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78. Certamente não desconhecemos quão difícil de entender e de
explicar é esta doutrina da nossa união com o divino Redentor, e
especialmente da habitação do Espírito Santo nas almas, pelos
véus do mistério que a recatam e tornam obscura à investigação da
fraca inteligência humana. Mas sabemos também que da investigação
bem feita e persistente e do conflito e concurso das várias opiniões,
se a investigação for orientada pelo amor da verdade e pela devida
submissão à Igreja, brotam faíscas e se acendem luzes com que,
mesmo neste gênero de ciências sagradas, se pode obter verdadeiro
progresso. Por isso não censuramos os que, por diversos caminhos,
se esforçam por atingir e quanto possível declarar este tão sublime
mistério da nossa admirável união com Cristo. Uma coisa, porém,
devem todos ter por certa e indubitável, se não querem desviar-se da
verdadeira doutrina e do reto magistério da Igreja: rejeitar toda a
explicação desta mística união que pretenda elevar os fiéis tanto
acima da ordem criada, que cheguem a invadir a divina, a ponto de se
atribuir em sentido próprio um só que seja dos atributos de Deus.
Retenham também firmemente aquele outro princípio certíssimo, que
nestas matérias é comum à SS. Trindade tudo o que se refere e
enquanto se refere a Deus como suprema causa eficiente.
79. Note-se também que se trata de um mistério recôndito, que
neste exílio terrestre nunca se poderá completamente desvendar ou
compreender nem explicar em linguagem humana. Diz-se que as Pessoas
divinas habitam na criatura inteligente enquanto presentes nela de modo
imperscrutável, dela são atingidas por via de conhecimento e amor,
[53] de modo porém absolutamente íntimo e singular, que
transcende a natureza humana. Para formarmos disto uma idéia ao menos
aproximativa, não devemos descurar o caminho e método que o
Concílio Vaticano tanto recomenda nestas matérias, para obter luz
com que se possa vislumbrar alguma coisa dos divinos arcanos, isto é,
a comparação dos mistérios entre si e com o bem supremo a que se
dirigem [54]. E é assim que Nosso sapientíssimo Predecessor de feliz
memória Leão XIII, tratando desta nossa união com Cristo e da
habitação do Espírito Paráclito em nós, muito oportunamente fixa
os olhos na visão beatífica, que um dia no céu completará e
consumará esta união mística. "Esta admirável união, diz ele,
que com termo próprio se chama "inabitação", difere apenas daquela
com que Deus no céu abraça e beatifica os bem-aventurados, só pela
nossa condição (de viajores na terra)".[55] Naquela visão
poderemos com os olhos do Espírito, elevados pelo lume da glória,
contemplar de modo inefável o Pai, o Filho e o Divino Espírito,
assistir de perto por toda a eternidade às processões das divinas
Pessoas e gozar de uma bem-aventurança semelhantíssima àquela que
faz bem-aventurada a santíssima e indivisível Trindade.
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