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85. Não menos contrário à verdade e perigoso é o erro daqueles
que da misteriosa união de todos nós com Cristo pretendem deduzir um
mal-entendido "quietismo", que atribui toda a vida espiritual dos
féis e todo o progresso na virtude unicamente à ação do Espírito
Santo, excluindo ou menosprezando a correspondência e colaboração
que devemos prestar-lhe. Ninguém pode negar que o divino Espírito
de Cristo é a única fonte donde deriva toda a energia sobrenatural na
Igreja e nos membros, pois que, como diz o salmista, "o Senhor
concede a graça e a glória" (Sl 83,12). Contudo o
perseverar constantemente nas obras de santidade, o progredir
fervorosamente na graça e na virtude, o esforçar-se generosamente
por atingir o vértice da perfeição cristã, enfim o excitar, na
medida do possível, os próximos a consegui-la, tudo isso não quer
o celeste Espíritó realizá-lo, se o homem não faz, dia a dia,
com energia e diligência, o que está ao seu alcance. "Os
benefícios divinos, diz santo Ambrósio, não se fazem aos que
dormem, mas aos que velam".[57] Se neste nosso corpo mortal os
membros se desenvolvem e robustecem com o exercício cotidiano, muito
mais, sem dúvida, sucede no corpo social de Cristo, cujos membros
gozam de liberdade, consciência e modo próprio de agir. Por isso o
que disse: "Vivo, não já eu; mas Cristo vive em mim" (Gl
2,20), esse mesmo não duvidou afirmar: "A sua graça (de
Deus) não foi em mim estéril, mas trabalhei mais que todos eles;
se bem que não eu, mas a graça de Deus comigo" (lCor
15,10). E, pois, evidente que, com essas falsas doutrinas, o
mistério de que tratamos não se utiliza para proveito espiritual dos
fiéis, mas converte-se em triste causa de sua ruína.
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