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70. A esses vínculos jurídicos, que já por si excedem
grandemente os de qualquer outra sociedade humana, mesmo suprema,
junta-se necessariamente outra causa de união naquelas três virtudes
que nos unem estreitissimamente com Deus: a fé, a esperança e a
caridade cristã. "Um só Senhor, uma só fé", como diz
oApóstolo (Ef 4,5): aquela fé com que aderimos a um só Deus
e àquele que ele mandou, Jesus Cristo (cf. Jo 17,3). Quão
intimamente por meio desta fé nos unimos a Deus, ensinam-no as
palavras do discípulo amado: "Quem confessar que Jesus é Filho de
Deus, Deus permanece nele e ele em Deus" (1 Jo 4,15). Nem
é menor a união, que por ela se estabelece entre nós e com a divina
cabeça; pois que todos os fiéis que "temos o mesmo Espírito de
fé" (2Cor 4,13), somos iluminados pela mesma luz de Cristo,
sustentados pelo mesmo manjar de Cristo, e governados pela mesma
autoridade e magistério de Cristo. E se em todos floresce o mesmo
Espírito de fé, todos vivemos também a mesma vida "na fé do
Filho de Deus que nos amou e se entregou a si mesmo por nós" (cf.
Gl 2, 20); e Cristo, nossa cabeça, recebido em nós pela fé
viva e habitando em nossos corações (cf. Ef 3,17), como é
autor da nossa fé, será também o seu consumador (cf. Hb
12,2).
71. Se, nesta vida, pela fé aderimos a Deus qual fonte da
verdade, pela virtude da esperança cristã desejamo-lo qual fonte da
bem-aventurança, "esperando a bem-aventurada esperança e o advento
da glória do grande Deus" (Tt 2,13). Por causa daquele comum
desejo do reino dos céus pelo qual renunciamos a ter pátria permanente
aqui na terra, mas demandamos a celeste (cf. Hb 13,14), e
anelamos a glória eterna, não duvidou dizer o Apóstolo das gentes:
"Um corpo só e um só Espírito, como é uma a esperança da
vocação com que fostes chamados" (Ef 4,4); mais ainda,
Cristo reside em nós como esperança da glória (cf. Cl
1,27).
72. Mas se os vínculos da fé e da esperança, que nos unem com o
Redentor divino no seu corpo místico, são fortes e importantes,
não são menos importantes e eficazes os laços da caridade. Se até
naturalmente nada há mais excelente do que o amor, fonte da verdadeira
amizade, que dizer daquele amor soberano, que o próprio Deus infunde
nas nossas almas? "Deus é caridade, e quem permanece na caridade
permanece em Deus e Deus nele" (1 Jo 4,16). A caridade,
como por força de uma lei estabelecida por Deus, faz com que ele
desça a morar nas almas que o amam, dando-lhes amor por amor,
segundo aquela sentença: "Se alguém me ama, também meu Pai o
amará e viremos a ele e estabeleceremos nele a nossa morada" (Jo
14,23): Portanto a caridade une-nos com Cristo mais
intimamente que qualquer outra virtude; em cujo amor inflamados tantos
filhos da Igreja jubilam de por ele sofrer afrontas e tolerar e
suportar tudo; por árduo que fosse, até ao último alento e à
efusão do próprio sangue. Por isso nos exorta vivamente o Salvador
com estas palavras: "Permanecei no meu amor". E porque a caridade
é vã e aparente se não se demonstra e torna efetiva com boas obras,
por isso acrescenta logo: "Se observardes os meus mandamentos,
permanecereis no meu amor; como eu observei os mandamentos de meu Pai
e parmaneço no seu amor" (Jo 15,9-10).
73. Mas a esse amor de Deus e de Cristo é preciso que corresponda
a caridade para com o próximo. E realmente como podemos nós afirmar
que amamos o Redentor divino, se odiamos aqueles que ele, para os
fazer membros do seu corpo místico, remiu com seu precioso sangue?
Por isso o Apóstolo, entre todos predileto de Cristo, nos
adverte: "Se alguém disser que ama a Deus, e odiar a seu irmão,
mente. Pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, como pode amar a
Deus, a quem não vê? E nós recebemos este mandamento, que quem
ama a Deus ame também a seu Irmão" (1Jo 4,20-21).
Antes devemos afirmar que tanto mais unidos estaremos com Deus, e com
Cristo, quanto mais "formos membros uns dos outros" (Rm
12,25), solícitos uns pelos outros (lCor 12,25); e por
outra parte, tanto mais viveremos entre nós unidos e estreitados pela
caridade, quanto mais ardente for o amor que nos unir a Deus e à
nossa divina cabeça.
74. O Filho unigênito de Deus já antes do princípio do mundo
nos abraçou no seu infinito conhecimento e eterno amor. Amor que ele
demonstrou palpavelmente e de modo verdadeiramente assombroso assumindo
a nossa natureza em unidade hipostática; donde segue, como
ingenuamente nota Máximo de Turim, que "em Cristo nos ama a nossa
carne".[50]
75. Esse amorosíssimo conhecimento que o divino Redentor de nós
teve desde o primeiro instante da sua encarnação, excede tudo quanto
a razão humana pode alcançar; pois que ele pela visão beatífica de
que gozou apenas concebido no seio da Mãe Santíssima, tem
continuamente presente todos os membros do seu corpo místico e a todos
abraça com amor salvífico. Ó admirável dignação da divina bondade
para conosco! Ó inconcebível ordem da imensa caridade! No
presépio, na cruz, na glória sempiterna do Pai, Cristo vê e
abraça todos os membros da Igreja muito mais claramente, com muito
maior amor do que a mãe o filho que tem no regaço, do que cada um de
nós se conhece e ama a si mesmo.
76. Do dito até aqui vê-se facilmente, veneráveis irmãos, por
que é que o Apóstolo Paulo repete tantas vezes que Cristo está em
nós e nós em Cristo. O que se demonstra também com uma razão mais
sutil. Cristo está em nós como acima demoradamente expusemos, pelo
seu Espírito que ele nos comunica, e pelo qual opera em nós de modo
que tudo o que o Espírito Santo opera em nós de divino, deve
dizer-se que é Cristo também que o opera.[51] "Se alguém
não tem o Espírito de Cristo, diz o Apóstolo, esse não pertence
a ele; mas se Cristo está em vós... o Espírito é vida pela
justiça" (Rm 8, 9-10).
77. Dessa mesma comunicação do Espírito de Cristo segue que a
Igreja vem a ser como o complemento e plenitude do Redentor; por isso
que todos os dons, virtudes e carismas que se encontram na cabeça de
modo eminente, superabundante e eficiente, dela derivam a todos os
membros da Igreja e neles, conforme o lugar que ocupam no corpo
místico de Cristo, dia a dia se aperfeiçoam, e Cristo como que se
completa na Igreja. [52] Nessas palavras acenamos a razão por
que, segundo a doutrina de Agostinho, já antes brevemente indicada,
a cabeça mística que é Cristo, e a Igreja, que é na terra como
outro Cristo e faz as suas vezes, constituem um só homem novo, em
quem se juntam o céu e a terra para perpetuar a obra salvífica da
cruz; este homem novo é Cristo cabeça e corpo, o Cristo total.
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