes a sua doutrina e vida, de modo que, quando
o Senhor aparecer, sejam semelhantes a ele na glória, vendo-o tal
qual é (cf. 1Jo 3,2).
46. Deseja Cristo que cada um de seus membros se lhe assemelhe;
mas deseja igualmente que se lhe assemelhe todo o corpo da Igreja. O
que sucede quando ela, seguindo as pistas de seu fundador, ensina,
governa, e imola o divino sacrifício; quando abraça os conselhos
evangélicos, e reproduz em si mesma a pobreza, a obediência e a
virgindade do Redentor; quando, nos muitos e variados institutos que
como jóias a adornam, nos faz em certo modo ver Cristo, ora no monte
contemplando, ora pregando às turbas, ora sarando os enfermos e
feridos e convertendo os pecadores, ora, enfim, fazendo bem a todos.
Não é, pois, para admirar se ela, enquanto vive nesta terra, se
vê também, como Cristo, exposta a perseguições, vexações e
sofrimentos.
47. Depois Cristo é cabeça da Igreja, porque avantajando-se na
plenitude e perfeição dos dons sobrenaturais, desta plenitude haure o
seu corpo místico. Com efeito, notam muitos Padres, assim como no
corpo humano a cabeça possui todos os cinco sentidos, ao passo que o
resto do corpo possui unicamente o tato, assim todas as virtudes, dons
e carismas que há na sociedade cristã, resplandecem de modo
singularíssimo na cabeça, Cristo. "Aprouve que nele habitasse
toda a plenitude" (Cl 1,19); a ele exornam todos os dons que
acompanham a união hipostática; porquanto nele habita o Espírito
Santo com tal plenitude de graças, que não se pode conceber maior.
A ele foi dado poder sobre a carne (cf. Jo 17,2); nele se
encerram "todos os riquíssimos tesouros de sabedoria e ciência"
(Cl 2,3). A própria ciência de visão é nele tal que supera
absolutamente em compreensão e clareza a ciência correspondente de
todos os bem-aventurados. Enfim, é ele tão cheio de graça e
verdade, que todos nós recebemos da sua inexaurível plenitude (cf.
Jo 1,14-16).
48. Essas palavras do discípulo, a quem Jesus amava com singular
caridade, levam-nos a expor a última razão que de modo particular
demonstra ser Cristo Senhor Nosso cabeça de seu corpo místico. E
é que assim como da cabeça partem os nervos, que; difundindo-se por
todos os membros do corpo, lhes comunicam sensibilidade e movimento,
assim também o divino Salvador infunde na sua Igreja força e vigor,
com que os fiéis conhecem mais claramente e mais avidamente apetecem as
coisas de Deus. Dele provém ao corpo da Igreja toda a luz que
ilumina divinamente os féis, e toda a graça com que se fazem santos
como ele é santo.
49. Cristo ilumina toda a sua Igreja: prova-o um sem número de
passos da Sagrada Escritura e dos santos Padres. "A Deus nunca
ninguém o viu; foi o Filho Unigênito, que está no seio do Pai,
que no-lo deu a conhecer" (cf. Jo 1,18). Vindo da parte de
Deus como Mestre (cf. Jo 3,2), para dar testemunho a verdade
(cf. Jo 18,37) iluminou com tanta luz a primitiva Igreja dos
apóstolos, que o príncipe deles exclamava: "Senhor, para quem
iremos? Vós tendes palavras de vida eterna" (cf. Jo 6,68).
Assistiu do céu os evangelistas, que como membros de Cristo,
escreveram o que ele, como cabeça, lhes ditou e ensinou.[25] E
hoje a nós que moramos neste exílio terrestre é autor da fé, como
na pátria é o seu consumador (cf. Hb 12,2). Ë ele que
infunde nos féis a luz da fé; ele que aos pastores e doutores e sobre
todos ao seu vigário na terra enriquece divinamente com os dons
sobrenaturais de ciência, entendimento e sabedoria, para que
conservem fielmente o tesouro da fé, o defendam corajosamente,
piedosa e diligentemente o expliquem e valorizem; Ele é enfim o que
invisível preside e dirige os concílios da Igreja.[26]
50. Cristo é autor e operador de santidade. Já que nenhum ato
salutar pode haver que dele não derive como fonte soberana: "Sem
mim, diz ele, nada podeis fazer" (cf. Jo 15,5). Se nos
sentimos movidos à dor e contrição dos pecados cometidos, se com
temor e esperança filial nos convertemos a Deus, é sempre a sua
graça que nos comove. A graça e a glória brotam da sua inexaurível
plenitude. Sobretudo aos membros mais eminentes de seu corpo místico
enriquece o Salvador continuamente com os dons de conselho,
fortaleza, temor, piedade, para que todo o corpo cresça cada dia
mais em santidade e perfeição. E quando com rito externo se
ministram os sacramentos da Igreja, é ele que opera o efeito deles
nas almas.[27] É ele também que, nutrindo os fiéis com a
própria carne e sangue, serena os movimentos desordenados das
paixões; é ele que aumenta as graças e prepara a futura glória das
almas e dos corpos. Todos esses tesouros da divina bondade reparte ele
aos membros do seu corpo místico não só enquanto os obtém do Eterno
Pai como vítima eucarística na terra e como vítima glorificada no
céu, mostrando as suas chagas e apresentando as suas súplicas, mas
também porque "segundo a medida do dom de Cristo" (Ef 4,7)
escolhe, determina, distribui a cada um as suas graças. Donde se
segue que do divino Redentor, como de fonte manancial, "todo o corpo
bem organizado e unido recebe por todas as articulações, segundo a
medida de cada membro, o influxo e energia que o faz crescer e
aperfeiçoar na caridade" (Ef 4,16; cf. Cl 2,19).
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