|
92. Como com razão adverte o Apóstolo: "Os membros do corpo
que parecem mais fracos são os mais necessários; e os que temos por
mais vis, cercamo-los de maior honra" (lCor 12,22-23).
Gravíssima sentença que nós, cônscios da obrigação que nos
incumbe pelo nosso altíssimo oficio, devemos repetir, ao vermos com
profunda mágoa que às vezes são privados da vida os deformes,
dementes e afetos por doenças hereditárias, por inúteis e de peso à
sociedade; e que alguns celebram isso como uma conquista do progresso,
sumamente vantajoso ao bem comum. Ora, que homem sensato há que não
veja isso não só como uma violação flagrante da lei natural e
divina,[60] impressa em todos os corações, mas também que não
lhe repugne atrozmente aos sentimentos de humanidade? O sangue desses
infelizes, tanto mais amados do Redentor quanto mais dignos de
compaixão, "brada a Deus da terra" (cf. Gn 4,10).
93. Mas para que esta genuína caridade, com que devemos ver o
Salvador na Igreja e nos seus membros, não venha pouco a pouco a
arrefecer, é bom contemplemos ao mesmo Cristo como supremo modelo de
amor para com a Igreja.
94. E primeiramente imitemos a vastidão daquele amor, esposa de
Cristo é só a Igreja; contudo o amor do divino Esposo é tão
vasto, que a ninguém exclui, e na sua esposa abraça a todo o gênero
humano; pois que o Salvador derramou o seu sangue na cruz para
conciliar com Deus a todos os homens de todas as nações e estirpes,
e para os reunir num só corpo. Por conseguinte o verdadeiro amor da
Igreja exige não só que sejamos todos no mesmo corpo membros uns dos
outros, cheios de mútua solicitude (cf. Rm 12,5;1Cor
12,25), que se alegrem com os que se alegram e sofram com os que
sofrem (cf. lCor 12,26), mas que também nos outros homens
ainda não incorporados conosco na Igreja, reconheçamos outros tantos
irmãos de Jesus Cristo segundo a carne, chamados como nós para a
mesma salvação eterna. É verdade que hoje não faltam - é um
grande mal - os que vão exaltando a rivalidade, o ódio, o rancor,
como coisas que elevam e nobilitam a dignidade e o valor do homem.
Nós, porém, que magoados vemos os funestos frutos de tal doutrina,
sigamos o nosso Rei pacífico, que nos ensinou a amar os que não são
da mesma nação ou mesma estirpe (cf. Lc 10,33-37) até os
próprios inimigos (cf. Lc 6,27-35; Mt 5,44-48).
Nós, compenetrados dos suavíssimos sentimentos do Apóstolo das
gentes, com ele cantemos o comprimento, a largura, a sublimidade, a
profundeza da caridade de Cristo (cf. Ef 3,18), que nem a
diversidade de nacionalidade, ou de costumes pode quebrar, nem a
vastidão imensa do oceano diminuir, nem as guerras, justas ou
injustas, arrefecer.
95. Nesta hora tremenda, veneráveis irmãos, em que tantas dores
torturam os corpos e tantas angústias lancinam as almas, é preciso
acender em todos esta caridade sobrenatural, para que os bons -
lembramos principalmente os que pertencem a associações de
beneficência e mútuo socorro - combinando os seus esforços, como em
admirável porfia de compaixão e misericórdia, acudam a tão imensas
necessidades das almas e dos corpos, e assim por toda parte
resplandeça a generosidade inesgotável do corpo místico de Jesus
Cristo.
96. Mas porque à vastidão da caridade com que Cristo amou a
Igreja corresponde a constância ativa da mesma caridade, nós também
amemos o corpo místico de Cristo com o mesmo amor perseverante e
industrioso. Nosso divino Redentor, desde a encarnação, quando
lançou os primeiros fundamentos da Igreja, até ao fim da sua vida
mortal, nem um só instante passou em que com exemplos fulgentíssimos
de virtude, pregando, ensinando, legislando, não trabalhasse até
cair de fadiga - ele o Filho de Deus! -em formar ou consolidar a
Igreja. Desejamos pois que todos os que reconhecem por mãe a
Igreja, ponderem seriamente que não só ao clero e aos que se
consagram ao serviço do corpo místico de Jesus Cristo, mas a cada
um na sua esfera, incumbe a obrigação de incremento do mesmo corpo.
