CRISTO É O "SUSTENTADOR" DESTE CORPO

51. O que até aqui expusemos, veneráveis irmãos, explicando resumidamente o modo como Cristo Senhor Nosso quer que da sua divina plenitude desça sobre a Igreja a abundância de seus dons, para que ela se lhe assemelhe o mais possível, serve para explicar a terceira razão que demonstra como o corpo social da Igreja é corpo de Cristo, isto é, por ser nosso Salvador quem divinamente sustenta a sociedade que fundou.

52. Observa Belarmino, com muita sutileza, [28] que com esta denominação de corpo Cristo não quer dizer somente que ele é a cabeça do seu corpo místico, senão também que sustenta a Igreja, de tal maneira que a Igreja é como uma segunda personificação de Cristo. Afirma-o também o Doutor das gentes, quando, na epístola aos Coríntios, chama, sem mais, Cristo a Igreja (l Cor 12,12), imitando de certo o divino Mestre que, quando ele perseguia a Igreja, lhe bradou do céu: "Saulo, Saulo, por que me persegues?" (cf. At 9,4; 22, 7; 26,14). Antes são Gregório Nisseno diz-nos que o Apóstolo repetidamente chama Cristo à Igreja; [29] nem vós, veneráveis irmãos, ignorais aquela sentença de Agostinho: "Cristo prega a Cristo".[30]

53. Todavia essa nobilíssima denominação não deve entender-se como se aquela inefável união, com que o Filho de Deus assumiu uma natureza humana determinada, se estende a toda a Igreja; mas quer dizer que o Salvador comunica à sua Igreja os seus próprios bens de tal forma que ela, em toda a sua vida visível e invisível, é um perfeitíssimo retrato de Cristo. De fato em força da missão jurídica com que o divino Redentor enviou os apóstolos ao mundo, como o Pai o enviara a ele (cf. Jo 17,18 e 20,21), é ele que pela sua Igreja batiza, ensina, governa, ata, desata, oferece e sacrifica. E com aquela mais elevada comunicação, interior e sublimíssima, de que falamos acima, descrevendo o modo como a cabeça influi nos membros, Cristo faz que a Igreja viva da sua vida sobrenatural, penetra com a sua divina virtude todo o corpo, e a cada um dos membros, segundo o lugar que ocupa no corpo, nutre-o e sustenta-o do mesmo modo que a videira sustenta e torna frutíferas as vides aderentes à cepa.[31]

54. Se bem considerarmos esse divino princípio de vida e atividade, dado por Cristo, enquanto constitui a própria fonte de todos os dons e graças criadas, compreenderemos facilmente que não é outra coisa senão o Espírito Paráclito que procede do Pai e do Filho e de modo peculiar se diz "Espírito de Cristo" ou "Espírito do Filho" (Rm 8, 9; 2 Cor 3,17; Gl 4,6). Com esse Espírito de graça e de verdade ornou o Filho de Deus a sua alma logo no imaculado seio da Virgem; esse Espírito deleita-se em habitar na alma do Redentor, como no seu templo predileto; esse Espírito mereceu-no-lo Cristo derramando o próprio sangue; e, soprando sobre os apóstolos, comunicou-o à Igreja para perdoar os pecados (cf. Jo 20,22); e ao passo que só Cristo o recebeu sem medida (cf. Jo 3,34), aos membros do corpo místico dá-se da plenitude de Cristo e só na medida que ele o quer dar (cf. Ef 1,8; 4,7). Depois que Cristo foi glorificado na cruz, o seu Espírito é comunicado à Igreja em copiosíssima efusão para que ela e cada um dos seus membros se pareçam cada vez mais com o Salvador. É o Espírito de Cristo que nos faz filhos adotivos de Deus (cf. Rm 8,14-17; Gl 4,6-7), para que um dia "todos, contemplando a face descoberta, a glória do Senhor, nos transformemos na sua própria imagem cada vez mais resplandecente" (cf. 2Cor 3,18).

55. A esse Espírito de Cristo, como a princípio invisível, deve atribuir-se também a união de todas as partes do corpo tanto entre si como com sua cabeça, pois que ele está todo na cabeça, todo no corpo e todo em cada um dos membros; conforme as suas funções e deveres, e segundo a maior ou menor saúde espiritual de que gozam, está presente e assiste de diversos modos. É ele que com o hálito de vida celeste em todas as partes do corpo é o princípio de toda a ação vital e verdadeiramente salutar. É ele que, embora resida e opere divinamente em todos os membros, contudo também age nos inferiores por meio dos superiores; ele enfim que cada dia produz na Igreja com sua graça novos incrementos, mas não habita com a graça santificante nos membros totalmente cortados do corpo. Essa presença e ação do Espírito de Jesus Cristo exprimiu-a sucinta e energicamente nosso sapientíssimo predecessor, de imortal memória, Leão XIII, na encíclica "Divinum Illud" por estas palavras: "Baste afirmar que, sendo Cristo cabeça da Igreja, o Espírito Santo é a sua alma".[32]

56. Se, porém, considerarmos aquela força e energia vital com que o divino Fundador sustenta toda a família cristã, não já em si mesma, mas nos efeitos criados que produz, então veremos que consiste nas dons celestes que nosso Redentor juntamente com seu Espírito dá a Igreja e juntamente com o mesmo Espírito, opera, como doador da luz sobrenatural e causa eficiente da santidade. E é por isso que a Igreja não menos que todos os santos, membros seus, pode fazer sua aquela grande sentença do Apóstolo: "Vivo; já não eu; mas vive Cristo em mim" (Gl 2,20).