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106. Realize, veneráveis irmãos, estes nossos paternos votos,
que sem dúvida são também os vossos, e alcanee-nos a todos
verdadeiro amor para com a Igreja, a Virgem Mãe de Deus, cuja
alma santíssima foi mais repleta do divino Espírito de Jesus Cristo
que todas quantas saíram das mãos de Deus, e que "em nome de toda a
natureza humana" deu o seu consentimento para que se efetuasse o
"matrimônio espiritual entre o Filho de Deus e a natureza
humana".[73] Ela foi que com parto admirável, porque fonte de
toda a vida celestial, nos deu Cristo Senhor nosso, já no seu seio
virginal ornado da dignidade de cabeça da Igreja; e recém-nascido o
apresentou aos primeiros dentre os judeus e gentios que o foram adorar
qual Profeta, Rei e Sacerdote. Foi ela que com seus rogos maternos
"em Caná da Galiléia" moveu o seu Unigênito a operar o
admirável prodígio, pelo qual "creram nele os seus discípulos"
(Jo 2,11). Foi ela, a Imaculada, isenta de toda a mancha
original ou atual, e sempre intimamente unida com seu Filho, que,
como outra Eva, juntamente com o holocausto dos seus direitos maternos
e do seu materno amor, o ofereceu no Gólgota ao Eterno Pai por
todos os filhos de Adão, manchados pela sua queda miseranda; de modo
que a que era fisicamente Mãe da nossa divina cabeça foi, com novo
título de dor e de glória, feita espiritualmente mãe de todos os
seus membros. Foi ela que com suas eficacíssimas orações obteve que
o Espírito do divino Redentor, dado já na cruz, fosse depois em
dia de Pentecostes conferido com aqueles dons prodigiosos à Igreja
recém-nascida. Ela finalmente, suportando com ânimo forte e
confiante imensas dores, verdadeira Rainha dos mártires, mais que
todos os fiéis, "completou o que falta à paixão de Cristo...
pelo seu corpo que é a Igreja" (Cl 1,24), e assistiu o corpo
místico de Cristo, nascido do Coração rasgado do Salvador,
[74] com o mesmo amor e solicitude materna com que amamentou e
acalentou no berço o menino Deus.
107. Ela pois, Mãe santíssima de todos os membros de Cristo,
[75] a cujo Coração Imaculado confiadamente consagramos todos os
homens, e que agora em corpo e alma refulge na glória e reina
juntamente com seu Filho, nos alcance dele que sem interrupção
corram os caudais da graça da excelsa cabeça para todos os membros do
corpo místico, e, como nos tempos passados, assim hoje proteja a
Igreja com seu poderoso patrocínio e lhe obtenha finalmente a ela e a
toda a humana sociedade tempos mais tranqüilos.
108. Confiado nesta celeste esperança, como penhor das graças
celestes e atestado da Nossa particular benevolência, a todos e a
cada um de vós, veneráveis irmãos, e aos rebanhos a vós
confiados, concedemos de todo o coração a bênção apostólica.
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de junho, festa
dos Santos apóstolos Pedro e Paulo, no ano de 1943, V do
nosso pontificado.
PIO PP. XII
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