Notem-no de modo particular - como aliás já o fazem tão
louvavelmente - os que militam nas fileiras da Ação católica e
colaboram com os bispos e sacerdotes no apostolado e os que em pias
associações prestam o seu auxílio para o mesmo fim. Não há quem
não veja que a ação de todos esses é, nas presentes
circunstâncias, de grande peso e de suma importância.
97. Também não podemos aqui silenciar a respeito dos pais e mães
de família, a quem nosso divino Salvador confiou os membros mais
tenros de seu corpo místico; mas com todo o ardor os exortamos, por
amor de Cristo e da Igreja, a que olhem com o máximo cuidado pelos
filhos que o Senhor lhes deu, e procurem precavê-los contra as
inúmeras ciladas em que hoje tão facilmente se encontram enredados.
98. De modo peculiar manifestou o Redentor o seu ardentíssimo amor
à Igreja nas súplïcas que por ela dirigiu ao Pai celeste. Todos
sabem - para lembrar isto apenas - que pouco antes de subir ao
patíbulo da cruz, orou ardentissimamente por Pedro (cf. Lc
22,32), pelos outros apóstolos (cf. Jo 17,9-19) e por
todos aqueles que pela pregação da divina palavra haviam de crer nele
(cf. Jo 17,20-23). À imitação deste exemplo de Cristo
roguemos todos os dias ao Senhor da messe que mande obreiros para a sua
messe (cf. Mt 9,38; Lc 10,2) e todos os dias suba a nossa
oração encomendando a Deus todos os membros do corpo místico:
primeiro os bispos, a quem está confiado o cuidado das suas dioceses,
depois os sacerdotes, os religiosos e religiosas, que por especial
vocação chamados ao serviço de Deus; na pátria ou em terras pagãs
defendem, aumentam, dilatam o reino do divino Redentor. Nenhum
membro do corpo místico fique fora desta comum oração; mas
lembrem-se especialmente os que vivem acabrunhados das dores e
angústias deste desterro e os defuntos que se purificam no
Purgatório. Nem se esqueçam os catecúmenos, que se instruem na
doutrina cristã, para que quanto antes possam receber o batismo.
99. Desejamos também vivamente que essas orações abracem com
ardente caridade tanto aqueles a quem não raiou ainda a luz do
Evangelho, nem entraram no redil seguro da Igreja, como os que um
triste dissídio na fé ou na unidade separa de nós, que embora
indignos; representamos a pessoa de Jesus Cristo na terra.
Repitamos aquela oração divina do Salvador ao Pai celeste: "Que
todos sejam um, como tu, ó Pai, em mim, e eu em ti; que também
eles sejam um em nós: para que o mundo creia que tu me enviaste"
(Jo 17,21).
100. Os que não pertencem ao organismo visível da Igreja
católica, como sabeis, veneráveis irmãos, confiamo-los também,
desde o princípio do nosso pontificado, à proteção e governo do
alto, protestando solenemente que a exemplo do bom pastor tínhamos um
só desejo: "que eles tenham vida e a tenham em abundância".
[61] Esta nossa solene declaração queremos reiterar, depois de
pedirmos as orações de toda a Igreja nesta encíclica em que
celebramos os louvores "do grande e glorioso corpo de Cristo",
[62] convidando a todos e cada um com todo o amor da nossa alma, a
que espontaneamente e de boa vontade cedam às íntimas inspirações da
graça divina e procurem sair de um estado em que não podem estar
seguros de sua eterna salvação, [63] pois, embora por desejo e
voto inconsciente, estejam ordenados ao corpo místico do Redentor,
carecem de tantas e tão grandes graças e auxílios que só na Igreja
católica podem encontrar. Entrem, pois, na unidade católica e
unidos conosco no corpo de Jesus Cristo, conosco venham a fazer
parte, sob uma só cabeça, da sociedade da gloriosíssima
caridade.[64] Nós, jamais cessaremos as nossas súplicas ao
Espírito de amor e verdade, e esperamo-los de braços abertos não
como a estranhos, mas como a filhos que vêm para a sua casa paterna.
