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86. O mesmo sucede com a falsa opinião dos que pretendem que não
se deve ter em conta a confissão freqüente das faltas veniais; pois
que mais importante é a confissão geral, que a esposa de Cristo,
com seus filhos a ela unidos no Senhor, faz todos os dias, por meio
dos sacerdotes antes de subirem ao altar de Deus. É verdade, e vós
bem sabeis, veneráveis irmãos, que há muitos modos e todos muito
louváveis, de obter o perdão dessas faltas; mas para progredir mais
rapidamente no caminho da virtude, recomendamos vivamente o pio uso,
introduzido pela Igreja sob a inspiração do Espírito Santo, da
confissão freqüente, que aumenta o conhecimento próprio, desenvolve
a humildade cristã, desarraiga os maus costumes, combate a
negligência e tibieza espiritual, purifïca a consciência, fortifica
a vontade, presta-se à direção espiritual, e, por virtude do
mesmo sacramento, aumenta a graça. Portanto os que menosprezam e
fazem perder a estima da confissão freqüente à juventude
eclesiástica, saibam que fazem uma coisa contrária ao Espírito de
Cristo e funestíssima ao corpo místico do Salvador.
87. Há ainda alguns que afirmam não terem as nossas orações
verdadeira eficácia impetrativa e trabalham por espalhar a opinião de
que a oração feita em particular pouco vale e que é a oração
pública, feita em nome da Igreja, que tem verdadeiro valor, por
partir do corpo místico de Jesus Cristo. Não é exato; o divino
Redentor não só uniu estreitamente a si a Igreja como esposa
queridíssima, senão também nela as almas de tódos e cada um dos
fiéis, com quem deseja ardentemente conversar na intimidade,
sobretudo depois da comunhão. E embora a oração pública, feita
por toda a Igreja, seja mais excelente que qualquer outra, graças a
dignidade da esposa de Cristo, contudo todas as orações, ainda as
mais particulares, têm o seu valor e eficácia, e aproveitam também
grandemente a todo o corpo místico; no qual não pode nenhum membro
fazer nada de bom e justo, que em razão da comunhão dos santos não
contribua também para a salvação de todos. Nem aos indivíduos por
serem membros desse corpo se lhes veda que peçam para si graças
particulares, mesmo temporais, com a devida sujeição à divina
vontade; pois que continuam sendo pessoas independentes com suas
indigências próprias. [58] Quanto à meditação das coisas
celestes, os documentos eclesiásticos, a prática e exemplos de todos
os Santos provam bem em quão grande estima deve ser tida por todos.
88. Por último não falta quem diga que as nossas súplicas não
devem dirigir-se a pessoa de Jesus Cristo, mas a Deus ou ao Eterno
Pai por Cristo; pois que o Salvador, como cabeça do seu corpo
místico, deve considerar-se apenas qual "medianeiro entre Deus e os
homens" (1Tm 2,5). Também isso é contrário ao modo de
pensar da Igreja, contrário ao costume dos fiéis e é falso.
Cristo, para falar com propriedade e precisão, é cabeça de toda a
Igreja segundo ambas as naturezas conjuntamente; [59] e ele
próprio afirmou aliás solenemente: "Se me pedirdes alguma coisa em
meu nome, fá-la-ei" (Jo 14,14). E bem que no sacrifício
eucarístico principalmente - onde Cristo é, ao mesmo tempo,
sacerdote e vítima e por isso de modo especial, exerce as funções de
conciliador - as orações se dirijam ordinariamente ao Eterno Pai
pelo seu Unigênito, contudo não raro, e até no santo sacrifício,
dirigem-se também ao divino Redentor; pois que todos os cristãos
devem saber claramente que Jesus Cristo homem é também Filho de
Deus. Por isso quando a Igreja militante adora e invoca o Cordeiro
imaculado e vítima sagrada, parece responder à voz da Igreja
triunfante, que perpetuamente canta: "Ao que está sentado no trono
e ao Cordeiro, bênção e honra e glória e poder nos séculos dos
séculos" (Ap 5,13).
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