101. Mas se desejamos que sem interrupção subam até Deus as
orações de todo o corpo místico implorando que os errantes entrem
quanto antes no único redil de Jesus Cristo, declaramos contudo ser
absolutamente necessário que eles o façam espontânea e livremente,
pois que ninguém crê, senão por vontade. [65] Por conseguinte
se alguns que não crêem são realmente forçados a entrar nos
templos, a aproximar-se do altar e a receber os sacramentos, não se
fazem verdadeiros cristãos: [66] a fé, sem a qual "é
impossível agradar a Deus" (Hb 1,6), deve ser libérrima
"homenagem da inteligência e da vontade".[67] Se, portanto,
acontecesse que, contra a doutrina constante da Sé Apostólica,
[68] alguém fosse obrigado a abraçar contra sua vontade a fé
católica, nós, conscientes do nosso dever, não podemos deixar de o
reprovar. Mas porque os homens são livres e podem, sob o impulso de
más paixões e apetites desordenados, abusar da própria liberdade,
então é necessário que o Pai das luzes, pelo Espírito de seu
amado Filho, os mova e atraia eficazmente à verdade. Ora, se
muitos ainda - infelizes - estão longe da verdade católica e não
querem ceder às inspirações da graça divina, é porque não só
eles, [69] mas também os fiéis não oram mais fervorosamente por
essa intenção. Por isso nós uma e outra vez exortamos a todos a
que, por amor da Igreja e seguindo o exemplo do divino Redentor, o
façam continuamente.
102. Nas atuais circunstâncias, mais que oportuno, é
necessário orar fervorosamente pelos reis e príncipes e por todos os
que governam e que podem com a proteção externa auxiliar a Igreja,
para que, restabelecida a ordem, por impulso da divina caridade, do
meio das ondas tenebrosas desta tormenta surja "a paz, fruto da
justiça" (Is 32,17), o atribulado gênero humano e a santa
Igreja possam viver uma vida sossegada e tranqüila em toda a piedade e
honestidade (cf.1Tm 2,2). Peçamos a Deus que amem a
sabedoria os que regem os povos (cf. Sb 6,23), de modo que
nunca lhes quadre esta formidável sentença do Espírito Santo: "O
Altíssimo examinará as vossas obras e perscrutará os vossos
pensamentos, porque sendo ministros do seu reino, não governastes
retamente, nem observastes a lei da justiça, nem caminhastes segundo
a vontade de Deus. Horrendo e de improviso vos aparecerá, porque
será rigorosíssimo o juízo dos que governam. Ao humilde concede-se
misericórdia; mas os poderosos serão poderosamente atormentados.
Deus não recuará diante de ninguém, nem se inclinará diante de
nenhuma grandeza; porque o pequeno e o grande criou-os ele, e de
todos cuida igualmente; aos mais fortes, porém, ameaçaos mais forte
suplício. Para vós, ó reis, são estas minhas palavras, a fim de
que aprendais a sabedoria e não venhais a cair" (Sb 6,4-10).
103. Mas Cristo Senhor nosso mostrou seu amor à esposa imaculada
não só trabalhando incansavelmente e orando constantemente, senão
também com as dores e ignomínias que, por ela, espontânea e
amorosamente tolerou. "Tendo amado aos seus... amou-os até ao
fim" (Jo 13,1) e foi com seu sangue que ele adquiriu a Igreja
(cf. At 20,28). Sigamos de boa vontade as sangüinolentas
pisadas de nosso Rei, como exige a necessidade de assegurarmos a nossa
salvação: "Se fomos enxertados nele pela semelhança da sua morte,
sê-lo-emos também pela ressurreição" (Rm 6,5) e "se
morrermos com ele, com ele viveremos" (2Tm 2,11). Exige-o
igualmente a caridade verdadeira e efetiva para com a Igreja e para com
as almas, que ela continuamente gera a Cristo. Com efeito, ainda
que o Salvador, pelos seus cruéis tormentos e morte dolorosíssima,
mereceu à Igreja um tesouro infinito de graças, contudo essas
graças, por disposição da providência divina, são-nos
comunicadas por partes; e a sua maior ou menor abundância depende não
pouco também das nossas boas obras, com que impetramos da bondade
divina e atraímos sobre os próximos a chuva dos dons celestes. Será
esta chuva abundantíssima, se não nos contentarmos em oferecer a
Deus fervorosas preces, sobretudo participando devotamente e, quanto
possível, todos os dias, ao sacrifício eucarístico, mas também
procuramos, com obras de misericórdia cristã, aliviar os sofrimentos
de tantos indigentes; se preferirmos os bens eternos às coisas caducas
deste mundo; se refrearmos este corpo mortal com voluntária
mortificação, negando-lhe todo o ilícito, e impondo-lhe fadigas e
austeridades; se recebermos com humildade, como da mão de Deus, os
trabalhos e dores desta vida presente. E assim que, segundo o
Apóstolo, "completaremos o que falta à paixão de Cristo na nossa
carne, por amor do seu corpo que é a Igreja" (cf. Cl 1,24).
Enquanto isto escrevemos, depara-se-nos à vista uma quase infinita
multidão de infelizes, cuja sorte nos arranca lágrimas da maior
compaixão: doentes, pobres, mutilados, caídos na viuvez ou na
orfandade, e muitíssimos que em conseqüência dos sofrimentos
próprios ou dos seus se vêem às portas da morte. A todos os que
assim, por um motivo ou por outro, jazem imersos na tristeza e na
angústia, exortamos com coração paterno a que levantem confiadamente
os olhos ao céu e ofereçam os seus trabalhos Àquele que um dia os
recompensará divinamente. Lembrem-se todos que a sua dor não é
inútil; mas que será proveitosíssima a eles, e também à Igreja,
se com esta intenção a sofrerem pacientemente. Para isso
ajudá-los-á muitíssimo o oferecimento cotidiano de si mesmos a
Deus, como usam fazer os membros do Apostolado da oração, pia
associação, que nós aqui encarecidamente recomendamos, como
sumamente aceita ao Senhor.
104. Mas se em todo o tempo devemos unir os nossos sofrimentos com
os do divino Redentor para a salvação das almas, muito mais hoje em
dia, veneráveis irmãos, quando o imenso incêndio da guerra abrasa
quase todo o mundo e causa tantas mortes, tantas desgraças, tantos
trabalhos; hoje de modo especial é dever de todos fugir dos vícios,
das seduções do século, das paixões desenfreadas da carne, e não
menos da vaidade e futilidade das coisas terrenas, que nada aproveitam
à vida cristã, nada para ganhar o céu. Ao contrário fixemos bem
no Espírito aquelas gravíssimas palavras de Nosso imortal
predecessor Leão Magno, quando afirmava que pelo batismo nos
tornamos carne do Crucificado,[70] e a belíssima oração de
santo Ambrósio: "Leva-me, ó Cristo, na tua cruz, a qual é a
salvação dos errantes, o único descanso dos cansados, única vida
dos mortais".[71]
105. Antes de terminar, não podemos conter-nos de exortar a
todos uma e muitas vezes a que amem a santa madre Igreja com amor
industrioso e ativo. Pela sua incolumidade, prosperidade e progresso
ofereçamos todos os dias ao Eterno Pai as nossas orações,
trabalhos e sofrimentos, se realmente temos a peito a salvação de
toda a família humana remida com o sangue divino. E enquanto no céu
relampeja a tormenta, e grandes perigos ameaçam a humana sociedade e a
própria Igreja, confiemo a nós, e todas as nossas coisas ao Pai
das misericórdias, suplicando: "Olhai, Senhor, para esta vossa
família, pela qual nosso Senhor Jesus Cristo não duvidou
entregar-se em mãos de malfeitores e sofrer o tormento da
cruz".[72]
|
|